Transformação sustentável: o papel das instituições financeiras na transição

Enquanto os riscos da crise climática colocam a população e a economia em alerta, o sistema financeiro fortalece seu papel como vetor de aceleração na transição verde
por Ana Carolina Lahr
As mudanças climáticas decorrentes da falta de cuidados com o meio ambiente já são uma realidade e o Brasil vive de perto suas consequências com as enchentes que alagaram as cidades da região Sul no último bimestre. A tragédia colocou a população em alerta frente ao tema, discutido há décadas por autoridades e especialistas, e mostrou que é imperativo investir em medidas para reduzir as emissões de carbono e os impactos climáticos.
Mais que isso, é preciso agir rápido. Segundo o relatório Risco climático de nove commodities: protegendo pessoas e prosperidade, da PwC, mesmo que a redução das emissões de carbono e a diminuição dos riscos relativos a calor e seca tenham sucesso, as principais commodities ainda devem enfrentar um estresse significativo, com suas produções em risco até 2050, caso os CEOs não acelerem os planos de ação para resguardar a produção. Nesse processo, o sistema financeiro surge atuando como meio, e não fim, ao conceder crédito para a transformação sustentável dos demais setores.

“Nosso papel como banco é dialogar com representantes da sociedade, clientes reguladores, governo e especialistas para juntos construirmos caminhos possíveis para a evolução dessa jornada. Para isso, é necessário identificar os desafios de clientes, fundamentar as discussões em conhecimento técnico de especialistas e acadêmicos, garantir o alinhamento das melhores práticas no setor financeiro”, resume Luciana Nicola, diretora de Relações Institucionais e Sustentabilidade do Itaú Unibanco, destacando que a agenda climática de mitigação, adaptação e resiliência gera oportunidades de negócios para todos os setores. “Mas, para continuar avançando, é fundamental mudar a forma como se organiza a economia e como se fazem negócios, de maneira a entregar valor e a construir oportunidades. Trata-se de uma agenda de transformação na qual vamos alterar processos, modos de produção e matérias-primas, e atualizar tecnologias”, reforça.

Gabriela Bertol, diretora de sustentabilidade do Santander, lembra que faz parte do business de gestão de risco da instituição financeira olhar de forma holística para o cliente e para os setores em que ele está inserido, a fim de entender como isso vai impactar a carteira de crédito e a sua vida. “Quando olhamos para a pauta climática e para a tragédia que está acontecendo no Rio Grande do Sul, entendemos que se tratam de elementos de risco social e ambiental que a gente vem monitorando dentro da carteira há mais de 20 anos, mas é importante que esse senso de urgência se propague nas comunidades, porque ainda temos muito a evoluir”, avalia. “Falamos sobre diminuição de emissões e mitigação dos riscos climáticos. Esse é o caminho, mas se chegarmos tarde no processo de diminuição da pegada de carbono, os riscos físicos aumentam. Precisamos discutir adaptação também”. 

