Todo mundo pode ser banco?

Precursores do embedded finance destacam que é possível gerar valor para um negócio com serviços financeiros agregados, sem precisar se tornar um banco completo, e analisam o novo momento de expansão do modelo
Por Ana Carolina Lahr
Já há algum tempo a oferta de serviços financeiros não é exclusividade de bancos e fintechs. Outros segmentos – varejo, educação, delivery, saúde,  agro etc. – cada vez mais incorporam a modalidade a seu leque de serviços. O modelo, chamado de embedded finance, é impulsionado por projeções otimistas do mercado, como a pesquisa da Delloite, divulgada no final de 2022, segundo a qual setores como varejo e telecomunicações poderão captar mais de 115 bilhões de reais em receita nos próximos cinco anos se integrarem serviços financeiros a seus negócios.
O número leva brilho aos olhos dos empresários e, embora em um primeiro momento possa ser associado à possibilidade de gerar novas fontes de receita, a estratégia está muito mais relacionada à melhora da experiência dos clientes. “Serviços financeiros não devem ser a principal oferta, mas um instrumento para aumentar as vendas de um negócio já consolidado. Essa é a linha mestra do embedded finance e, se você mantiver isso equilibrado, vai alcançar o sucesso”, opina Antonio Soares, CEO da Dock, empresa de tecnologia para meios de pagamentos e banking.
O posicionamento está fundamentado no poder de melhora da experiência do cliente contido no modelo, já que, de posse dos dados coletados e com base no relacionamento que mantém com o cliente, a empresa consegue oferecer serviços customizados em uma jornada natural, diminuindo a fricção e gerando alto valor agregado. Ao final, isso contribui para a venda do produto principal.
“Oferecer tecnologia e melhorar o serviço prestado ajuda as empresas a chegarem com menos intermediários ao consumidor final”, comenta Carlos Netto, fundador e CEO da Matera, companhia de tecnologia com foco em soluções e produtos financeiros.
Ele destaca que para muitas empresas, inclusive aquelas que já possuem um negócio estruturado, o modelo de embarcar ofertas financeiras pode gerar resultados surpreendentes. 

“É uma estratégia que requer planejamento, mas pode elevar as vendas e democratizar o acesso aos serviços financeiros, agregando ainda mais valor a qualquer tipo de negócio”.

Foto de: Carlos Netto (Crédito: Matera)

Evolução

Os primeiros movimentos baseados nos princípios do embedded finance começaram a surgir no varejo no final da década de 80. O conceito ganhou força com a regulação das fintechs, em 2013, mas, junto com a resolução – e a necessidade emergente de se promover a inclusão financeira da população –, o modelo do banco digital sobressaiu. Sob essa premissa, nos anos seguintes o varejo viu a oportunidade de oferecer serviços financeiros mais amplos, como o cartão de crédito bandeirado, o empréstimo pessoal e os seguros. “Os bancos passaram a olhar o varejo como um canal de distribuição do produto deles, o que foi muito positivo do ponto de vista da inclusão financeira da população, mas o princípio do embedded finance começou a ser desvirtuado”, observa Soares. 
Ele destaca que, do ponto de vista regulatório, o processo de estruturação do embedded finance muitas vezes exige que a empresa obtenha as licenças de uma financeira, mas isso não significa que ela deva pensar e atuar como uma. “São duas realidades distintas: as licenças que você precisa para implantar e o que você faz com as licenças que tem. Esse é um ponto superimportante”, orienta.
Impulsionado por uma nova onda de visibilidade, o modelo vive hoje um momento de expansão, como considera o executivo. “A gente começa a perceber que esse aprendizado do varejo é aplicável para outras indústrias, que começam a se perguntar: será que eu não consigo embarcar serviços financeiros para meu cliente, fornecedor ou parceiro de forma que isso seja um diferencial para meu negócio?”.

Democratização

Graças ao avanço da tecnologia e da regulação, e com a ajuda de plataformas especializadas e devidamente credenciadas para atuar nesse setor, é possível hoje implantar o embedded finance de maneira descomplicada em empresas de qualquer segmento ou porte.
“Não só acredito nisso como vejo o processo na prática. Se você tem entre quinhentas mil e dez milhões de contas, consegue interagir com esse ecossistema”, reforça Soares. São três as possibilidades para um negócio aderir ao modelo: 1) a empresa pode ser grande o suficiente para ter sua própria licença e infraestrutura, optando pela implementação através do SaaS (Software as a Service); 2) ela pode ser grande, mas não querer assumir as responsabilidades e o compliance que uma licença exige; 3) ou ser uma empresa menor, que só tem condições de entrar no ecossistema porque pode se apoiar em empresas que oferecem a licença como serviço. Nesses dois últimos casos, o modelo Banking as a Service é o que viabiliza o projeto.

“Entregar acesso a serviços financeiros ao consumidor final é o que importa. O fato de ser ou não o dono dessa licença não gera percepção de valor para quem está recebendo lá na ponta”, lembra Soares.

Foto de: Antonio Soares (Crédito: Karin Marcitello / Dock)

O ecossistema que engloba microempreendedores individuais (MEI) e vendedores autônomos de mercados como o de seguros e o imobiliário – por meio dos corretores – abriga nichos que ganham força ante o amadurecimento da tendência. Para Netto, o que define se o modelo vai funcionar ou não é a existência de uma cadeia de valor: “O ponto é você usar o embedded finance de uma forma inteligente, para empoderar até mesmo o pequeno lojista, por exemplo, que não tem limite de crédito”.  Além disso, o modelo pode chegar ao cliente final por meio de três diferentes estratégias, que impactam o consumidor de diferentes formas. 

