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Pagamentos só querem ser gratuitos – os super aplicativos e como as instituições podem se adaptar? – Parte 2

Por Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe*

Na segunda parte do artigo de Olsen, Williams, Cerqueiro e Hoppe, eles mostram o crescimento dos super aplicativos e as formas como as instituições se adaptam à “comoditização” desse mercado. Segundo os autores, bancos, empresas de cartões, varejistas, companhias de telecomunicações e de tecnologia precisam avaliar qual papel os pagamentos desempenharão em sua proposta a lojistas ou consumidores. À medida que os pagamentos se tornam cada vez mais invisíveis e agregados a ofertas não financeiras, eles precisam ajustar sua abordagem

A ascensão dos super aplicativos na Ásia 

A Ásia nos dá os exemplos mais interessantes de meios avançados de pagamento digital. Como as soluções de pagamento tradicionais ainda não haviam sido totalmente desenvolvidas e adotadas na Índia, na China e em outros países da região, varejistas e consumidores saltaram para as emergentes ofertas de celulares. Provedores usam pagamentos para criar ecossistemas mais amplos, à medida que os usuários adotam cada vez mais super aplicativos (veja a Figura 3).

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No sudeste da Ásia, a Grab e a Go-Jek, que iniciaram voo de reconhecimento no mercado sob demanda, estão criando aplicativos multifuncionais, que incluem pagamentos, para aumentar a aderência do cliente. A Grab, com sede em Singapura, entrega comida, faz reserva de hotel, de vídeo, emissão de bilhetes e viagens. A Go-Jek, com sede na Indonésia, construiu um conjunto de serviços em torno de seu negócio principal o transporte em duas rodas, que inclui entrega de alimentos e encomendas, emissão de bilhetes, mudança e limpeza.

O WeChat da China, aplicativo que começou como serviço de mensagens, tornou-se uma solução completa para jogos, pagamentos, social commerce, divulgação e outros recursos. Na Índia, o aplicativo Truecaller que ajuda usuários a rastrear desconhecidos e robocallers agora inclui pagamentos móveis; a varejista de e-commerce Flipkart opera um serviço de pagamentos móveis baseado na UPI (Unified Payment Interface) e a Amazon oferece recursos de pagamento para quitar contas telefônicas e assinaturas a cabo. Para se manterem competitivos, os bancos da região firmaram parcerias com super aplicativos. O DBS se aliou ao Go-Jek em Singapura, enquanto o UOB é o parceiro preferido da Grab.

Esses tipos de empresas geralmente operam sob o pressuposto de que eventualmente cobrarão apenas uma pequena quantia – ou mesmo nada – do consumidor final ou do lojista pelos pagamentos. Alguns desembolsam dinheiro para galgar posições no mercado, com partes lucrativas provenientes de outras funções, como financiamento e outros serviços financeiros a consumidores e comerciantes, além de uma variedade de outros serviços, incluindo software de contabilidade e gerenciamento de estoque. Eles também desenvolvem a funcionalidade de pagamentos como uma maneira de melhorar a experiência do cliente em transações não financeiras.

O ritmo no qual os pagamentos evoluem varia muito de país para região, dependendo da regulamentação, cultura e costumes (veja a Figura 4). Os clientes dos EUA, por exemplo, ainda têm um uso substancial, embora em declínio, de cheques em papel e registra aumento no uso de cartões de crédito vinculados a programas de fidelidade. Os alemães são conhecidos como heavy users de dinheiro. Eles são mais reticentes em fazer empréstimos por meio de cartões. A Suécia, por outro lado, tornou-se uma sociedade quase sem dinheiro. No Reino Unido e na Austrália, o uso de cartões toque e pague sem contato disparou nos últimos quatro anos.

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Como as empresas de pagamentos respondem ao movimento

Certamente, muitas empresas de pagamentos como Worldpay, JPMorgan Chase e Bank of America desfrutam de forte lucratividade em pagamentos, especialmente por meio de aluguel de terminais em pontos de venda e taxas de processamento de transações para pequenas e médias empresas (PMEs). No entanto, embora o volume de transações continue a se expandir, o pool de lucros está diminuindo. Em mercados maduros de cartões que atendem a grandes empresas, que têm mais influência sobre os fornecedores, os preços há muito caíram. A WorldCom prevê que os lucros europeus em terminais caiam 8% anualmente entre o fim de 2018 e 2022. Em suma, mesmo mercados maduros de cartões veem a lenta comoditização dos pagamentos tradicionais de consumidor para empresa.

Isso não significa que as empresas de pagamento não possam continuar a obter margens atraentes, mas exigirá a alteração do manual. Alguns estão se consolidando por meio de fusões e aquisições, a fim de se tornarem mais eficientes em processamento e inovação, entrar em novas geografias ou segmentos de negócios e expandir suas oportunidades de vendas cruzadas. O valor de fusões e aquisições das fintechs subiu durante os primeiros cinco meses de 2019, com US $ 117 bilhões em atividade, sendo a maioria em transações de pagamento, mais do que nos três anos anteriores juntos, de acordo com a Dealogic.

Além da consolidação, muitos compradores adquiriram serviços além dos terminais tradicionais e do processamento de transações, como empréstimos a comerciantes e consumidores, e software de gerenciamento de negócios que inclui folha de pagamento, inventário e gerenciamento de relacionamento com o cliente (veja a Figura 5). A Square, por exemplo, começou como uma empresa que oferecia pagamentos a microcomerciantes por meio de um pequeno dispositivo conectado a um smartphone. Nos últimos anos, a Square se ramificou com softwares de gerenciamento para pequenas empresas e com empréstimos na medida que as assinaturas atingirão 27% de sua receita até 2020, estima o Barclays.

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A terceira estratégia geral envolve facilitar transações de comércio eletrônico e integrar pagamentos com o registro da loja. Empresas nativas digitais especializadas em comércio eletrônico transfronteiriço, como Adyen e Checkout.com tiveram crescimento substancial da receita e múltiplos altos valores de avaliação concedidos pelos investidores.

* Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe são parceiros da Bain & Company em serviços financeiros, digitais, TMT (Telecomunicações, Mídia e Tecnologia) e estratégia. Eles estão baseados, respectivamente, em Singapura, Londres, São Paulo e Singapura

1 – N.T. Segundo o portal Tecnoblog, robocalls são ligações que na verdade tocam uma gravação.

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