Tarciana Medeiros

Presidenta do Banco do Brasil destaca o comprometimento de sua gestão com a equidade de gênero

Por Ana Carolina Lahr

O mais recente relatório Global Gender Gap, divulgado em junho pelo Fórum Econômico Mundial, mostrou que o Brasil melhorou significativamente seu posicionamento no ranking dos países com melhor paridade entre os gêneros, pulando da 94ª posição para a 57ª. O índice geral é resultado de uma média simples entre quatro critérios, que mostram que no país as oportunidades educacionais e de acesso à saúde são as mais igualitárias, com o índice na casa do 0,9 em uma escala na qual “1” significa total igualdade. O critério que analisa o empoderamento político mostra a maior discrepância entre gêneros, chegando a 0,263. Enquanto isso, na avaliação da participação e oportunidades econômicas entre os gêneros, observa-se um avanço, porém ainda há um longo caminho a se seguir com o índice em 0,670.
Ainda sobre esse tema, um outro estudo, divulgado em julho deste ano pela FGV EAESP, analisou a desigualdade de gênero no setor financeiro do Brasil e constatou que as mulheres são sub-representadas no setor de finanças brasileiro, tanto em nível de cargos quanto em remuneração. Além de menos representatividade e menor remuneração, o estudo ressaltou que as mulheres também costumam enfrentar mais dificuldades quando o assunto é crescimento profissional dentro desse setor, já que no quesito distribuição, a divisão no cargo de analista é equivalente entre os gêneros, mas quando se trata de cargos mais elevados, a participação feminina cai drasticamente, com mulheres ocupando apenas 7% dos cargos de liderança.
Felizmente, é possível observar no mercado financeiro iniciativas que se propõem a mudar esse quadro, dentre eles, a própria gestão do Banco do Brasil, que desde o ínicio do ano, quando elegeu Tarciana Medeiros como a primeira presidenta mulher da instituição financeira, elevou o status da pauta da diversidade e igualdade de gênero.
Desde então, é possível notar na prática a evolução dos índices e da cultura voltadas aos temas: hoje, o BB está entre as empresas de capital aberto que mais possuem presença feminina em postos de liderança; ainda nesse caminho, recentemente o Banco aprovou ações afirmativas para as mulheres em todos os programas de ascensão corporativos.
Em entrevista exclusiva à Cantarino Brasileiro, a presidenta do banco destaca o valor da mulher na instituição financeira, fala sobre os desafios para manter a diversidade tema transversal tanto nas ações internas quanto externas da instituição, e ressalta como a tecnologia tem contribuído como compromisso do BB em gerar valor para a sociedade.
CANTARINO BRASILEIRO – É evidente que na sua gestão a bandeira da diversidade ganhou protagonismo, mas o Banco do Brasil há tempos fundamenta suas ações de diversidade nos pilares Equidade de Gênero e Raça, LGBTQIA+ e Pessoas com deficiência. Qual você acredita que tem sido a maior dificuldade para implantar essa cultura em uma comunidade tão grande e distinta como a dos funcionários do BB?
Tarciana Medeiros – O Banco do Brasil está comprometido com um Programa de Diversidade que contempla gênero, geração, LGBTQIAPN+, PCD e raça e constantemente está na vanguarda desses temas. Na minha gestão o foco é evoluir, colocando ações de diversidade em posição estratégica na governança da empresa, e não apenas em ações pontuais. A maior dificuldade é ganhar tração e celeridade para ações que são mais que urgentes, mas nossos resultados têm caminhado de uma forma que também nos dá muita esperança. Por exemplo: entre as empresas de capital aberto no país, somos uma das que mais possui presença feminina em postos de liderança. Pela primeira vez na história de mais de 214 anos do BB, temos um Conselho de Administração e um Conselho Diretor com maior diversidade de gênero, raça e orientação sexual. Metade das oito vagas em nosso Conselho de Administração é ocupada por mulheres. No nosso CA, também temos dois negros. E duas pessoas LGBTQIAPN+. Já, no Conselho Diretor, atualmente somos 45% de mulheres, número bem maior que os 11% do ano passado. Na Diretoria Executiva como um todo, as lideranças femininas representam 21% dos cargos, acima dos 13% de 2022. Esses são avanços expressivos e que continuam no nosso foco.

" A velocidade das mudanças nesses seis meses de gestão traz para nós, mulheres negras, a convicção de que esse movimento de maior participação em níveis decisórios veio para ficar, de forma definitiva. "