Veja o quadro para entender como isso acontece:

Regulação como precursora

Envolvidas no universo da tecnologia desde a década de 90, a Dock e a Matera são consideradas precursoras do embedded finance no Brasil, tendo seus líderes não apenas acompanhado o nascimento do conceito no mercado como contribuído ativamente na sua construção.
A exemplo da C&A, do Mercado Livre – com o Mercado Pago – e do eBay, nos anos 80 teve início o movimento do varejo no sentido de ofertar serviços financeiros a suas bases. “Naquela época, porém, o conceito ainda não havia sido criado”, destaca Carlos Netto.  Ele recorda que nos anos 2000 já observava, porém, a possibilidade de se criar um modelo baseado na comunicação do sistema bancário. “A ideia era abrir um espaço para que as empresas falassem com o banco de forma padronizada, o que em alguns aspectos lembra o open finance”, salienta.
Foi a partir de 2013, no entanto, com a publicação da primeira norma regulamentando as instituições de pagamento – a Lei 12.865/2013 –, que a ideia começou a ganhar forma. Ao regular a existência de uma versão simplificada de banco com um custo regulatório mais baixo, o BC estimulou a concorrência e possibilitou não apenas o surgimento de novas instituições financeiras. “Percebi que fazia sentido o banco ser embarcado nas empresas que já tinham as cadeias de valor definidas. Pensando nisso, e inspirado no mercado automobilístico, que embarca a tecnologia da injeção eletrônica de forma invisível na máquina, passei a chamar esse movimento de embeded fintech”, recorda.
Em pouco tempo, o mercado incorporou e fez evoluir a definição para o que é conhecido hoje como embedded finance. “Claro que era algo que já existia. Foi aliás inspirado pelo mercado, mas nomeamos para poder explicar melhor o que era aquele serviço”, pondera. Para viabilizar ainda mais a inovação, a concorrência e a inclusão financeira no sistema financeiro, em 2021 o BC publicou a Resolução 150/2021, que revogou as normas anteriores para dar origem a uma regra única e robusta para a regulamentação do mercado de pagamentos.
A partir desse momento, a oferta de uma estrutura para sustentar a existência das novas fintechs ganhou impulso: enquanto em 2017 o país tinha apenas seis instituições de pagamento registradas no Banco Central, em 2021 esse número já era de 111. “Uma delas era a Dock, e só dentro da Dock existiam nesse período outras 103 fintechs”, destaca o CEO da empresa, reforçando o papel democratizador do modelo proposto. “Somamos nossa tecnologia à possibilidade de desmaterializar a complexidade de ter essas licenças em uma oferta inclusiva. Na época, a gente chamava de Banking in a Box. Depois, o mercado batizou de Banking as a Service (BaaS).”
Ainda no caminho regulatório, movimentos recentes introduzidos pelo BC no sistema financeiro, como o open finance e o Pix, contribuíram com a valorização das fintechs na percepção da população e, com isso, despertaram um maior interesse do mercado em embedar os serviços financeiros nas suas operações.“O Pix virou inspiração mundo afora e colocou o Brasil em destaque. Logo vão começar a ver outros feitos como o embedded finance, embora nesse cenário sejam necessárias algumas condições específicas, como a legislação de instituições de pagamento que regulariza fintechs, por exemplo”, observa Netto. 

Competição ou colaboração?

Ao mesmo tempo que se firma como um modelo eficiente para promover boas experiências aos clientes da indústria não financeira suprindo suas demandas mais individuais, o embedded finance se mostra como uma oportunidade para os bancos manterem sua relevância e sobreviverem no mercado. “Ao investir nesse caminho, eles estão reforçando seu posicionamento como plataforma”, enfatiza Carlos Netto.
No novo modelo, chamado pelo empresário de ‘banco corporativo 2.0’, a proposta é que o banco passe a atender às empresas sob outra perspectiva. “Ele dá automação à cadeia de valor, mas continua no comando das transações”, destaca. 
Ao final, a colaboração é o que permitirá a prosperidade para ambos os lados. Mas, para usufruir dos benefícios, ele reforça que ainda é preciso uma mudança de paradigma. “Existe uma sinergia e uma possibilidade de parceria entre as empresas que têm sua própria fintech para otimizar seu processo de negócio e os grandes bancos tradicionais. Por exemplo, quando notamos que atividades de pagamento acabarão indo para o operador da empresa, que está acostumado com volume, enquanto ao banco serão destinadas operações mais complexas, que exigem um know-how específico. Para o banco do atacado, isso é mais natural. Para o banco do varejo, pode significar uma perda na base, mas é necessário se adaptar”, adverte.
Antônio Soares ressalta que nesse cenário o banco não sofre ameaças. “Ele não vai ‘morrer’. Muito pelo contrário, porque o produto que a gente vai acabar consumindo vai ser dele. A captação, no caso, é que será do fornecedor.” 
Empresas como a Dock e a Matera atuam conectando o banco e as empresas não financeiras  no que se refere a esses pontos. “É quase como se a gente estivesse em um portal com visão para as duas dimensões, abrindo caminhos e novas oportunidades”, finaliza.
Gráfico - panorama - embedded finance
*Esse conteúdo foi originalmente publicado no Anuário Brasileiro de Bancos, da Cantarino Brasileiro. Clique aqui para baixar o material na íntegra. A pesquisa completa do Panorama dos Bancos 2023, você encontra aqui.

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