Crédito de: @fernandomucci

“Para 2024, a tendência é que o país cresça de forma mais homogênea entre as regiões”, diz economista

Apesar das dificuldades fiscais e monetárias, Sergio Vale posiciona o Brasil com otimismo em análise do cenário político econômico mundial

por Ana Carolina Lahr

No início de outubro, o economista Sergio Vale abriu o Fórum Banking Anywhere, realizado pela Cantarino Brasileiro, com uma visão que posicionou o Brasil com otimismo no cenário político-econômico mundial.

“No absoluto, temos dificuldades já bastante conhecidas, mas no relativo (com o resto do mundo), temos boas histórias para contar”, observou, logo na introdução da sua apresentação. 
Ele ressaltou que apesar dos desafios históricos vividos pelo país, especialmente no âmbito fiscal e monetário, o Brasil tem apresentado ativos positivos de extrema importância no campo dos investimentos. Entre eles, estão as commodities, que representam 40% do PIB do país e têm impulsionado o crescimento do país como um todo. “O interior do agro tem vindo com força e vai continuar nos próximos anos”, apostou. O ativo ambiental também foi elogiado pelo economista.

Cenário internacional

Na primeira parte da apresentação, Vale falou sobre o cenário internacional e destacou a influência que os movimentos podem ter no Brasil.
A começar pelos Estados Unidos, ele mostrou que a economia norte-americana continua forte, mas ressaltou os pontos que farão de 2024 um ano de grande desafio com a política fiscal, uma vez que, com a dificuldade do governo baixar as taxas de inflação e a alta dos juros, não deve demorar para acontecer uma desaceleração da economia no país. “Potencialmente, uma recessão”, alarmou Vale.
Se a previsão se concretizar, naturalmente o Brasil sentirá o seu reflexo. “Puxadas pelos Estados Unidos, a gente vai ver as taxas de juros mais elevadas nos próximos anos. E isso significa também uma base para a nossa taxa de juros. A gente vai ter muita dificuldade em trazer a Selic para 6,5%, como a gente via há alguns anos”, destacou.
Na Europa, a perspectiva não é melhor, conforme mostrou, destacando a situação da Alemanha. “Ela tem, na ponta inicial, uma guerra que gera custo geral elevado e uma inflação complicada e, na ponta final, uma demanda de consumo fraca, já que depende do mercado europeu, em recessão. É um conjunto de países que vai continuar nos trazendo dificuldade”, avaliou.
Por fim, o economista lançou um olhar para a China. “Que é o país que mais nos interessa, já que a maior parte da exportação do Brasil vai para eles”, argumentou. Com o PIB impulsionado pelo mercado imobiliário, ele salientou que a dívida imobiliária do país é hoje maior que a dívida americana, em 2008, o que traz uma preocupação, apesar do grande potencial que o país asiático vem demonstrando.
Conforme Vale, o cenário pode ser amenizado por diferentes caminhos, mas nenhum muito favorável. “Um deles seria usar a política fiscal, o que aumentaria a dívida pública. No entanto, essa dívida já está crescendo com intensidade, fora que fica a dúvida se seria possível fazer os chineses consumirem mais, uma vez que a população está envelhecendo e a tendência é reduzir o consumo”, ponderou.
A segunda alternativa, seria a desaceleração da economia, via recessão. “Isso acaba gerando um descontentamento da população, como sabemos. Aí, o que você faz? Troca o presidente, o congresso, etc. Mas, a China vive uma ditadura. Qual a perspectiva para isso acontecer?”, avaliou. “Pode-se ver que ela também tem desafios muito grandes pela frente”.
Fora esse cenário, a China enfrenta a intensificação da saída de capital após o seu posicionamento político na guerra e dificuldades estruturais que impedem o seu crescimento da China, como a queda da população, o desemprego juvenil, o excesso de investimento na construção e a orientação política contra o crescimento.

“Um país que, nos próximos anos, por não ter gente na área urbana para crescer com capital físico e humano, como fez nas últimas décadas, vai precisar crescer na produtividade. Mas o que vemos é que ela está caindo. Isso significa que a China está em crise e não vamos conseguir exportar por causa disso? Não. Essa é uma situação a longo prazo e não a curto e médio prazo, mas nos alerta para o fato de que a China não vai estar aí para sempre. Daí a constante recomendação para os clientes do agro sobre a diversificação e o olhar para novos players potenciais”, orientou.

Vale destacou também o mercado do petróleo, que será afetado pelo cenário geopolítico, e “pode trazer surpresas para os Estados Unidos”, podendo respingar no Brasil de maneira positiva ou negativa, a depender do caminho tomado. “No caso de uma recessão nos EUA, o preço do petróleo aqui diminuiria, trazendo boas perspectivas”, destacou.

Brasil

No cenário doméstico, Vale apresentou um resumo da história da economia brasileira nos últimos meses e reforçou sua visão positiva. “No absoluto temos dificuldades, mas no relativo tivemos boas surpresas”. 
Ele alertou para o fato de que a política fiscal adotada até o momento traz expectativa de crescimento da inflação e reforçou a força das commodities no crescimento do país em 2023 – que deve ficar entre 3 e 3,5%. O setor agro tem se destacado como o grande impulsionador do movimento – com crescimento de 15% até o momento; a indústria de transformação e investimento continuam em queda.

“Existe o Brasil das commodities, do interior, que está muito forte, e o Brasil urbano, que está sofrendo com as taxas de juros”, observou o economista. “Tem sido assim há alguns anos e a tendência é que esse crescimento continue na próxima década, inclusive, com o Centro Oeste registrando não apenas a melhor renda média do país, mas também a menor desigualdade de renda”, reforçou.

Fenômenos climáticos como o El Ninõ, no entanto, trazem perspectiva de uma leve mudança no cenário nacional como um todo. “Com isso, as commodities não serão mais o que foram nos últimos três anos”. 
Assim, se nos últimos anos o país teve um crescimento prevalecente do Centro Oeste, para 2024, a tendência é que o país cresça de forma mais homogênea entre as regiões. “A gente deve ver uma volta do Sudeste e regiões urbanas nesse cenário por causa da queda de juros, queda do preço dos alimentos, aumento da renda disponível e efeito de curto prazo do Desenrola [programa de negociação de dívidas do governo federal], que ajuda a população mais pobre e deve auxiliar a estabilizar os índices de inadimplência”, finalizou.

Assista à apresentação completa:

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