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Meios de pagamento alternativos: força nas vendas e inclusão financeira

Desafio de adaptar a atuação omnichannel faz varejo e instituições financeiras investirem no conceito payments 5.0 – que sugere a inclusão de novos métodos e tecnologias na forma de pagamento – a fim de garantir uma melhor jornada aos consumidores e aumento na lucratividade

|Por Ana Carolina Lahr|

 

Se por um lado o varejista já sabe que quanto mais formas de pagamento alternativas oferecer maiores serão as chances de ampliar suas vendas, o fortalecimento do e-commerce durante a pandemia e a busca pela melhor jornada omnichannel no pós-pandemia mostram, cada vez mais, a importância da convergência dos meios de pagamento nos ambientes on-line e presencial. Com isso, soluções tidas como “alternativas” passam a disputar espaço nas transações com meios tradicionalmente dominantes como o cartão de crédito e o dinheiro em espécie. 

Essa é a percepção do The Global Payments Report 2022, elaborado pela Fidelity National Information (Fis). Considerando que as divisões tradicionais entre o setor bancário, os pagamentos e o comércio deixaram de existir e que o mundo conectado vem criando oportunidades para moldar o futuro do comércio e dos serviços financeiros, em sua sétima edição o relatório apresentou uma avaliação de como os consumidores realizam pagamentos nas compras on-line e nos pontos de venda (PDVs) em 40 mercados no mundo, entre eles o Brasil.

Como resultado, constatou que o cartão de crédito ainda representa o maior percentual de transações de pagamentos no país, tanto no meio físico quanto no digital, mas os meios alternativos, como os pagamentos instantâneos como Pix e créditos no formato Buy Now, Pay Later (BNPL) têm ganhado relevância, com boas expectativas de crescimento para os próximos anos.

E-commerce x PDV

No âmbito do comércio eletrônico, os cartões de crédito representaram 44,7% das transações no país – o maior índice da América Latina – e a expectativa é que o método continue liderando até 2025. As transferências bancárias, cartões de débito, carteiras digitais e opções pós-pagamento oferecidas pelo boleto bancário renderam, cada uma, mais de 10% dos gastos no segmento.

Embora a América Latina aponte para uma queda na participação das transferências bancárias no comércio eletrônico, o relatório constatou que desde a introdução do sistema de pagamento instantâneo Pix, em novembro de 2020, o oposto está ocorrendo no Brasil. Com isso, a previsão é de que a modalidade suba significativamente no país, de 10,9% para quase 18% em 2025.

Já nos pontos de venda (PDVs) físicos, mesmo com o fechamento de muitos negócios provocado pela pandemia, o relatório global constatou que o dinheiro em espécie ocupou o topo das transações (35,6%) na América Latina em 2021. 

No Brasil, o meio de pagamento representava a maioria dos pagamentos nos PDVs até 2018, mas diminuiu para menos de um terço em 2021, indo para a segunda colocação, atrás dos cartões de crédito. Mesmo estimulado por uma população de aproximadamente 34 milhões de desbancarizados, a expectativa é que o método caia abaixo de 25% até 2024. Um dos motivos para a queda seria a digitalização rápida e contínua da economia global, de acordo com o relatório citado. Uma realidade que nos leva, mais uma vez, ao advento do Pix. 

Pagamento instantâneo

Até o final deste ano, 64 mercados terão implementado uma infraestrutura de pagamentos em tempo real, o que representa quase três quartos da população mundial (cerca de 72%), segundo o The Global Payments Report 2022. No Brasil, essa transformação aconteceu em 2020, com a chegada do Pix.

Demonstrando força e aceitação entre os brasileiros, o meio de pagamento instantâneo atuou como peça de apoio à retomada da economia no país durante o pós-pandemia.

Brasília,16/04/2020. 8ª Reunião do Forum de Pagamentos Instantaneos. Carlos Eduardo Brandt Foto: Raphael Ribeiro/BCB

Carlos Eduardo Brandt – Foto: Raphael Ribeiro/BCB

“O Pix favorece a movimentação rápida de recursos, especialmente em situações em que você não precisa de contato físico com as pessoas, ou seja, a transferência do dinheiro de forma eletrônica. Assim, apoiou a necessidade de se intensificar o uso das plataformas de e-commerce por conta do contato social restrito. A gente tem relatos de plataformas que registraram um acréscimo de 20% na quantidade de novos usuários com a sua chegada”, observa Carlos Brandt, chefe da Gerência de Gestão e Operação do Pix do Banco Central.