CB – Você reconheceu no seu discurso de posse que o tema da diversidade ainda precisa avançar bastante na estrutura da organização. Ainda assim, apontou que a pluralidade de ideias seria o ponto de partida no fortalecimento de uma cultura focada no orgulho do pertencimento, protagonismo, capacidade inovadora e justo reconhecimento pelos resultados alcançados. Em um semestre de atuação foi possível avançar tanto quanto imaginou nesse sentido?
TM – Sabendo que a diversidade garante melhores resultados e um desempenho financeiro mais eficiente, além de contribuir para o desenvolvimento de um ambiente de trabalho saudável, mais colaborativo, inovador e motivador, o Banco tem avançado na estruturação da governança de diversidade e inclusão.
Ainda no primeiro semestre, o BB criou o Comitê Estratégico de Diversidade, Equidade e Inclusão. E aqui eu destaco, mais uma vez, a importância dessa medida, por sua posição estratégica na governança da empresa. Esse comitê terá o mesmo nível deliberativo e hierárquico de outros comitês imprescindíveis para atuação do Banco, como os comitês de crédito, de risco e de capital.
A estratégia é buscar por um modelo mais ágil e adaptativo de governança. A proposta visa integrar funcionários e a alta administração para acelerar o foco e a gestão da diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Também promover debates junto à sociedade e viabilizar uma contínua transformação.
CB – Voltando à diversidade e à cultura organizacional, sabemos que há uma ouvidoria interna para receber relatos daqueles que se sentem assediados ou acuados por colegas. Como se dão essas tratativas? 
Nossa Ouvidoria é mais um canal de comunicação entre a empresa e os funcionários de todo Brasil e exterior. A atuação da Ouvidoria Interna é fundamental na gestão da ética corporativa, pois ela acolhe, analisa e propõe soluções para denúncias sobre conflitos interpessoais no ambiente de trabalho, conflito de interesses e/ou código de ética, entre outros. 
Ela acolhe e encaminha às áreas gestoras para tratamento das irregularidades, os elogios e as sugestões. Tudo isso por meio do diálogo e da mediação, buscando ser acolhedora, oferecendo escuta ativa independente da função exercida, humanizando as relações, e buscando identificar e interromper comportamentos que ferem o Código de Ética do Banco.
O canal busca agir com transparência, imparcialidade e justiça, aplicando nosso código de ética, que é revisto anualmente e é a formalização dos princípios e regras que orientam nossas atitudes diárias, principalmente quando vivenciamos dilemas éticos e precisamos tomar decisões aderentes às expectativas do Banco. 
A versão 2023 do Código de Ética atualiza e enfatiza a reflexão e discussão acerca do tema Diversidade, no conceito de Assédio Moral e Sexual, inclusão do tema Metaverso e IA e melhorias no tema “Conflito de Interesses”, por exemplo.
A Ouvidoria Interna possibilita às mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ solicitar atendimento exclusivo por mulheres na Ouvidoria Interna sempre que a sua denúncia envolver indícios de assédio sexual ou discriminação.
O Banco também viabiliza para as vítimas de violência doméstica as medidas necessárias para contribuir com sua segurança e bem-estar e, em parceria com a nossa Caixa de Assistência Médica, oferece apoio psicológico para as vítimas.
CB – O Projeto de Liderança Feminina foi implantado em 2018, mas podemos dizer que o conceito de “liderança como exemplo” nasceu com a sua posse. Depois que você assumiu, pela primeira vez o Banco do Brasil teve quatro mulheres no Conselho Diretor. Como se dá esse projeto e o que efetivamente mudou (evoluiu) com a sua gestão sob essa perspectiva? 
Em minha carreira tive grandes líderes, homens e mulheres, que lideraram pelo exemplo. O Banco do Brasil também tem um histórico de grandes líderes em seus quadros. Agradeço essa sua percepção, que muito me orgulha. É um grande prestígio e uma imensa responsabilidade ser a primeira mulher a presidir o BB, porque penso que seja minha responsabilidade entregar uma empresa ainda mais diversa para os que virão.

" Eu sempre digo que não queremos estabelecer cota de mulher, mas sim igualdade de oportunidades. Minha gestão está comprometida em discutir o papel da mulher na sociedade e a necessidade de estruturarmos ações que reafirmem o compromisso com a equidade. "