Desafios

Outro motivo para acelerar o processo de transição para uma economia verde é o fato de que a América Latina pode enfrentar perdas equivalentes a 11% do PIB até 2050 sob o cenário de política atual, no qual as repercussões econômicas das mudanças climáticas vêm tanto dos riscos físicos quanto da perda de produtividade do trabalho devido ao aumento do calor. A constatação é do relatório Latin America Shall We Dance?, divulgado recentemente pela Allianz Trade.
Sugerindo estratégias de adaptação para reduzir as perdas decorrentes da crise climática personalizadas por região, Luca Moneta, economista sênior Latam da Allianz Trade e um dos autores do relatório, salienta que o ecossistema financeiro no Brasil pode contribuir redirecionando capital para ações climáticas, melhorando a resiliência da infraestrutura e apoiando o desenvolvimento de práticas agrícolas sustentáveis e de iniciativas de restauração.
Ele considera, porém, que a participação das instituições financeiras tem sido limitada, particularmente no setor privado, embora haja oportunidades para que se envolvam por meio de parcerias público-privadas e outros incentivos fornecidos pelos governos.  Os altos custos dos financiamentos de perdas e danos climáticos residuais, que requerem pagamentos rápidos, são citados como barreiras para a atuação. “À medida que os desastres se tornam mais frequentes, intensos e caros, espera-se que o custo do financiamento de riscos aumente. Além disso, alguns impactos das mudanças climáticas, como perda de identidade cultural, de saúde e de vidas humanas, não são facilmente valorados em termos monetários, o que dificulta a estimativa das necessidades de financiamento para esses impactos residuais não baseados no mercado”, avalia Moneta.
A ampliação dos fluxos financeiros, a superação do “viés doméstico” nas finanças e de barreiras macroeconômicas também são desafios, segundo ele. “Sinalizações claras dos governos, melhor avaliação de riscos e políticas de apoio são necessárias para vencer esses desafios e permitir que o setor financeiro contribua efetivamente para a adaptação às mudanças climáticas na América Latina”, reforça.
Rafael Góis, CEO do Grupo Fictor, holding de participação e investimentos especializada na gestão de empresas no mercado de private equity, lembra que as instituições financeiras no país já têm uma trajetória estabelecida na criação de produtos, parâmetros e relatórios que identificam e validam o impacto ambiental e social dos investimentos, ações que demonstram o comprometimento do setor em promover práticas sustentáveis. No entanto, avalia que ampliar ainda mais essa transformação exige um engajamento contínuo e profundo em alianças estratégicas que integrem políticas públicas e compromissos privados. Para ele, a chave para uma transformação efetiva reside na capacidade da comunidade global de reconhecer e assumir a responsabilidade pelas implicações de suas próprias decisões econômicas. “As instituições financeiras, por sua vez, desempenham um papel vital ao reformular a governança, promover uma cultura de sustentabilidade e facilitar investimentos que alinhem os interesses econômicos com os sociais e ambientais, funcionando como catalisadores para essa mudança global”, pondera.
No âmbito público, o Banco do Nordeste (BNB), tem contribuído com essa missão de maneira muito evidente, segundo Rubens Soares, superintendente de Políticas de Desenvolvimento Sustentável. “Atuamos em consonância com políticas públicas federais que estão alinhadas com essa missão. Temos também buscado atrair novos recursos para apoiar a transformação sustentável na região, interagindo com organismos internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), Banco Europeu de Investimentos, Banco Mundial. Grande exemplo é o apoio ao desenvolvimento da infraestrutura de energia renovável na região nordeste, hoje referência nacional e internacional na geração de energia eólica e solar”.
Ante as incertezas típicas do momento desafiador de transição, o desafio, para ele, está em implementar as inovações com a velocidade exigida de maneira agregadora e com segurança, porém com convicção do rumo a ser tomado. “Isso exige liderança com propósitos definidos por parte dos gestores e compartilhados com todos na organização”.
Já no âmbito privado, a trajetória de mais de duas décadas do Itaú Unibanco na agenda de sustentabilidade e a integração de práticas ESG aos negócios e operações no mercado brasileiro são um exemplo de iniciativa sólida do sistema financeiro na agenda. Na Itaú Asset, por exemplo, a análise de riscos ESG é incorporada a todas as decisões de investimento desde 2004. Já na indústria de banking, a instituição publicou o compromisso de financiamento em setores de impacto positivo, com a meta de destinar 400 bilhões de reais até 2025 para iniciativas que promovam o desenvolvimento da sociedade. Ainda assim, a diretora admite que são inúmeros os desafios para implementar os projetos, os quais vão da obtenção de dados de emissão dos clientes e das atividades até o alinhamento de políticas públicas e do mercado no entendimento das principais ações que precisam ser tomadas para a evolução da agenda. “São desafios totalmente interligados e para os quais prevemos avanços importantes, como a definição da taxonomia sustentável, das novas metas nacionais de descarbonização e de biodiversidade e do estabelecimento de um mercado regulado de carbono nacional, com limites claros”.

“No final, o que queremos é que o recurso esteja fluindo para atividades que contribuam para a descarbonização, e com uma taxonomia bem-feita e bem implementada, é possível garantir ou mensurar o quanto estamos acelerando a transição”, reafirma a diretora de sustentabilidade do Santander.

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