“Desde o início, o projeto teve como objetivo ser um jogo de ganha-ganha, ou seja, agregar valor para a sociedade de uma forma geral, para as empresas, os governos em instituições financeiras e de pagamento”, reforça.

O Pix tem sido adotado por diversos setores, em variadas situações, facilitando majoritariamente os pagamentos P2P (pessoa para pessoa). Mas as oportunidades também têm se mostrado crescentes no varejo, já que ele é peça fundamental para o funcionamento do sistema de pagamento e atua como ponte entre a população e a instituição financeira. “Em novembro de 2020, aproximadamente 5% das transações do Pix eram realizadas no formato P2B (pessoa para negócios), sendo que hoje elas ultrapassam os 20%”, contextualiza Brandt.

O motivo para esse crescimento está no fato de que é um meio de transferência de dinheiro mais barato, mais rápido, mais eficiente e potencialmente menos arriscado em relação aos métodos tradicionais. Não por menos, o BC tem registradas hoje quase 800 instituições que aderiram ao Pix – enquanto apenas para 34 delas a adesão é mandatória por apresentarem mais de 500 mil contas de clientes ativas. 

Desafios

A expectativa do Bacen é que o crescimento da adesão do Pix no varejo continue evoluindo nos próximos anos. No entanto, para Boanerges Freire, consultor financeiro especializado no varejo e em meios de pagamento que soma mais de 40 anos de experiência no mercado, apesar de sua implantação ser considerada um sucesso e de ter se tornado referência internacional, ainda existem alguns desafios a serem superados no varejo físico, o que faz com que a adesão esteja sendo mais lenta do que deveria. 

Freire acredita que a falta de usabilidade do sistema vivenciada em diversos momentos é um dos entraves e cita o QR Code como exemplo. “Ele nem sempre está disponível, seja por falta de informação, seja mesmo por uma questão de habilidade do varejista, que não sabe como aplicar essa facilidade. Além disso, o conservadorismo do varejista ainda faz com que ele fuja das mudanças para evitar perder vendas, especialmente nos momentos de pico”, observa. 

O cenário é conhecido por Brandt, que aponta para a agenda evolutiva do Pix e adianta que vários produtos previstos têm como objetivo melhorar e aperfeiçoar o atendimento a casos que hoje não são bem resolvidos nas relações comerciais do varejo. “A verdade é que o consumidor logo vai começar a pressionar e, na hora em que ele sentir que está perdendo vendas por não oferecer a opção, aí ele vai adotar. Esse é o maior estímulo para ele mudar”, aposta Freire.

Uma vez superadas essas barreiras, o consultor acredita que a previsão do The Global Payments Report de que o Pix ficará em grande parte no lugar do mecanismo Sitraf (TED/DOC) existente, se torne uma realidade. “Ele não chegará a acabar com esses meios de pagamento, como afirmam alguns extremistas, mas deslocará grande parte das transações, visto que estamos falando de opções mais caras e menos práticas que o Pix. Mas nada será extinto. Nem o cheque foi”, lembra.

Para o representante do Bacen, porém, o fator substitutivo é significativamente menor que o agregador. “A quantidade de transações nos demais meios de pagamento eletrônicos se mostrou constante ou em crescimento nesse mesmo período. Isso significa que ele veio agregar valor como uma alternativa para novas transações ou para aquelas que eram realizadas com papel-moeda em espécie”, avalia.

Evolução

Em um esforço para acelerar a aceitação do produto e melhorar a experiência do cliente em pontos de venda de varejo, o Pix teve recentemente duas novas modalidades lançadas pelo Bacen: o Pix Saque e Pix Troco. 

Embora as modalidades tenham potencial para oferecer uma série de benefícios para as empresas do varejo, Brandt admite que vivemos ainda um processo de conhecimento do produto e das suas possibilidades, com a adesão na casa de 280 mil ao mês. “Não necessariamente o comerciante tem o conhecimento de quanto pode se beneficiar com esses produtos, que dão a possibilidade de reduzir o custo com a gestão de numerário, por exemplo”, observa.

Outra evolução observada no Pix é a modalidade parcelada. A solução já é oferecida por algumas das instituições financeiras aderentes, mas ainda não é regulada pelo Bacen. “Vemos com bons olhos as inovações que estão acontecendo sobre a plataforma Pix. É justamente isso que sempre estimulamos; ou seja, dadas as regras do Pix, agregar valor para os clientes. E é isso que a gente vem acompanhando”, salienta o executivo.

