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Por que os governos estão constituindo suas próprias criptomoedas?

Por George Richards*

Governos de todo o mundo, da Suécia à Venezuela, estão interessados em desenvolver suas próprias moedas virtuais e opções de pagamento digital

As criptomoedas são um bom exemplo da luta do antigo contra o novo, das revoluções e da resistência, na medida em que as moedas digitais desafiam as ideias das pessoas sobre o que é possível. Após o lançamento do bitcoin em 2009, houve escárnio e ceticismo, antes de movimentos graduais de aceitação. Embora a regulamentação esteja atrasada em relação à inovação, é crescente que países e bancos centrais expressem o desejo de construir suas próprias opções de moeda digital.

Entre os países que exploram o potencial de criptomoedas apoiadas pelo Estado, a Suécia é sem dúvida o favorito. O país é o garoto-propaganda dos defensores de uma sociedade sem dinheiro, principalmente pela adoção de aplicativos de pagamento digital e mobile banking pelos suecos. Foi quase inevitável que o Sveriges Riksbank, banco central da Suécia, anunciasse um plano para verificar o potencial do e-krona.

Equivalente em valor à moeda física sueca, Kronor, a e-krona é concebida como o equivalente digital da moeda regular do país, que o Riksbank espera que seja usada em pequenas transações entre consumidores, empresas e autoridades. No entanto, enquanto a Suécia ainda está em fase de planejamento – o estudo sobre a viabilidade da e-krona deve terminar em 2019 – a Venezuela já lançou sua  moeda eletrônica apoiada pelo estado, o petro.

O petro é basicamente uma forma de [o governo venezuelano] captar dinheiro estrangeiro vendendo nada, avalia o designer de software e comentarista de criptomoedas da Venezuela, Alejandro Machado. É muito claro que eles não têm intenção de realmente apoiar o petro usando qualquer recurso significativo que seja realmente válido.

A diferença entre petro e e-krona, da Suécia, é que a primeira está atrelada ao preço do petróleo. Um petro tem valor equivalente a US$ 60 e representa um barril de petróleo extraído do cinturão de petróleo de Orinoco, na Venezuela. Durante a pré-venda da criptomoeda, os investidores receberam ofertas de US$ 60 tokens de desconto, que poderão trocar por petros durante a oferta inicial de moedas, ou ICO, que deve ocorrer este mês.

Para Machado, que deixou a Venezuela em 2015 e hoje mora na Cidade do Panamá, o petro representa uma tentativa desesperada do governo de aumentar a oferta em moeda estrangeira. Ele diz que enquanto o governo venezuelano saúda a criptomoeda como um meio de aliviar as pressões econômicas impostas ao país e seu autoritário presidente Nicolás Maduro devido a sanções, ele não ilusões que o dinheiro possa ajudar a população venezuelana.

O governo tem pressionado muito a narrativa de que o petro vai resolver seus problemas, que vai aliviar a guerra econômica imposta a eles, afirma. Creio que eles querem que a população os apoie com a ideia de que o petro é boa, mas não tenho motivos para acreditar que o petro tornará a vida venezuelana melhor.

Enquanto Machado duvida que a moeda eletrônica apoiada pelo governo na Venezuela traga retornos benéficos para a sociedade em seu país, uma plataforma de tecnologia financeira na Finlândia se uniu ao governo finlandês para ajudar refugiados a entrarem no sistema bancário.

A MONI, sediada em Helsinque, trabalha com o governo finlandês há quase três anos para garantir que refugiados, que muitas vezes enfrentam barreiras no sistema bancário tradicional, possam ter acesso aos serviços financeiros necessários. A plataforma usa uma combinação de contas mobile-first e cartões mastercard pré-pagos para prover aos clientes recursos básicos, para que possam liquidar contas e receber pagamentos.

“In 2015 we piloted the asylum seeker programme with the government of Finland which enables asylum seekers to get their government benefits paid to their digital MONI accounts,” explains Antti Pennanen, MONI’s chief executive and founder. “Before MONI, everything was done in cash.”

“Em 2015, conduzimos o programa de refugiados com o governo da Finlândia, que permite que esses emigrantes obtenham benefícios do governo, pagos em suas contas MONI digitais”, explica o diretor-executivo e fundador da MONI, Antti Pennanen, “Antes da MONI, tudo era feito em dinheiro”.

