O poder de transformação da instantaneidade financeira advinda com o lançamento do PIX

O poder de transformação da instantaneidade financeira advinda com o lançamento do PIX

Por Raul Moreira*   

A inegável evolução e disseminação da tecnologia, associada a mudanças no comportamento dos consumidores, tem impulsionado importantes evoluções que impactam todos os setores da economia. No caso específico do segmento de serviços financeiros, essa transformação tem acelerado a criação de novos produtos e serviços, assim como a ampliação do ecossistema de empresas que atuam no setor.

Com a entrada em vigor do PIX, Sistema de Pagamentos Instantâneos no Brasil, espera-se naturalmente uma aceleração ainda maior desse movimento, tornando-se assim um importante marco para os consumidores, bancos, comércio e até para outros ecossistemas que ainda não necessariamente visualizaram esse possível momento de ruptura.

Vale destacar que um dos motivos que tem incentivado os avanços recentes no segmento financeiro no Brasil é também o fato de hoje termos um ambiente regulador favorável. O Banco Central vem claramente incentivando um ecossistema mais aberto, inclusivo e com um maior nível de competição e inovação.

E o PIX representa um dos alicerces dessa agenda estratégica do Banco Central, denominada de BC#. A construção de uma infraestrutura de pagamentos instantâneos no país será um importante passo para essa transformação, que já vem ocorrendo desde a promulgação da Lei 12.865/13, a chamada lei dos meios de pagamentos.

O PIX permitirá transferências e pagamentos entre pessoas, empresas e governos de maneira mais simples e barata, em um sistema que vai funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana. O serviço possibilitará ainda compras em estabelecimentos comerciais físicos por meio do uso da tecnologia de QR Code, um modelo de código que passou a ser amplamente usado no mundo e que a partir da sua leitura pelo celular direciona o consumidor para a solução de pagamento.

Mas o mais revolucionário é trazer para o mercado brasileiro o advento da instantaneidade no processo de transferência interbancária de recursos. Isso não é uma questão trivial, pois nunca tivemos uma infraestrutura que proporcionasse esse tipo de transação no Brasil de uma maneira tão ampla. O mais próximo que temos disso é o eficiente sistema de cartões implantados no País.

Neste aspecto, o PIX viabilizará uma série de inovações, tanto na indústria de meios de pagamentos como em outros mercados, sendo alguns até mais evidentes como o comércio eletrônico. Mas essa nova modalidade pode ir muito além, estimulando a criação de soluções inéditas ou que venham atender a uma demanda reprimida de mercado, tais como empréstimos entre pessoas, leilões virtuais, venda de microsseguros, entre outros tantos serviços que podem ser favorecidos pela instantaneidade.

No entanto, o PIX precisará enfrentar um grande desafio: estimular a mudança de hábito do consumidor. Isso porque ele afeta desde o uso dos cartões de débito e do papel moeda, até os diversos tipos de operações bancárias amplamente conhecidas, incluindo o uso de TED/DOC e até o pagamento por boletos. Dessa forma, o seu sucesso depende de uma educação da população e de uma comunicação massiva sobre o tema.

Entre os benefícios diretos está a possibilidade de inclusão no sistema financeiro dos cerca de 45 milhões de brasileiros desbancarizados, bem como apoio direto aos mais de 24 milhões de trabalhadores por conta própria, segundo o IBGE, e outros públicos tão importantes para o desenvolvimento econômico.

Outro impacto direto será na redução do uso do papel moeda, o que tende a estimular uma maior formalização da economia, uma vez em que todas as operações ficam registradas. Tente imaginar o custo atual da sociedade com o nível de uso do dinheiro no estágio em que se encontra, principalmente em termos de necessidade de proteção, na violência sofrida pelos mais desamparados e no campo fértil da informalidade como instrumento de desigualdade.

Logicamente, que o sucesso do PIX depende também do engajamento das instituições participantes. Mas, ao que tudo indica, tanto os grandes quanto empresas financeiras entrantes já demonstraram interesse pelo tema. Prova disso está no fato de que mais de 980 instituições – boa parte delas fintechs – se inscreveram para participar desse novo ecossistema.

Enfim, independentemente do tempo para educação dos usuários e para a disseminação de novos produtos e serviços que serão criados a partir da implementação do PIX, as expectativas são de que ele provoque mudanças significativas em médio e longo prazos na forma como os brasileiros lidam com o seu dinheiro, principalmente a partir de um ambiente mais digital, eficiente e inclusivo.

*Raul Moreira é diretor executivo de TI, produtos, open banking e operações do Banco Original.

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