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O que o investimento do PayPal no Mercado Livre significa para o varejo nacional?

Por Victor Dubugras*

O investimento que a gigante americana de meios de pagamento PayPal irá fazer no Mercado Livre pode significar uma mudança na forma como conhecemos o varejo hoje. O valor do aporte, que chegará a US$ 750 milhões, serve especialmente para consolidar sua operação na América Latina – em especial no Brasil -, além de brigar de frente no quesito serviços para os lojistas da sua base e também no aprimoramento da sua solução de pagamento – o Mercado Pago.

O que devemos ver daqui para frente é que o setor, que já passa por transformações não só em razão de um aumento de competitividade, mas também pelos novos hábitos dos consumidores, passará a disputar a tapa cada etapa da jornada de compra. E aqui estamos falando não somente da aquisição do produto, mas também da forma como a compra será recebida e como o pagamento será efetuado.

O Mercado Livre hoje é líder em participação no segmento de marketplace no País, com cerca de 30% do share. A competição, porém, está se acirrando, não apenas pela expansão dos principais players nacionais do setor, como B2W, Via Varejo e Magazine Luiza, mas, sobretudo pela tão temida entrada da Amazon no Brasil. Por isso, com toda a estrutura operacional, tecnológica e logística que essa pode proporcionar para os lojistas, é natural que o Mercado Livre busque formas de se resguardar.

Na parte de serviços de pagamentos, atualmente, a companhia possui mais de 1 milhão de cartões emitidos nas suas operações no Brasil, México e Argentina. Isso significa uma força muito grande na briga pelo público desbancarizado e na oferta de serviços de digital wallet. Isso é particularmente significativo, principalmente pela pluralidade de perfil que a empresa possui dentro da sua base. Ou seja, todas as vendas efetuadas dentro do Mercado Livre viram crédito no Mercado Pago, a menina dos olhos da empresa, que busca intensificar certas estratégias para se diferenciar dos demais players do segmento – sobretudo do PagSeguro, a principal força concorrente nessa frente.

Para reforçar sua atuação nesse sentido, o foco será em oferecer novas tecnologias e formas de pagamento. Isso significa implantação de modalidades como autenticação biométrica e tokenização para pagamentos eletrônicos. Para isso, a companhia reafirmou o seu acordo com a operadora de cartões Mastercard. Há mais de três anos as empresas trabalham em conjunto. A aliança incluiu o lançamento de cartões pré-pagos que espelham o saldo digital do Mercado Pago e que permitem que pessoas paguem compras online e offline com a bandeira.

Neste cenário, em que as empresas que atuam no setor são protagonistas no controle de operações financeiras e na oferta de serviços de mesma natureza, é evidente que esse movimento gere impactos no varejo nacional. E o PayPal observa isso com olhos atentos. O próprio CEO da empresa afirmou que o comércio digital na América Latina está experimentando um enorme crescimento, e que a companhia vê as oportunidades de integrar os seus recursos para criar experiências únicas e valiosas para os seus clientes. Na prática isso significa passar a ter uma participação mais clara no país na oferta de serviços de pagamentos.

Analistas de mercado inclusive já consideram que um dos principais impactados da entrada do PayPal no Mercado Livre será evidentemente o PagSeguro. Em relatório, analistas do Bradesco BBI afirmaram que a operação deve fornecer fundos sólidos para um despertar no mercado de meios de pagamento no Brasil, o que deve aumentar a pressão competitiva em cima do PagSeguro, empresa que já apontou o Mercado Livre como uma fonte potencial de competição.

Todas essas soluções tecnológicas que impactam na forma como são efetuadas as operações de serviços financeiros e os próprios meios de pagamentos são extremamente estratégicas para as varejistas, que veem nisso uma forma de impulsionar os seus negócios. As grandes varejistas que possuem ações negociadas na bolsa brasileira sofreram perdas no dia do anúncio – o que mostra que o mercado está atento a esse movimento. Com o Mercado Livre atuando de forma mais intensa, sobretudo com o respaldo do PayPal, é possível imaginar que veremos essa briga se acirrar. E as demais empresas precisam se mexer e trazer soluções que realmente sejam valiosas para o setor, ao mesmo tempo que protegem suas marcas.

*Victor Dubugras é head de marketing da Hash, fintech especializada em infraestrutura de pagamentos

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