Os gigantes estão mesmo chegando?

Por João Bezerra

Visitei a sede do Alibaba, em Hangzhuo, em 2019, e pude testemunhar pessoalmente como esses caras aprenderam tão bem a construir “money moments” no nosso dia a dia, em vez de adotar a velha abordagem medieval de nos vender produtos financeiros. Na China, o Alibaba cresceu aproximando compradores e vendedores, facilitando a comunicação entre eles, por meio do AliWangwang, tornando pagamentos seguros e invisíveis, por meio do Alipay, e oferecendo financiamento a seus clientes por meio da Ant Financial, uma techfin que está no caminho para se tornar a maior financeira do mundo. E ela não está sozinha na China, cujo mercado conta ainda com empresas como Tencent, Baidu e Ping An, entre outras. Nos últimos anos, os bancos chineses assistiram à migração de cerca de 25% de seus recursos em depósitos para essas plataformas tecnológicas.
Aqui no Brasil, a Amazon lançou recentemente seu cartão de crédito, em parceria com Bradesco e Mastercard, com benefícios agressivos para recompensar a fidelidade dos consumidores de sua loja. Como conhece bem seu histórico de compras e de pagamentos, pode, em um simples clique, com zero fricção, aprovar uma compra sua em 15 parcelas, sem que você nem perceba que recebeu um empréstimo. Novamente, um daqueles “money moments” acabou de acontecer.
A mágica não é nova. A Apple também, há alguns anos, tirou a fricção de pagamentos com a conveniência contactless do Apple Pay. Esse movimento possibilitou à empresa um maior conhecimento dos hábitos de seus consumidores, viabilizando o lançamento de seu cartão de crédito e de sua “savings account”, em parceria com o JPMorgan. Em alguns meses, a iniciativa já fez com que o braço financeiro da marca pudesse ser considerado um dos maiores neobanks do mundo, com mais de 10 bilhões de dólares em depósitos.
Na mesma linha, a Google mostra sua ambição fintech lançando um produto de conta corrente em conjunto com o CitiGroup. Ainda no Silicon Valley, se imaginarmos que apenas 5% dos 3,8 bilhões de usuários da Meta um dia confiem seus pagamentos ou depósitos a essa outra big tech, teríamos uma das maiores instituições financeiras do planeta.
Isso sem falar em experiências do nosso dia a dia, como Uber, AirBnB e Rappi, que também se aventuram nesse caminho, e de fintechs das mais diversas indústrias, além do varejo – como agro, saúde, logística –, que conhecem muito bem seus nichos de mercado e já estão tirando fricção do sistema financeiro para serem mais efetivas na hora de fazer negócios.

Banking ou payments? Inovação ou regulação?

Mas, será que as big techs ou as novas fintechs querem mesmo passar a estar sob os olhares dos fortes órgãos reguladores que supervisionam bancos em todo o planeta? Bem, o sucesso das tech giants está baseado principalmente na sua capacidade de nos cativar com inovação, conveniência e encantamento.
A Amazon e o Alibaba, apesar de sua atuação diversificada, têm no e-commerce sua fonte principal de receitas, atingindo centenas de milhões de consumidores, e certamente instrumentos de meios de pagamento e de financiamentos podem trazer uma alavancagem importante.
A Google e a Meta têm a publicidade como sua fonte principal de receita. Possuem ainda em comum uma marca forte e uma audiência que atinge bilhões de usuários, que certamente teriam simpatia por uma experiência de pagamentos “by Google” ou “by Meta”.
Já a Apple fatura mais de 200 bilhões de dólares anuais com a venda de produtos de serviços, com um potencial enorme para oferecer financiamentos a seus fiéis consumidores.
Mas construir experiências invisíveis para pagamentos é uma coisa. Outra, mais difícil, é tornar invisível ou simplificar toda a experiência bancária, o que envolve muito conhecimento e um amplo domínio de centenas de processos. Portanto, ter a noção correta da diferença entre “banking” e “payments” é fundamental para players de outras indústrias realmente entenderem que caminhos novos querem trilhar. Afinal, para se transformar em um banco deverão  estar dispostos a ter uma atuação com base em regras, muito bem definidas por reguladores locais e globais, com foco prioritário em estabilidade e segurança.

Qual é a vocação das techs?

Para um certo alívio das organizações financeiras tradicionais, não parece que ser um banco full-service seja uma vocação natural das big techs. Será que seus acionistas gostariam de ver seus múltiplos de valor de mercado em patamares muito inferiores aos atuais e similares aos de bancos de varejo tradicionais? Será que faz sentido investir fortemente em uma plataforma de core banking que vem se transformando quase em uma utility?
Pesquisas nos Estados Unidos mostram que 50% dos clientes Amazon confiariam nessa gigante como seu banco principal, mas a Amazon já anunciou: “Não somos um banco”. Apesar da escolha, é de se refletir que, com suas competências em oferecer experiências únicas e cativantes, essas empresas possuem poderosas armas e já estão atacando os produtos mais rentáveis existentes em volta do core bancário do sistema financeiro, como pagamentos, cartões de crédito e seguros, sem se tornarem um banco.
A chegada do open finance favorece ainda mais essa posição e empodera fortemente fintechs de diversos segmentos econômicos e industriais importantes no Brasil. O que sobrará para bancos se não reagirem à altura nesse cenário? Somente a tradicional conta corrente? Perderão as oportunidades de cross-selling que subsidiam essas contas? A experiência do consumidor de varejo corre o risco de sair de seu controle? Será que as big techs precisam mesmo virar bancos para ganhar essa batalha?

Essa não é uma disputa tradicional. E, para tentar entendê-la melhor, fica aqui a dica de David Birch: “A amazonização dos serviços bancários é muito diferente de a Amazon ser um banco”. 

É para pensar.

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