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Pagamentos só querem ser gratuitos – e descomplicar a vida dos varejistas – Parte 3

Por Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe*

Na terceira e última parte do artigo Pagamentos só querem ser gratuitos, de Olsen, Williams, Cerqueiro e Hoppe, os autores fazem um exercício de futurismo com relação aos pagamentos, em face às inúmeras mudanças por que passam esse mercado. E comentam os efeitos de novas regulações, como a europeia de open banking, e da intensificação da concorrência na transformação desse cenário, inclusive na composição dos lucros das instituições. De acordo com eles, os pagamentos caminham para serem gratuitos para consumidores e, em última análise, para varejistas, além de se tornarem instantâneos e incorporados a outros serviços ou produtos. 

As duas primeiras partes do artigo estão disponíveis em: Pagamentos só querem ser gratuitos – o indigesto mundo dos pagamentos mudou – Parte 1 e Pagamentos só querem ser gratuitos – os super aplicativos e como as instituições podem se adaptar? – Parte 2

Descomplicando a vida dos varejistas

De fato, para muitas empresas que prestam serviços de pagamentos, tudo se resume aos comerciantes. Alguns provedores, como a Moka na Indonésia, oferecem soluções de pagamento agnósticas. Em outros casos, os provedores foram além dos pagamentos. A PagSeguro, empresa do Brasil voltada para pequenos varejistas, provê não apenas soluções de ponto de venda e pagamento online, mas também planos de crédito e sistemas de gerenciamento de vendas, além de permitir que eles recebam, gerenciem, gastem e transfiram fundos sem a necessidade de um banco tradicional. A Jio, companhia de telecomunicações indiana que faz parte da Reliance, oferece aos pequenos varejistas um dispositivo móvel de ponto de venda com um cartão SIM para receber pagamentos, com sistema de estoques e de pedidos.

Muitas estruturas tradicionais de pagamento também têm investido na evolução de sua proposta aos clientes, modernizando sua rede subjacente e tornando seu ecossistema mais acessível. Essa inciativa fazia parte da justificativa para o American Express comprar a Resy, empresa de reservas de restaurantes.

Outra grande oportunidade para comerciantes e empresas de pagamento é fornecer aos seus clientes informações derivadas da análise dos dados das transações. Por exemplo, adquirentes com parcela maior de operações podem ver quais cidades vão bem em determinadas linhas de produtos e, portanto, devem ser consideradas para a expansão de um varejista.

Além dessas mudanças no mercado, novas regulamentações continuam a intensificar a concorrência em pagamentos. A regulamentação do open banking na Europa, e cada vez mais em outras partes do mundo, impulsionam redes de pagamentos abertas a empresas não bancárias, o que permite que clientes compartilhem facilmente suas informações financeiras com outros fornecedores. A plataforma de pagamentos holandesa Adyen, por exemplo, conectou-se a redes do Reino Unido para gerenciar o fluxo de pagamentos entre banco e comerciante. Em alguns mercados, a intensificação da concorrência e não a mudança regulatória estimulou o open banking, o que poderia criar casos de uso em pagamentos.

Além disso, as regulações da União Europeia limitam as taxas de intercâmbio em 0,2% para cartões de débito e 0,3% para cartões de crédito (com limites também em países como Austrália e Brasil para determinados tipos de cartões), o que afeta a composição de lucros dos emissores e a torna mais desafiadora para financiar estratégias de fidelização.

O ritmo e a magnitude das mudanças significam que um provedor de pagamentos independente pode não criar valor suficiente, a menos que se torne uma plataforma ou um provedor de uma plataforma, para oferecer soluções mais completas aos clientes. Bancos e provedores de pagamentos tradicionais precisam evoluir para se tornarem verdadeiros parceiros de negócios para seus clientes – ajudando comerciantes a vender mais, reduzir custos e criar melhores experiências para os consumidores.

Os varejistas também precisam descobrir como os pagamentos se encaixam em suas ofertas, respondendo a uma série de questões: Qual é o papel dos pagamentos em nossos negócios? Devemos oferecer nossa própria eWallet ou aplicativo? Nesse caso, devemos adotar um modelo fechado ou um que possa ser usado com outros varejistas? Como podemos integrar nossa estratégia de fidelização ou ofertas personalizadas de marketing para incentivar a adoção? De fato, na América do Norte, algumas soluções de pagamentos para varejistas, como o aplicativo da Starbucks e o Walmart Pay, têm taxas de aceitação que excedem às de soluções globais de pagamento (como a Apple Pay), ao agregar valor a clientes por meio de serviços como antecipação de pedidos.

