tecnologias bancarias do futuro

Especialistas discutem os desafios da tecnologia no setor financeiro

| Por Ana Carolina Lahr |

O setor financeiro vive nos últimos dez anos uma disrupção intensa apoiada na tecnologia. Tudo começou com o advento das fintechs, que trouxeram soluções novas de fazer o que já existia; mais recentemente, o processo foi acelerado com a entrada da cripto economia e do blockchain. Em meio a todas essas propostas que geram valor, eficiência, redução de custo e inclusão financeira, porém, ainda existem desafios. Identificar essas barreiras e refletir sobre maneiras de superá-las foi o principal objetivo do painel O gap das tecnologias para atender às prioridades no mercado financeiro, mediado por Carlos Augusto de Oliveira, CEO e founder da Certdox durante o webinar Tecnologias Bancárias do Futuro, realizado no mês de março pela Cantarino Brasileiro. 

Para falar do assunto, estiveram presentes Luiz Mussa, coordenador de arquitetura corporativa da Tecban; Rodrigo Soeiro, CEO da Monnos; e Raul Moreira, conselheiro do Banco Original e PicPay, membro da diretoria da ABECS –  Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços, e da ABBC – Associação Brasileira de Bancos.

Os especialistas iniciaram a conversa trazendo suas perspectivas sobre as apostas em tecnologia para o setor financeiro a curto prazo. Soeiro abriu a conversa com uma observação que adiantou a polêmica desta semana ante a publicação da Carta Aberta dos especialistas pedindo a desaceleração da evolução da IA. O cenário da inteligência artificial aplicada traz um novo panorama aí que eu gostaria mais de ouvir do que de posicionar, porque, honestamente, fui surpreendido com a velocidade com que está acontecendo. O ambiente de tokenização traz muita interoperabilidade. A gente já tem um cenário bastante positivo sob o olhar tanto da instituição, com essa clareza sobre a facilitação de gestão e de interoperação, apesar de haver um desafio de entendimento”, observou. 

Para ele, assim como a IA, que vem sendo desenvolvida há muito tempo e ganhou seu lugar de destaque, em breve será a vez do metaverso, que ainda vive um momento de muitos testes. “Em algum momento surgirá uma aplicabilidade para ele que trará uma nova dinâmica, assim como a IA propõe nesse momento, apostou.

Moreira lançou o olhar para a agenda do Banco Central, que desde 2016 trabalha no fortalecimento de um tripé pix, open finance e CBDC, e salientou que ela é determinante no processo de movimentação do mercado financeiro e dos investimentos relacionados à tecnologia por parte da indústria financeira. Essa agenda tem derivado, nos últimos dez anos, em um direcionamento lógico envolvendo a evolução da tecnologia e do próprio consumidor, lembrou.

Considerando que esse é o momento do CBDC, o conselheiro do Original afirmou que a expectativa é que se crie uma ponte definitiva entre o sistema financeiro e o DeFi, “trazendo alternativas para avançar fortemente na tokenização da economia real por meio de toda a tecnologia digital”. 

Apesar da velocidade já inserida no processo evolutivo da inteligência artificial, para ele, a integração desta com outras tecnologias, como o 5G, ocorrerá em médio prazo e esse momento trará uma nova onda evolutiva muito mais intensa.  Quando o 5G se combinar com inteligência artificial e eles atuarem com a tokenização da economia, o mundo dos aplicativos bancários vai mudar sensivelmente, afirmou.

Por outro lado, olhando para as tecnologias que os bancos estão focando diante das suas necessidades do dia a dia, ressaltou que existe uma necessidade de evolução na parte de onboarding de clientes, especialmente no que envolve aspectos relacionados à segurança: Você tem toda a questão de personalização da oferta e melhoria da experiência do usuário e o que fecha o tripé também é a questão envolvendo todos os aspectos relacionados a uso intensivo de inteligência artificial para poder prover maior segurança, uma melhor personalização e uma melhor experiência na oferta para o consumidor final. 

Mussa complementou a discussão salientando que a tecnologia e a transformação digital trouxeram empoderamento tanto para o usuário na ponta, que passou a poder escolher melhor os serviços e produtos, quanto para as empresas, que passaram a fazer entregas mais rápidas e assertivas. A combinação dessas tecnologias vai criar uma explosão de novas ofertas e combinações. A fricção dos pagamentos vai diminuir bastante com essa; a blockchain e a web3 também contribuirão bastante com a segurança dos pagamentos, com a comprovação de identidade e autenticidade das transações, afirmou.

