bancos digitais

O futuro dos Bancos Digitais

O número de empresas que oferecem serviços bancários digitais cresceu de forma significativa nos últimos anos, sustentado por uma combinação de fatores que inclui regulação mais flexível, aportes, tecnologias bancárias pré-moldadas, demanda reprimida de desbancarizados, de semibancarizados e de pessoas em busca de experiências mais fluidas, a pandemia e a consequente necessidade de um canal digital para que as pessoas recebessem auxílios do governo de forma remota.

Independentemente do motivo, o fato é que a quantidade de contas digitais no país superou o número de habitantes, conforme registrou o Ranking de Onboarding Digital 2021, desenvolvido pela idwall em parceria com a Cantarino Brasileiro. A pesquisa descobriu que o Brasil ultrapassou a marca de 250 milhões de contas digitais, na soma dos últimos anos. O estudo projetou ainda que, de janeiro a setembro de 2021, foram abertas pelo menos 115 milhões de contas.


Além disso, um levantamento interno para atualização da tabela de bancos digitais divulgada no Informativo CB Bancos Digitais 2020 mostra, por comparação, que alguns bancos digitais (ou contas e carteiras digitais) registraram um crescimento considerável no número de clientes: o BMG saltou de 2 milhões de correntistas para 7,1 milhões; a fintech Cora, de 10 mil para 500 mil; o Inter passou de 9 milhões para 19,4 milhões. Ainda nesse ranking, o Banco Bari, que em 2020 tinha 10 mil contas em teste, atualmente tem 300 mil no total, das quais 100 mil estão ativas. O Next, por sua vez, foi de 4 milhões para 11 milhões; e o PagBank, de 6,7 milhões de clientes em setembro de 2020 para 23 milhões, em maio de 2022. A atualização do levantamento dos bancos, contas e carteiras digitais de 2022 mostra também um volume consideravelmente maior de players.

Para Ione Amorim, economista e coordenadora do programa de serviços financeiros do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a entrada de novas instituições no setor bancário amplia o ambiente concorrencial, que no Brasil ainda é muito concentrado. Além disso, aumenta a oferta de novos serviços, melhora a qualidade do atendimento, promove redução de custos e estimula a inclusão bancária. “Esse seria o mundo ideal com mais instituições atuando no setor, impulsionadas pelas inovações tecnológicas”, considera.

Nem só de bons resultados vivem os bancos digitais


Os bancos digitais chegaram com a proposta de simplificar os serviços, valorizando a experiência do cliente e a agilidade, rompendo com os modelos vigentes até então e colaborando com a inclusão financeira. No entanto, nem tudo são flores nesse caminho.

Diante da explosão de contas digitais, ofertadas no mercado, ficam as questões: como manter a base de clientes ativa e conquistar outros, rentabilizar esses negócios e sobreviver frente à concorrência?

De acordo com relatório da Simon-Kucher & Partners, a estimativa é que alguns neobanks nunca atinjam a lucratividade e acabem por se dissolver ou voltar seu foco para outro negócio. Exemplo disso é o Xinja, na Austrália, que entrou em colapso completo, e o Volt, que mudou para um modelo bancário de serviço, conforme informações do Insider Intelligence.

Além disso, desde as últimas semanas de maio, o mercado tem assistido a uma desvalorização das fintechs brasileiras, após um período de forte crescimento. O caso mais notável foi o da perda de quase 65% de valor de mercado do Nubank. Outros bancos digitais também perderam: Inter (49%), Modal (25%) e Pan (20%). Especialistas atribuem essa queda aos juros altos e ao risco de inadimplência dos correntistas.

De acordo com o presidente executivo da Casa do Crédito S.A., José Benício de Oliveira Neto, o mercado financeiro não é para principiantes. “Essa não é uma operação para aventureiros ou um empreendimento com custos baratos”, diz. Para ele, muitos dos diversos bancos digitais que surgem – “senão 80% deles” – vão desaparecer em dois anos.

A monetização, ou rentabilização, é um dos fatores que influem diretamente no sucesso ou no fracasso dos bancos digitais. Para o managing director da Accenture, Denis de Freitas, esse é o ponto fraco das carteiras digitais, que só dão custos para o banco e não geram receita.

