Levantamento do escritório Silva Lopes Advogados mostra que apenas 8,3% das empresas reguladas pelo BC têm mulheres em cargos de liderança máxima
Embora o setor de fintechs seja reconhecido como um dos mais inovadores do país, a presença feminina em cargos de liderança ainda é baixa. O estudo “Women in Fintech: Agora é a nossa vez”, realizado pelo escritório Silva Lopes Advogados, revela que, das 354 empresas reguladas pelo Banco Central, apenas 146 (41,2%) têm ao menos uma mulher na diretoria. Nesses casos, elas ocupam, em média, 37,8% das posições, ou seja, pouco mais de uma em cada três cadeiras.
“Apesar de o mercado de meios de pagamento ser relativamente novo, regulamentado em 2013, ele parece seguir a tendência dos mercados financeiro e de capitais, tradicionalmente dominados por homens”, afirma Daniela Froener, sócia e COO do Silva Lopes Advogados. Para ela, a desigualdade reflete raízes culturais, em que homens ocupavam os espaços profissionais enquanto as mulheres ficavam restritas às funções domésticas.
A especialista explica que, com o crescimento do mercado de pagamentos no Brasil, houve uma migração de talentos vindos de setores tradicionais:
“Muitas pessoas que atuavam nos setores tradicionais se arriscaram neste novo mercado. Como quem trabalhava lá antes eram principalmente homens, eles também migraram, o que contribuiu para o cenário atual.”
O levantamento divulgado pelo portal startups.com.br mostra que a desigualdade é ainda mais evidente no topo da hierarquia. Apenas 14 mulheres (11,6%) ocupam o cargo de Diretora Presidente em instituições reguladas pelo Banco Central, enquanto nove (4,2%) atuam como Administradoras e outras nove (4,2%) como Diretoras Executivas. No total, somente 8,3% das fintechs reguladas contam com mulheres em funções de liderança máxima.
“Hoje, as mulheres estão cada vez mais presentes no dia a dia das empresas, especialmente no setor de meios de pagamento, mais do que nos mercados financeiro ou de capitais. No entanto, os cargos que ocupam ainda são, em sua maioria, operacionais”, alerta Daniela. Para ela, poucas conseguem avançar até cargos executivos ou de presidência.
Entre os obstáculos para essa ascensão estão fatores estruturais, como o machismo e a síndrome do impostor.
“Quando você participa de uma reunião com diretorias e líderes executivos, às vezes é a única mulher na sala. Isso gera estranhamento nos outros, porque são mercados tradicionalmente masculinos”, observa Daniela.
A síndrome do impostor, marcada por insegurança e dúvidas sobre as próprias capacidades, é outro entrave. Um levantamento da KPMG de 2023 revelou que 75% das executivas em diferentes setores já enfrentaram essa condição. “As mulheres tendem a arriscar menos e enfrentam mais obstáculos para se expor e assumir riscos”, explica Daniela.
Além de dados oficiais, a pesquisa ouviu 103 mulheres do setor de fintechs no Brasil, majoritariamente jovens, formadas em Direito e com pós-graduação ou MBA. A maioria atua há até três anos em empresas de porte médio, principalmente em pagamentos e infraestrutura.
Os resultados apontam que a diversidade é um ativo estratégico: 71,8% das profissionais acreditam que a presença feminina é essencial para a inovação, e 66% afirmam que diferentes perspectivas melhoram a tomada de decisões.
“Uma diretoria formada apenas por homens tende a reunir pessoas com experiências e pensamentos semelhantes, o que dificulta o surgimento de ideias fora da caixa. Por isso, a presença de mulheres nesses ambientes, com suas perspectivas e vivências, agrega inovação ao negócio”, diz Daniela.
Segundo ela, a mesma lógica vale para outras interseccionalidades, como pessoas negras, indígenas, com deficiência e LGBTQIA+. “A inovação é essencial para garantir a sustentabilidade da empresa no longo prazo, e só é possível inovar de verdade quando se incluem pessoas diferentes.”
Caminhos para mudar a realidade
Para Daniela, a transformação exige esforço tanto das mulheres quanto das empresas. “Confiem mais em si mesmas. Se preparem, arrisquem-se e deem a cara a tapa. Quem já atua no setor pode atuar como mentora, orientar as novas profissionais e apoiar umas às outras”, aconselha.
Do lado das organizações, ela defende a criação de oportunidades intencionais em processos de eleição de diretoria e promoção. Também destaca a importância de valorizar os resultados das mulheres e estimular seu crescimento interno, de forma que avancem até cargos estratégicos.
“É preciso dar espaço para que as mulheres se desenvolvam e assumam posições de liderança. Só assim o setor poderá alcançar todo o seu potencial inovador”, conclui Daniela.