Atrasos na divulgação de informes mensais atingem 5% da indústria e acendem alerta na CVM por falta de transparência
O mercado de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) enfrenta um cenário preocupante de falta de dados que já atinge a cifra de R$ 37 bilhões. Um levantamento recente realizado pela Uqbar a pedido a pedido do NeoFeed revelou que um volume expressivo de fundos está operando sem a devida atualização de seus informes mensais, um documento essencial para que investidores acompanhem a saúde das carteiras. Esse montante representa cerca de 5% de toda a indústria de FIDCs no Brasil e equivale a metade de toda a captação líquida registrada pelo setor no ano passado, gerando o que especialistas estão chamando de um verdadeiro “apagão” de informações.
O impacto da falta de transparência
A ausência de dados atualizados não é apenas um problema burocrático, mas um risco direto à confiança dos investidores. Quando um fundo deixa de publicar seu informe, o mercado perde a visibilidade sobre a inadimplência, o lastro dos ativos e a liquidez do patrimônio. Segundo o levantamento, a Reag Investimentos concentra a maior parte desse “vácuo”, sendo responsável por R$ 23,66 bilhões do total que está sem atualização.
Esse comportamento recorrente já chamou a atenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que monitora de perto os atrasos.
Efeito cascata no mercado de crédito
O problema da falta de informações gera um efeito dominó. Como muitos fundos investem em cotas de outros FIDCs, o atraso de um prejudica a contabilidade de vários outros, criando uma névoa sobre o real valor das cotas. Um exemplo crítico citado é o do Fictor FIDC, que, após declarar um patrimônio de R$ 201 milhões em janeiro, não publicou os dados de fevereiro e fechou para resgates devido a problemas de liquidez.
A situação se agravou com crises específicas, como a da EntrePay, que afetou diretamente gestoras como a Redwood. Em resposta aos desafios, a gestora afirmou que “um plano de reestruturação está sendo finalizado com apoio jurídico especializado e será divulgado via fato relevante nos próximos dias”.
O papel do regulador
A CVM tem endurecido o discurso e alertado sobre a aplicação de multas automáticas para os fundos que descumprirem os prazos de entrega dos informes. A preocupação é evitar que o crescimento acelerado da indústria de FIDCs — que dobrou de tamanho desde 2022, atingindo R$ 727 bilhões — seja manchado por falhas de governança.
Enquanto as administradoras alegam que o atraso decorre de “questões operacionais na implantação no sistema interno”, investidores aguardam por mais clareza para garantir que o capital alocado em direitos creditórios não esteja navegando em águas desconhecidas.