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ESG: amadurecimento pede olhar na governança

| por Ana Carolina Lahr * |

 

O surgimento das fintechs deu origem aos chamados bancos nativos digitais, que conectaram os impactos sociais e ambientais ao core business e fortaleceram, de forma espontânea, a agenda ESG. Mas, em um cenário de crise financeira e de escassez de investimentos, a agenda tem seu protagonismo ameaçado ante a readaptação do modelo de negócio e a busca pela saúde financeira. Especialistas apontam olhar para governança como saída para evitar a perda do foco.

“Para as empresas terem sustentabilidade, elas precisam ter resultado. Com esses resultados e a geração de valor, elas vão se sustentar. Às vezes, nesse processo, elas podem se perder em meio às exigências do mercado”, analisa Uranio Bonoldi, especialista em negócios e tomada de decisão.


Uranio Bonoldi, especialista em negócios e tomada de decisão

Um exemplo dessa adaptação à realidade do mercado vem do Neon, um banco digital que, em 2016, quando chegou ao mercado, mostrava firme disposição em não oferecer linhas de crédito, mas que hoje tem o cartão de crédito como seu principal produto, tendo levantado somente no ano passado 400 milhões de reais para um FIDC focado em empréstimos com o objetivo de aumentar a capacidade de monetização da base e chegar à lucratividade.

O perigo está no fato de que a mudança de estratégia pode criar lacunas entre o discurso ESG e o propósito da empresa, ameaçando sua reputação. Por isso, Bonoldi ressalta que é preciso que as empresas tenham seus propósitos bem definidos. “Chega uma hora em que é preciso fazer a ‘arrumação na casa’ e se questionar: ‘ A que eu vim?’”, complementa.

O especialista destaca que a empresa precisa também, baseada no propósito, identificar qual é sua verdadeira vocação. “Esse é um pensamento um pouco polêmico, mas acredito que ninguém pode ser bom em tudo. No entanto, ao entender qual é sua verdadeira vocação, a empresa pode ser muito forte em uma das demais pernas do tripé. E se todas as empresas fizerem esse exercício, a comunhão dessas vocações vai fazer a gente ter um planeta melhor”, considera.

Nessa direção, ele aponta que o pilar da governança deve receber a maior atenção em uma empresa. “É a governança que vai ditar quais são seus valores e propósitos”, enfatiza.

Laura Salles, fundadora e CEO da Plurie BR, startup que gera métricas e estratégias de inclusão e equidade nas empresas, concorda: “Existe um fluxo natural que instiga para que se comece o trabalho ESG pela governança e que isso seja feito com mais frequência em bancos digitais porque essa é uma necessidade do consumidor e do negócio”, justifica. “Não tem como trabalhar um banco de dados sem transparência, sem cuidar de compliance, sem cuidar de aspectos que são fundamentais para o ‘G’ da governança”, reforça. 


Laura Salles, fundadora da Plurie BR

Evolução da agenda

O conceito ESG surgiu em 2004 em uma publicação do Pacto Global em parceria com o Banco Mundial, chamada Who Cares Wins. Desde então, as questões ambientais, sociais e de governança passaram a ser consideradas essenciais nas análises de risco e nas decisões de investimento, colocando forte pressão sobre o setor empresarial. 

Salles lembra que, no início dessa jornada, o conceito foi permeado de muitas dúvidas, inclusive na hora de ser aplicado na gestão empresarial. “Mesmo entre os bancos digitais, que nasceram com taxas competitivas e acabaram gerando, naturalmente, um incentivo à efetiva inclusão de pessoas das classes C, D e E, a discussão ESG começou mais superficial. Muitas pessoas nunca tinham ouvido falar da sigla, imagine saber como implementar. Virou uma coisa muito teórica e pouco palpável em alguns momentos”, avalia. 

