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Pagamentos só querem ser gratuitos

Por Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe*

A acelerada transformação pelas quais passam os meios de pagamento em todo o mundo se torna cada vez mais perceptível, inclusive com a entrada de novos players com atividades totalmente desvinculadas do setor financeiro. Neste artigo, que vamos publicar em três partes, os autores discutem a rápida mudança na natureza dos pagamentos oriundas dos avanços tecnológicos, e a ascensão do uso das carteiras eletrônicas. Discorrem sobre a função de pagamento estar cada vez mais incorporada como apenas um recurso entre os muitos oferecidos, como em aplicativos móveis, em que o valor principal e o lucro derivam de outros serviços. Eles ainda comentam sobre a adesão desses meios em algumas partes do mundo. Na Ásia, por exemplo, os autores explicam que esse fenômeno é o mais acelerado. Lá, os consumidores pularam os pagamentos com cartão para adotar carteiras eletrônicas, principalmente em super aplicativos como o WeChat. 

O mundo dos pagamentos mudou

Em uma recente partida de rugby na Malásia, um dos autores pediu um frango grelhado no espeto para um quiosque gerenciado por um garoto de 12 anos. Apenas a dinheiro? Dificilmente – ele teria um QR code para os clientes pagarem por meio do aplicativo Grab.

Outrora dominados por grandes bancos e empresas de cartão de crédito, os pagamentos se tornam um convite interessante, associado a outros serviços oferecidos por inúmeras empresas nativas digitais. À medida que a concorrência se intensifica e a tecnologia reduz custos, o preço dos pagamentos vai continuar caindo. Nos mercados de consumo e de negócios, fornecedores incorporam cada vez mais a função de pagamentos a modelos e ecossistemas de negócios mais amplos.

Quase metade dos pagamentos no comércio eletrônico e mais de um quarto dos pagamentos no ponto de venda mundiais serão feitos via carteira eletrônica até 2022, prevê a Worldpay, em grande parte às custas de dinheiro, cartões e cheques (veja a Figura 1). O próprio e-commerce vai se ampliar a uma saudável taxa anual combinada de crescimento de 19%.

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Em partes da Ásia, em breve, os pagamentos poderão ser instantâneos e essencialmente gratuitos tanto para o consumidor ou como para o lojista. As autoridades monetárias de Singapura, Filipinas e Tailândia vislumbram essa possibilidade mesmo para pagamentos transfronteiriços. Na Índia, os recentes êxitos da plataforma de software unificado “India Stack” e do sistema de pagamento em tempo real da Interface de Pagamento Unificado (UPI, do inglês Unified Payment Interface) vêm sendo estudados por outros governos como um modelo potencial para tornar os sistemas de pagamento nacionais mais acessíveis e eficientes. O governo indiano também considera abolir as cobranças da taxa de desconto do comerciante para os aqueles que permitem a seus clientes fazer pagamentos por meio de métodos de pagamento digitais de baixo custo.

Alguns aplicativos móveis, como o GrabPay, já oferecem soluções de pagamento para consumidores e para varejistas, e as usam como ferramenta para rápida aquisição de clientes e aproveitamento de seus dados para monetizar outros serviços. Mesmo em mercados maduros de cartões, em que os pagamentos permanecem lucrativos para bancos, adquirentes e prestadores de serviços de gateway ou de pagamento, incluindo os EUA, partes da Europa, Brasil e Austrália, os lucros unicamente com pagamentos estão sob pressão e os preços inevitavelmente vão diminuir.

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Outra ameaça para a velha guarda financeira é a moeda virtual, como a Libra, recentemente proposta pelo Facebook com o apoio das redes de pagamentos Visa e Mastercard e das empresas de internet Uber e eBay. O Facebook incorporaria um sistema de pagamento em seus serviços de mensagens, para que os usuários pudessem enviar dinheiro de maneira fácil e barata a amigos ou para fazer compras. Os associados da Libra argumentam que isso beneficiaria muitas pessoas que não têm uma conta bancária, por exemplo, cortando taxas de remessas internacionais. 

Certamente, as moedas digitais enfrentam obstáculos técnicos e regulatórios significativos antes que possam substituir o fluxo tradicional de pagamentos de consumidores, de negócios e institucionais. No entanto, o nível e a sofisticação do investimento também aumentaram com outras iniciativas, como a JPM Coin do JPMorgan, testes digitais de moeda fiduciária por bancos centrais em Singapura, Canadá e outros países e várias iniciativas de stablecoin (projetadas para minimizar a volatilidade ou se aproximar da moeda fiduciária) lideradas por vários bancos.

Enquanto as transações domésticas formam a maior categoria de pagamentos, os transfronteiriços são os mais rentáveis para bancos e redes de cartões de crédito como Visa e Mastercard, e a evolução digital em curso ameaça essa importante fonte de lucros (Figura 2). Um banco na Europa, por exemplo, obteve quase um décimo do seu lucro global em 2016 em transferências de dinheiro através das fronteiras. O TransferWise, que cobra uma fração das taxas bancárias típicas para pagamentos no exterior, foi recentemente avaliado em US$ 3,5 bilhões após uma nova rodada de investimentos, tornando-se uma das mais valiosas fintechs da Europa.

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* Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe são parceiros da Bain & Company em serviços financeiros, digitais, TMT (Telecomunicações, Mídia e Tecnologia) e estratégia. Eles estão baseados, respectivamente, em Singapura, Londres, São Paulo e Singapura

1 – Grab é um app de caronas do Sudeste Asiático que oferece serviço de reserva para táxis, carros particulares e motos.

2 – N.T. Segundo a Forbes, as stablecoins são criptomoedas ligadas a moedas fiduciárias em uma proporção de um para um, como o dólar dos Estados Unidos e a libra britânica. Isso significa que o valor das stablecoins é sempre o mesmo da moeda fiduciária na qual ela está embasada.

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