Desafios

A segunda parte do painel entrou trouxe à tona os desafios na aplicação da tecnologia. Ela é uma ferramenta para você aplicar na estratégia de negócio e conseguir gerar valor. Mas, quando se olha um pouco para a necessidade da sociedade, a gente tem vários pontos que ainda precisam ser resolvidos, observou o mediador que, em seguida, questionou os convidados sobre como seria possível romper o gap entre a tecnologia na prateleira e as reais necessidades do cliente final.

Além da questão espacial – o Brasil é um país continental –, a existência de realidades sociais bastante distintas é muito forte no território e foi apontada como um dos desafios para as empresas no país. “Tem todo o cuidado para poder não só levar essas tecnologias a quem é naturalmente aberto a elas, mas também para incluir aqueles que não estão bancarizados, estão sub-bancarizados ou que têm dificuldade de lidar com a tecnologia”, salientou o representante da Tecban.

Soeiro destacou que outro desafio é parar de ver os entrantes disruptivos com um olhar de confronto e entender que o novo deve complementar o que há de tradicional. “A gente tem uma oportunidade muito clara de posicionar o Brasil de uma forma totalmente diferenciada no cenário de exploração de tecnologia, porque quando a gente fala do âmbito financeiro, a gente já é diferenciado em relação ao restante do mundo. A própria exportação da solução pix é um exemplo disso. O desafio para tornar isso acessível ao usuário é fazer com que tanto a empresa que está trazendo a solução nova – a fintech – quanto as grandes empresas possam aprender a trabalhar juntas na devida velocidade”, reforçou ao lembrar que a agilidade é um grande atributo na disrupção e também o que levou muitas empresas com quem trabalhou ao êxito. “ O desafio é claro para os dois lados, tanto para a startup quanto para as grandes empresas: como absorver essa solução, validá-la e implementá-la com velocidade para você se diferenciar como instituição. Na minha experiência, aquelas onde a gente obteve êxito de implementação rápida foram as que souberam separar em essas implementações. Então cria-se um ambiente de implementação de teste, implementação e validação onde você consiga fazer isso de forma ágil, que é algo que as startups fazem muito comumente apoiada em beta testers”.

O mediador lembrou que um dos segredos de aplicar bem a tecnologia é não pensar na tecnologia, mas nas pessoas. Nesse sentido, Moreira revelou que, ao seu ver, unir a tecnologia à estratégia da empresa é o grande desafio do século: “o board precisa ser capaz de discutir tecnologia. Se ele estiver desconectado da discussão da estratégia da tecnologia, o que deve ser feito e o que não deve ser feito e como deve ser feito realmente, a companhia acaba entrando numa série de fracassos”.

Cultura da inovação

O ponto de vista levou o painel a um terceiro momento, no qual a cultura da inovação foi apontada como principal elemento para garantir esse sucesso e, finalmente, chegar ao cliente final de maneira descomplicada. “Tem um trabalho de evangelização que toma tempo e às vezes a pessoa não está disposta a inovar porque aquilo coloca até o emprego dele em risco caso ele erre. A mudança cultural da instituição para absorção de inovação e absorção de erros é parte do processo”, complementou Soeiro.

Mussa concluiu trazendo a lembrança de que além da criação da cultura é necessário trabalhar na educação tecnológica das pessoas e, cada vez mais, incluir o tema nos currículos das escolas. “Temos que estar preparados e estar preparados para preparar a própria empresa para ser disruptiva ante os seus próprios produtos”, finalizou.

 

Compartilhe

Notícias relacionadas

Resenha
Regulamentação de estrutura, atividades e ativos negociados geram expectativa no mercado de criptoativos
Especialistas avaliam propostas apresentadas na consulta pública para regulação das atividades no país “A regulamentação...
Resenha
Especialistas discutem segurança e gestão de risco na regulamentação dos serviços de criptoativos
Discussão foi gerada durante o primeiro webinar da trilha Ativos Digitais, realizada pela Cantarino Brasileiro...
Resenha
“Para 2024, a tendência é que o país cresça de forma mais homogênea entre as regiões”, diz economista
Apesar das dificuldades fiscais e monetárias, Sergio Vale posiciona o Brasil com positivismo em análise...
Resenha
“O banking, além do setor financeiro, deve aproveitar a simbiose com o seu ecossistema”, diz especialista
Representantes do varejo, telco e utilities compartilham experiências do cross industry com o setor financeiro...

Assine o CANTAnews

Não perca a oportunidade de saber todas as atualizações do mercado, diretamente no seu e-mail

plugins premium WordPress
Scroll to Top