Escolher agora o papel dos pagamentos do futuro

Não importa que tipo de empresa entre na disputa, a nova oferta tende a se concentrar em serviços de valor agregado em cada extremidade da cadeia de comodidades dos pagamentos: conveniência e baixo custo para consumidores; e soluções e financiamento integrados para comerciantes. Assim como o futuro das ligações telefônicas (gratuitas e incorporadas a aplicativos para smartphones como o WhatsApp) e automóveis (elétricos e autônomos), a visão do futuro dos pagamentos é cada vez mais clara. Os pagamentos caminham para serem gratuitos para consumidores e, em última análise, para varejistas, além de se tornarem instantâneos e incorporados a outros serviços ou produtos. Carros e geladeiras, em vez de pessoas, podem começar a fazer pedidos automatizados para reabastecimento. Nos EUA, o Walmart oferece pagamento por eWallet no checkout, assim como a Shell em seus postos de gasolina.

A Juniper Research projeta que os gastos do varejo com a tecnologia de checkout inteligente “just walk out” vão crescer de US$ 253 milhões em 2018 para mais de US$ 45 bilhões em transações até 2023, principalmente em lojas de conveniência e de departamentos. Em breve, acreditamos que um volume expressivo de consumidores exigirá pagamentos automáticos, “just walk out” na maioria dos locais onde compram, de forma que esse recurso se torne uma aposta para os varejistas.

Está menos evidente como fornecedores de plataformas de tecnologia, varejistas, plataformas de comércio eletrônico, bancos e governos devem percorrer o caminho daqui até lá. Descobrir o papel que os pagamentos desempenharão nos planos de uma empresa implica desenvolver uma visão de futuro e os fatores estruturais que vão moldar os pagamentos nos curto e médio prazos. Ter uma visão de futuro vai influenciar as escolhas que eles enfrentam agora e ao longo do tempo.

Os bancos precisarão decidir quais das suas atuais composições de lucros eles abrem mão para permanecerem relevantes no mundo dos pagamentos futuros. E terão que avaliar as opções de tecnologia para modernizar os recursos de pagamento. Os adquirentes precisarão evoluir além do processamento de cartão para pagamentos alternativos e novos fluxos de receita. As plataformas vão desenvolver cada vez mais as bases de consumidores e de comerciantes que usam pagamentos e vão monetizar seu negócio por meio de financiamento e outros serviços. 

Um varejista pode optar por simplesmente incorporar recursos de pagamentos de terceiros em sua oferta, ao passo que uma grande empresa de tecnologia pode optar por desenvolver recursos próprios independentes de pagamento para permitir novas ofertas. Os custos da infraestrutura de pagamentos continuarão a ser cobertos, mas alguns, como os sistemas nacionais de pagamentos em tempo real, se tornarão utilitários, enquanto outros poderão ser remunerados por soluções como de prevenção de fraudes.

Muitos aspectos dos pagamentos estão mudando tão rapidamente que seria fácil esperar que os desenvolvimentos afetassem sua própria organização. Isso seria um erro. É essencial definir opções claras que sejam consistentes com a visão futura do setor, mas também entender quais mudanças ocorrerão em breve e terão um efeito substancial nos negócios e, então, agir antecipadamente sobre elas. Outras mudanças que podem ter grande efeito no longo prazo, mas são mais incertas, podem ser monitoradas para ações no momento certo. Além disso, a tecnologia, a regulamentação e o comportamento dos pagamentos estão evoluindo rapidamente, e as empresas precisarão ajustar sua abordagem com a mesma rapidez.

Sempre que possível, elas devem procurar se moldar à evolução do mercado e não apenas se ajustar a ela. Como na maioria das disrupções, algumas empresas vencem e outras perdem, mas os principais beneficiários serão os usuários finais e os comerciantes que demandam experiências fáceis, invisíveis, instantâneas e sem custo ao pagar pelo que precisam.

* Thomas Olsen, Glen Williams, Antonio Cerqueiro e Florian Hoppe são parceiros da Bain & Company em serviços financeiros, digitais, TMT (Telecomunicações, Mídia e Tecnologia) e estratégia. Eles estão baseados, respectivamente, em Singapura, Londres, São Paulo e Singapura

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