Queremos que as mulheres ocupem o lugar que imaginarem e cheguem ao topo que desejarem, seja ele qual for. Esse tema foi, inclusive, mote neste ano, de campanha publicitária do Banco, reafirmando, diante de toda sociedade, nosso comprometimento com o tema.
Minha gestão está verdadeiramente engajada para que essas ações ultrapassem os muros da empresa, chegando aos nossos clientes, fornecedores, e onde mais nós pudermos alcançar com nosso trabalho. Um número representa muito bem isso: no primeiro semestre deste ano, 4,2 milhões de pessoas tomaram alguma linha de empréstimo ou financiamento, incluindo financiamento de veículos. Dessas pessoas, 2,2 milhões são mulheres. Elas tomaram R$ 27,5 bilhões, representando crescimento de 18% na comparação com o primeiro semestre de 2022.
São valores que reforçam nossos aspectos negociais em ações que trazem autonomia financeira. No total, foram mais de R$ 55,4 bilhões desembolsados para pessoas físicas no período. Além das Pessoas Físicas, estamos ao lado de quem mais emprega! Liberamos R$ 48 bilhões para as micro e pequenas empresas no semestre, com elevação de 22% no volume de crédito. No período, destinamos recursos para mais de 180 mil micro e pequenos empresários. Cerca de R$ 17 bilhões foram liberados para mulheres empreendedoras, valor 20% maior do que o concedido no primeiro semestre de 2022.
Enfim, uma série de ações têm acontecido para engajar todos os funcionários e também chegar aos clientes para a promoção da equidade no Banco.
CB – Você afirmou no discurso de posse que o objetivo da sua gestão seria mostrar que é possível conciliar a atuação comercial do BB com sua atuação pública no sentido de gerar benefícios para toda a sociedade. Após seis meses nesse posto, em um ano que não é exatamente favorável do ponto de vista econômico, quais você diria que são os maiores desafios para atingir esse equilíbrio? Como tem trabalhado para superar as adversidades?
Divulgamos nossos resultados do semestre agora, na primeira quinzena de agosto. O BB obteve um belo resultado e inclusive manteve a inadimplência controlada. A performance do nosso primeiro semestre reflete o jeito Banco do Brasil de fazer negócio, demonstra o objetivo de entregar resultados sustentáveis e superar as expectativas dos clientes, mercado e sociedade. E isso é o que vislumbramos para os próximos trimestres.
O lucro de mais de R$ 17 bilhões no semestre – com o esforço dos nossos mais de 125 mil colaboradores de todo o conglomerado BB, composto por funcionários do Banco do Brasil e das empresas em que o BB está em sua estrutura societária –  demonstra nosso compromisso com a geração de negócios sustentáveis e com a eficiência na condução da empresa. 
Nossa carteira de crédito cresceu de forma qualificada e ultrapassou a marca de R$ 1,045 trilhão para as pessoas físicas, empresas, para a agricultura familiar, para o agronegócio e para Governos. Apresentamos desempenho significativo em todos os segmentos e continuaremos crescendo. 

" Damos retorno adequado aos nossos acionistas e buscamos atender às expectativas da sociedade na construção de um país que precisa criar condições para que as pessoas tenham uma melhor qualidade de vida. " O que buscamos é gerar valor para toda sociedade, concedendo crédito com qualidade aos diversos setores da economia brasileira e oferecendo atendimento de excelência aos nossos clientes.

CB – O BB é conhecido como um dos bancos mais inovadores do país. Se tivesse que definir um número para o estágio da evolução digital do banco, qual seria ele (0 – nenhuma transformação; 10 – máxima transformação)? Quais os pontos que mais exigem atenção, na sua opinião? 
O Banco do Brasil tem o cliente no centro de sua estratégia, procurando ser cada vez mais relevante na vida do cliente, construindo relacionamentos de longo prazo, e oferecendo uma experiência personalizada e de excelência. Nessa busca em sermos relevantes para nossos clientes, o BB tem sido pioneiro em diversas soluções que melhorem a experiência desse cliente, seja ele pessoa física, jurídica, agronegócios e, com isso, gerem novos negócios.  Sem dúvida o Banco é uma instituição moderna e que está sempre à frente no mercado de tecnologia. Isso é motivo de muito orgulho para nossos funcionários. Nós temos o App mais bem avaliado do mercado financeiro, por exemplo.
No primeiro semestre de 2023, investimos em tecnologias que visam garantir a continuidade e modernização dos serviços do Banco, estando associadas à ampliação, atualização e continuidade dos serviços, garantindo o crescimento orgânico e o incremento da infraestrutura atual para viabilizar o atendimento a novas demandas do negócio. Elas têm como premissas a inovação, a agilidade, a flexibilidade e a confiabilidade das soluções de TI. O que nos possibilita também, sermos mais assertivos na entrega de crédito aos nossos clientes.
Nossa intenção é evoluir cada vez mais na entrega de um Banco do Brasil para cada cliente. Acredito que, neste e nos próximos anos, serão essenciais os investimentos em tecnologias que possibilitem a continuidade do movimento de hiper personalização do atendimento, como a ampliação do uso de inteligência artificial, Internet das Coisas, transmissão de dados em 5G, Big Data e Analytics.
Além disso, recentemente, o BB realizou concurso com mais de 1,6 milhão de inscritos, justamente para cumprir a estratégia de renovação natural na rotatividade da empresa diante de aposentadorias, por exemplo, e para oxigenar áreas, como a de tecnologia, para a qual abrimos vagas específicas nos últimos concursos. 
Eu diria que não me cabe dar uma nota, mas se preciso for, é uma nota 10. Mas uma nota dez que não permita que a instituição se acomode, já que sempre buscamos o pioneirismo em inovações que levem melhorias para nossos clientes e funcionários. 
CB – Você já afirmou que a transformação digital do BB é consolidada pela capacitação continuada e pelo protagonismo dos funcionários. Como esse aspecto é trabalhado?
A capacitação e evolução de nosso corpo funcional nunca parou e é uma busca incessante na nossa empresa. A minha trajetória dentro do Banco é prova disso. As oportunidades de formação, minha dedicação, estudos e planejamento, além, claro, do apoio dos colegas, me fizeram estar onde estou. O banco é cheio de oportunidades, temos uma das melhores universidades corporativas do mundo, premiada, inclusive. A empresa é um centro de formação de excelência na capacitação de líderes. Minha gestão está comprometida em dar continuidade e acelerar, no que for possível, essa transformação, que é uma constante em nossa instituição.

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