No entanto, em uma visão otimista, ela observa que o cenário amadurece à medida que as empresas começam a tangibilizar a questão. “Elas estão saindo da parte da comunicação para entrar na parte estratégica. A gente ainda tem um longo caminho pela frente, mas pelo menos as empresas começaram a tirar as políticas do papel e olhar o que é feito sem planos estratosféricos a longo prazo, mas sim com base no que é palpável para, hoje, evoluir nas metas de ESG”, considera.

O relatório Top Trends in Retail Banking 2023 da Capgemini, divulgado em meados de abril, destacou a continuidade da ampliação das ações sustentáveis de cunho ambiental, social e de governança como uma tendência estratégica importante nas empresas, sendo que as ações relacionadas à sustentabilidade continuarão a desempenhar um papel importante na estratégia e na tomada de decisões do setor bancário. “A contribuição dos bancos brasileiros para a sociedade e para o meio ambiente têm sido muito significativas pelo fato de eles serem entidades influentes e que atraem grande visibilidade para as ações que desenvolvem. Essas iniciativas abrangem desde uma forte atuação social por meio da educação e da inclusão, a exemplo da atuação da Fundação Bradesco, até as iniciativas de sustentabilidade. O cuidado com a comunidade está no DNA de instituições como a Caixa e o Banco do Brasil, cujas ações vão muito além do repasse de verbas para os mais variados segmentos da sociedade”, conclui David Cortada, vice-presidente de serviços financeiros da Capgemini. 

A evolução do setor financeiro na agenda ESG é destacada também por Pedro Paro, que atualmente faz pesquisas para sua tese de doutorado da USP e atua como CEO e fundador da Humanizadas, empresa que há quatro anos realiza a pesquisa “Melhores para o Brasil”, que serve para analisar as organizações sob a perspectiva das lideranças, colaboradores, clientes, parceiros, comunidades locais e meio ambiente com o objetivo de combater o greenwashing.

“O mercado financeiro como um todo tem uma grande importância no movimento ESG no Brasil. Do ponto de vista da sociedade, existe uma certa crítica a essas empresas pelo seu poderio econômico frente às demais, mas o que temos observado é um movimento crescente dessas organizações no sentido de refletir sobre seu papel nos tempos atuais, e criar um modelo de gestão, negócio, produtos e serviços orientados a um propósito maior”, avalia.

Paro observa que uma das características das empresas do ecossistema financeiro é que elas operam em princípios como liderança consciente, cultura organizacional e estratégias de valores, o que permite  que sejam mais rápidas no processo de aprendizado e mudança. E issoacaba por valorizar também a agenda ESG. “Além dos bancos digitais, um exemplo prático de uma abordagem mais consciente são as cooperativas financeiras, como Sicoob e Sicredi, que buscam gerar retorno positivo para seus stakeholders, criando ambientes mais sustentáveis e saudáveis para todos”, exemplifica. 

Desafios da governança

Apesar da perspectiva positiva, o pesquisador aponta que hoje a principal barreira para melhorar o setor financeiro nesse aspecto é a resistência em se mudar o paradigma, ou seja, adotar um capitalismo consciente que busque gerar benefícios para todos os envolvidos. “No Brasil, de cinco estágios evolutivos, o mercado financeiro opera nos estágios 1.0 (sobrevivência) e 2.0 (regulação) em sua maioria, priorizando lucro e conformidade com leis e regulamentações. Portanto, para elevar a maturidade dos negócios no país, visando a práticas mais sustentáveis no médio e no longo prazo, é necessário fortalecer as regulações e incentivar a preocupação com questões econômicas e reputacionais”, avalia.

O estágio evolutivo do setor financeiro é reflexo do mercado brasileiro como um todo, que, segundo o relatório da Humanizadas, “vive diversas crises na relação com seus públicos de interesse, dos acionistas ao consumidor final, de governança, liderança e significado”. 