É possível rentabilizar?

Se desde o surgimento dos primeiros bancos digitais, a principal estratégia adotada foi a da isenção de tarifas, com o passar do tempo a gratuidade gerou prejuízos para muitos desses novos players. Dessa forma, a sobrevivência só foi possível ante os aportes feitos por fundos ou empresas que investiram na aquisição de clientes para gerar lucro no futuro.

A Conta Simples, por exemplo – fundada em 2018 e que não cobra taxas de abertura de conta, nem anuidade de cartão –, recebeu aproximadamente 30 milhões de reais em investimentos.

A Cora contabilizou, desde 2019, 152,7 milhões de dólares quando somados os aportes da Seed, Série A e Série B. No mesmo caminho, a Modal embolsou, em 2020, 250 milhões de reais em investimentos privados e 783 milhões de reais em oferta primária de IPO.

Para o diretor executivo do Claro Pay, Maurício Santos, apesar de o banco digital ser um negócio novo, alguns nasceram de bancos tradicionais e portanto já tinham linhas de negócios e base de clientes – e por isso simplesmente se digitalizaram, criaram um APP como mais um canal. “Eles já estão lucrativos, até pelo seu histórico”, observa. Por outro lado, ele analisa que aqueles que nasceram do zero são negócios que precisam se provar. “Esta é a realidade, mas acreditamos que de fato seja viável.”

Um dos desafios na missão de monetizar está no fato de que em boa parte dos casos um mesmo titular é possuidor de várias contas digitais, em bancos diferentes. De acordo com o levantamento da idwall, o número médio de instituições utilizadas por pessoa vem subindo a cada ano – em 2019, era 2,1; em 2020, passou para 3,2 e, em 2021, chegou a 3,9. Para completar esse gráfico, um estudo feito pela Akamai em abril de 2022 mostra que os entrevistados têm, em média, 4,3 contas digitais.

“Muita gente abre contas para experimentar neobancos, mas efetivamente usa no máximo uma ou duas delas, sendo o restante apenas testes, curiosidade. Ou a pessoa abriu a conta por algum benefício específico. Isso dá esse volume de magnitude de número de contas, que não tínhamos visto nos dois ou três últimos anos. Apesar do crescimento muito relevante, o resultado pode refletir um pouco desse comportamento”, assinala Denis de Freitas.

Ele sentencia: “Não faz muito sentido para o cliente ter dez contas diferentes. É impossível para ele gerenciar uma quantidade absurda de contas”.

Estrategicamente, o presidente da Casa do Crédito S.A. observa que algumas premissas precisam ser observadas para tornar a operação de uma conta digital rentável. Para ele, vão se destacar os bancos digitais que tiverem questões claras, como: qual segmento vai ser atendido, que tipo de problema do cliente a conta veio resolver e como vai fazer isso.

“De forma pragmática e com o máximo possível de tecnologia, utilizando dados e compreendendo como esses dados podem ser trabalhados para encontrar soluções que façam a diferença para aquele nicho específico de clientes”, avalia.


Ante a concorrência, é de esperar que os consumidores busquem a proposta que melhor se encaixe em suas necessidades. “Ninguém acorda e diz: quero comprar um crédito. A pessoa tem um desejo ou uma necessidade e o serviço financeiro é o que o torna viável”, assinala Freitas, que cita como exemplo algumas carteiras digitais que brigam pela conversão com base em situações do mercado. “Com a alta do combustível, vemos um push muito forte de alguns players. O cliente só consegue desconto se baixar o APP e se cadastrar. Então, já existe uma briga pelo consumidor e ela vai aumentar. Quem vai ganhar a batalha é quem conseguir atrair esse cliente com recorrência e rentabilização”, afirma.

*Por Edilma Rodrigues


Essa matéria foi publicada no Informativo Bancos Digitais 2022, produzido pela Cantarino Brasileiro. Para se aprofundar no assunto, baixe o material aqui. E fique de olho, pois a Trilha Bancos Digitais 2023 já começou!

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