Apesar da mídia dizer o contrário, a MONI ainda não incorporou a tecnologia blockchain ou de criptomoedas em seu programa de refugiados. Mas, pode não ser por muito tempo. Como o Riksbank da Suécia, a startup começa a explorar formas de trabalhar com criptomoeda e sua tecnologia associada, blockchain, especificamente no que diz respeito aos pagamentos móveis.

A MONI tem uma patente de autenticação de transações de criptomoedas por meio de redes de telefonia móvel, que operam em qualquer telefone GSM, explica Pennanen.

A blockchain é útil devido ao seu status como um dos recursos digitais mais seguros que foram desenvolvidos. Com os refugiados muitas vezes perdem boa parte dos documentos necessários para estabelecer uma nova vida, em um novo país, a blockchain é um meio seguro de armazenar dados e completar transações.

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Não fazemos blockchain por causa da blockchain, acrescenta Pennanen. “Mas estamos pesquisando seu potencial e usando-o, entre outras novas tecnologias, onde ela agrega valor ao usuário final.”

Enquanto um número crescente de criptomoedas possa parecer confuso, para o diretor-executivo e fundador da The Real Asset Co., Ralph Hazell, a concorrência criada só pode contribuir para um sistema monetário mais forte. Isso, em contrapartida, ajuda a proteger as sociedades, pelo menos em algum grau, de quaisquer futuros desastres financeiros.

Minha opinião sobre isso é que o sistema monetário precisa de concorrência entre moedas para ser robusto, comenta Hazell. Quanto mais moedas concorrentes tivermos, e incluo bitcoin nisso, mais testado ser o sistema e é menos provável que estejamos expostos.

A Real Asset Co tem trabalhado em sua própria criptomoeda que é 100% apoiada pelo preço do ouro. Conhecida como goldbloc, uma única unidade equivale a um milésimo de grama de ouro e vale cerca de três pences [de acordo com o site CoinMill, equivale a R$ 0,14].

Hazell atribui o sucesso das criptomoedas por estimular governos e reguladores financeiros a explorar suas próprias opções. Graças à bitcoin e outras criptomoedas, há grande curiosidade sobre o que as moedas alternativas são, o que é o nosso sistema monetário atual e o que há de errado com ele, assinala.

Os reguladores simplesmente não estavam interessados em abrir para esse tipo de moeda alternativa, uma caixa de Pandora, mas o bitcoin os forçou a isso porque simplesmente eles não podem desativá-lo.

Para Hazell, no entanto, atrelar uma criptomoeda e uma commodity, como ouro, petróleo ou prata, significa que, embora essa moeda nunca seja totalmente descentralizada como é o bitcoin, os usuários tem como vantagem a menor volatilidade. O ouro manteve o seu valor desde o início da mercantilização, desde a Mesopotâmia de 5000 AC, afirma. Isso pode ser feito com prata, com pedras preciosas – se você puder torná-lo comodity, então, poderá digitalizá-lo.

Medir o sucesso de criptomoedas como a e-krona e a petro vai significar um jogo de espera para os envolvidos. Machado avisa que, embora seja ótimo ver os governos começarem a adotar essa nova liberalização do sistema monetário, também poderia fornecer meios para que os países desonestos explorem a natureza resistente à censura das criptomoedas.

“A tecnologia de criptomoedas pode ser usada para contornar as sanções”, adverte. “Se alguém estiver interessado em financiar, será possível. Pode-se financiar quem quiser.”

There remains much to be discovered about the potential scope of cryptocurrencies, let alone whether or not they are viable options for governments. After all, some of the key draws for bitcoin users are the cryptocurrency’s decentralised nature, anonymity and lack of government involvement, aspects that government-backed coins may struggle with.

Há muito a ser desvendado sobre o potencial das criptomoedas, sem contar se são ou não opções viáveis para os governos. Afinal, um dos principais atrativos para os usuários de bitcoin é sua natureza descentralizada, o anonimato e a falta de envolvimento do governo, aspectos com os quais as moedas apoiadas por governos podem ter que enfrentar.

* George Richards escreve para o The Economist e The Daily Telegraph de países como Colômbia, Honduras e Argentina.

Fonte: Raconteur

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