Para rating ESG da Humanizadas avaliou 20 empresas do setor financeiro (11,6% do total), que já fizeram uma avaliação multistakeholder com a Humanizadas, entre as quais se destacaram o Banco BV e o Sofisa. “Nossa preocupação com os princípios ESG não vem de agora. O BV já está nessa jornada desde 2014, quando estabeleceu sua primeira política de sustentabilidade e implementou ações para cumpri-la. De lá para cá, só evoluímos em nossa gestão e nos tornamos signatários de compromissos voluntários como o Princípios do Equador, i PRI (Princípios para o Investimento Responsável), o Pacto Global, entre outros”, pontua Tiago Soares, gerente executivo de Sustentabilidade do banco BV.


Tiago Soares, gerente de sustentabilidade do BV

Modelo sustentável e capitalismo consciente

Para provar a importância da adoção de um modelo de negócio mais humano, consciente, sustentável e inovador, a pesquisa da Humanizadas utiliza uma metodologia própria para elaborar um rating ESG que classifica as empresas que já passaram pela consultoria multistakeholder e compara os indicativos com uma projeção nacional que analisa indicadores de 3.811 organizações do país.

Os resultados são bastante atraentes: as empresas ranqueadas têm um retorno financeiro 615% superior ao Ibov no médio e no longo prazo; performance 185% superior na comparação entre risco e retorno; colaboradores com melhor satisfação, culturas mais diversas e inclusivas; mais otimismo e menor índice de turnover demissional do mercado; e clientes, parceiros e fornecedores com melhor experiência e índice de satisfação. 

“A sustentabilidade contribui não apenas para a sociedade como um todo, mas também para os investidores e negócios”, conclui o coordenador da pesquisa. 

No âmbito ESG, o relatório aponta que, ao longo das quatro edições, houve uma melhora de 2,5 pontos percentuais na implementação de práticas no cenário global. Outra análise mostra que, apesar das necessidades provocadas pela pandemia e os meios digitais terem contribuído para a evolução do propósito dos negócios e para a atenção com as pessoas em 2021, a crise financeira vivida no ano passado voltou a colocar o índice em um patamar semelhante ao apresentado em 2020, comprovando a influência do cenário econômico na evolução ou não da agenda ESG.

De dentro para fora

Com os resultados, um dos objetivos da pesquisa é mostrar que a cultura e o clima organizacional das empresas não dependem do seu tamanho ou do tempo de existência, mas de sua mentalidade sobre as situações. Ou seja, o já citado “propósito”. 

Nesse caminho, as lideranças exercem papel fundamental no amadurecimento da agenda ESG. “O movimento deve vir dos controladores e permear toda a organização”, reforça Bonoldi ao lembrar que o processo acontece “de fora para dentro”, ou seja, deve-se criar uma cultura interna antes de ela atingir o exterior.

Apesar disso, a edição 2023 da pesquisa mostrou que apenas 37% das lideranças no mercado nacional acreditam deixar um legado positivo para a sociedade e o planeta, e 32% dos colaboradores afirmam se identificar com o exemplo de sua liderança e se inspirar nele. Enquanto isso, nas gestões mais humanas e inovadoras que ocupam o topo do rating – como é o caso do BV –, 75% das lideranças promovem e estimulam as práticas e as ações ESG. 

“Nossa agenda ESG está diretamente ligada à cultura organizacional, à inovação e à centralidade no cliente, temas que guiam nossas decisões e relações no dia a dia. Assim, levamos a cultura “Leve para a Vida” aos nossos colaboradores de forma orgânica, pois ela guia não só o jeito como fazemos nossos negócios, mas também nossos relacionamentos com base em pilares que sustentam todas as decisões estratégicas do banco BV: eficiência e solidez financeira; inovação digital; cuidado com as pessoas; cultura organizacional; centralidade no cliente e agenda ESG”, observa o gerente executivo do banco.

* Essa matéria foi originalmente publicada na nossa revista digital e-CANTA Bancos Digitais, lançada em maio/23.

Para acessar o conteúdo na íntegra clique aqui.

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