Embora ainda sem um formato definido e sem perspectivas para lançamento, um projeto com esse fim – chamado de Pix Garantido – está incluído no conjunto de novos produtos a serem desenvolvidos pelo Banco Central. “Ele também está dentro da agenda evolutiva de novos produtos que vão ser desenvolvidos ao longo dos próximos anos”, finaliza Brandt.

 

BNPL: empresários adotam nomenclatura internacional para dar nova roupagem ao antigo crediário

O The Global Payments Report 2022 apontou que a participação do cartão de crédito nos gastos globais no comércio eletrônico, que hoje representa 21%, deve cair para 18,8% em 2025. Um dos fatores que contribuem para a redução da participação, segundo o documento, é o aumento da adesão a métodos de pagamento alternativos, entre eles o Buy Now Pay Later (BNPL), modalidade que concede crédito instantaneamente no momento do checkout.

Embora o BNPL tenha representado apenas 2,9% do valor global das transações no comércio eletrônico em 2021, sua projeção para o futuro demonstra uma tendência crescente, com previsão de alcançar 5,3% de participação até 2025. Na América Latina, as taxas de crescimento têm um aumento projetado de 98% de 2021 a 2025. 

No Brasil, assim como o Pix, o BNPL ganhou força com a pandemia e o crescimento do comércio eletrônico, que ainda apresenta um déficit de opções de pagamento para satisfazer as necessidades dos consumidores.


Marcelo Ramalho, da PROVU

“O varejista quer vender e, ao oferecer mais uma modalidade de pagamento – sobretudo uma que traz o público que normalmente não poderia consumir com ele porque não tem o cartão de crédito ou não pode pagar à vista – isso se traduz automaticamente em aumento de vendas”, pontua Marcelo Ramalho, CEO da Provu.

Embora o BNPL tenha sido citado pelo relatório global como uma das tendências de pagamento em expansão no mundo, o consultor financeiro Freire observa que embora ele seja novidade no exterior, no Brasil a prática do crediário é antiga e só ganhou nova roupagem com essa nomenclatura. “Essas quatro letrinhas surgiram no exterior há três anos e batizam um novo tipo de crédito que não era praticado lá fora. Mas por aqui há tempos convivemos com o parcelamento. Tudo começou com a caderneta na mercearia, depois evoluiu para o carnê, cartão private label, até o cartão de crédito. Todos são formas de crediário para o consumo”, resume. 

Para ele, assumir que qualquer tipo de crediário seja considerado BNPL, no entanto, está além do que o termo pressupõe: “O BNPL se resume a empresas que se empenham em filiar varejistas e assumem o risco do crediário oferecido a seus clientes em um sistema muito mais simplificado do que o que já existe no Brasil. Ou seja, ele não se refere a todos os tipos de crediário que existem no nosso país, mas tornou-se um termo charmoso e as empresas se apropriaram dele para promover seus produtos de crediário”, avalia. 

Dessa forma, o ineditismo da iniciativa no Brasil estaria, na verdade, na agilidade e na tecnologia oferecidas pelas fintechs na prestação do serviço. “Elas são mais rápidas, analisam o crédito de maneira mais simples e instantânea, são mais flexíveis e customizam dentro da realidade do cliente, ao invés de tentar fazer o cliente se adaptar”, justifica.  

A Provu é membro da Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), onde o tema é muito discutido no país e ante a discussão, o CEO da fintech explica que, para cumprir a proposta de aprovar o crédito da forma mais rápida o possível, é preciso inteligência de crédito: “A avaliação de crédito tem ficado cada vez mais complexa. Utilizamos, em boa parte dos casos, birôs de crédito para fazer uma avaliação do cliente, mas isso é complementado com uma diversidade de informações e essa análise acaba sendo customizada. Essa complexidade tem que ficar do lado das instituições financeiras para permitir que possamos dar uma resposta praticamente imediata para o cliente, para que ele consiga concluir a jornada de compra”.

Além disso, ele aponta que a roupagem trazida pelas fintechs permite escalar a solução de uma maneira simplificada, abrangendo, inclusive, comércios menores, o que no passado acabava se restringindo aos grandes varejos. 

Essa matéria foi originalmente pulicada no Informativo CB Bancos & Varejo 2022. BAIXE AQUI O CONTEÚDO COMPLETO

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