Em ordem, da esquerda para a direita: Leandro Vilain (ABBC), Giancarllo Melito (Regula BT) e Aristides Cavalcante (Banco Central do Brasil)

Fórum B&B – Inovar com segurança: o desafio da resiliência digital no setor financeiro

O ecossistema financeiro brasileiro é, sem dúvidas, um dos mais modernos, digitais e eficientes do mundo. Pix, Open Finance, inteligência artificial e tokenização transformaram completamente a velocidade e a forma como as instituições operam. No entanto, essa evolução acelerada traz um desafio proporcional: a segurança e a resiliência operacional.

No debate Inovação X Regulação, promovido no Fórum Bancos & Banking, Aristides Cavalcante, Chefe do Departamento de Gestão Estratégica e Supervisão Especializada do Banco Central, e Leandro Vilain, CEO da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), debateram de forma franca os gargalos tecnológicos, o aumento das fraudes e o papel da iniciativa privada na proteção do sistema. A mediação ficou por conta de Giancarllo Melito, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados, e o recado foi claro: não existe inovação sustentável se não houver um freio à altura da potência do motor.

A metáfora da BMW: por que inovação exige um “freio” eficiente?

O crescimento das transações instantâneas no Brasil superou qualquer outra jurisdição global. Contudo, a descentralização dos serviços financeiros aumentou drasticamente a complexidade e a interconexão das redes.

Aristides (Banco Central) utilizou uma analogia cirúrgica para explicar o atual momento regulatório: se as inovações transformaram o sistema em uma “BMW de alta potência”, os controles de segurança precisam evoluir na mesma velocidade para que o carro não passe direto nas curvas. Ele revelou dados preocupantes de uma pesquisa do BC: dois terços das instituições financeiras não sabem qual é o seu apetite ao risco tecnológico.

“Todas essas novas soluções de inovação são uma BMW… Só que essa BMW precisa de um freio adequado, precisa de medidas de segurança adequadas. Os controles têm que preservar a inovação.”

O crime digital e os riscos sistêmicos

Se no passado a preocupação das agências bancárias se concentrava em vigilantes, cofres e explosões de caixas eletrônicos, hoje o cenário é completamente invisível: ataques cibernéticos, fraudes estruturadas e engenharia social.

Leandro destacou que a segurança cibernética deixou de ser um mero “custo de TI” para se tornar uma pauta de estabilidade financeira e sobrevivência institucional. Ele relembrou um case histórico do mercado — a reestruturação do sistema de boletos bancários para frear fraudes digitais — para ilustrar que a iniciativa privada precisa ser proativa e investir pesado, sem esperar pelo tempo da regulação.

“A segurança deixou de ser um problema de tecnologia… passa a ser um assunto de estabilidade financeira e segurança nacional. Vai sair caro, vai ser doloroso, mas os investimentos serão necessários.”

Engenharia social: o crime profissionalizado que explora o usuário

Um dos maiores desafios atuais do setor é que o crime migrou da falha técnica para a manipulação comportamental. A engenharia social e os golpes aplicados diretamente no cliente final se tornaram uma indústria altamente profissionalizada.

Leandro trouxe dados impressionantes para mostrar o tamanho desse problema em nível global: nos Estados Unidos, a engenharia social gerou 21 bilhões de dólares em perdas financeiras em um único ano; já no Reino Unido, as fraudes por aplicativos causaram um prejuízo de 1,2 bilhão de libras. Os criminosos se organizaram em estruturas completas — com desenvolvedores, ambientes de testes para aplicativos falsos e equipes de call center —, o que exige do mercado um esforço massivo e contínuo de conscientização e letramento digital da população.

“A engenharia social se tornou um processo completamente profissional… São equipes completas, com desenvolvedores, com devs, ambiente de teste — ele faz teste com o aplicativo para ver se está funcionando!”

O fenômeno do Shadow IA e os riscos de alucinação

A inteligência artificial é a grande aposta de eficiência para os próximos anos, com mais de 90% das instituições planejando expandir seu uso. Porém, o Banco Central acendeu um alerta vermelho sobre a governança dessas tecnologias.

A pesquisa apontou o surgimento do Shadow IA: muitas áreas estão implementando soluções de inteligência artificial de forma isolada, sem o conhecimento ou a gestão de riscos da organização. Além disso, 75% das empresas usam dados em seus modelos de IA sem monitorar a qualidade dessa informação, o que potencializa o risco de “alucinações” e falhas graves.

“Tem muita gente utilizando IA nos seus processos e a área de gestão da organização não tem a mínima ideia de onde está sendo utilizada… Se você não monitora a qualidade dos dados, como pensa em investir em IA?”, disse Aristides.

Gestão de APIs e os perigos do “aluguel de contas”

Com o avanço do Banking as a Service (BaaS) e das finanças embarcadas, o uso de APIs explodiu. No entanto, quase metade das instituições que utilizam APIs externas não realiza avaliações periódicas de segurança, tornando-as um vetor vulnerável de ataques.

Aliado a isso, os criminosos profissionais mudaram a dinâmica de atuação: em vez de abrirem contas falsas, agora eles “alugam” contas correntes de terceiros (contas de passagem) para movimentar milhões de reais de golpes em poucos minutos. Monitorar a entrada do dinheiro e o comportamento atípico dessas contas virou uma obrigação urgente de conformidade para o mercado.

“Se você fizesse uma analogia com o ambiente físico, é como se você estivesse entregando a chave do seu cofre para a empresa de manutenção predial… É preciso monitorar as operações”, concluiu Aristides.

Ouça o debate na íntegra!

Como o Banco Central pretende usar a sua nova plataforma de IA (Prisma) para supervisionar o mercado? Quais serão os impactos do novo questionário de mapeamento de TI enviado às mais de 1.400 instituições?

Clique AQUI para ouvir todo o painel e entenda por que o futuro das finanças brasileiras depende do equilíbrio exato entre a velocidade de inovar e a capacidade de se proteger.

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