evandro mello

Evandro Mello, Multiplicando Sonhos

| Por Ana Carolina Lahr |

Nesta semana, você vai conhecer um pouco mais sobre a Multiplicando Sonhos®, uma instituição que une pessoas que ousam inspirar e transformar as vidas de jovens de escolas públicas por meio da educação financeira, ao transmitir conceitos básicos sobre finanças, empreendedorismo, comportamento e o pensamento crítico e consciente no mundo atual. Para isso, você acompanha a nossa conversa com o fundador do projeto, Evandro Mello.

Jovem da periferia de São Paulo, ele estudou em escola pública e conheceu o mundo das finanças cedo, trabalhando em uma grande instituição financeira de São Paulo. Foi lá que  descobriu a paixão pela educação financeira e a chave que ela abre para tantas novas possibilidades, conquistas e uma vida com mais qualidade.

Para proporcionar essa experiência a outros jovens, ele criou em 2017, a Multiplicando Sonhos. Além de estruturada e séria, a proposta é ambiciosa: até 2030, eles querem estar em todas as capitais do país. Para isso, a instituição forma multiplicadores e conta com a ajuda financeira vindas de doações de pessoas físicas e jurídicas. 

Mais detalhes sobre tudo isso, você acompanha nesta entrevista!

QUER EXPERIMENTAR ALGO NOVO? Clique e ouça essa entrevista no CANTAcast

 

Como atua a Multiplicando Sonhos?

A Multiplicando nasceu em 2017, já com o principal objetivo de levar educação financeira a escolas públicas para que os jovens pudessem fazer escolhas mais conscientes em relação aos recursos financeiros. 

Algumas das motivações para a criação da Multiplicando Sonhos foi: primeiro, quando entrei no Mackenzie, percebi que muitos jovens tinham preparo acadêmico, mas não tinham preparo financeiro para se manter. E também porque algumas pesquisas mostravam que o segundo perfil de pessoas inadimplentes e em situações não tão boas no recurso financeiro era de pessoas entre 16 e 29 anos. Isso impulsionou para darmos o pontapé inicial para criar a instituição. E por que atuar no Ensino Médio? Porque o jovem que já está no mercado de trabalho ou se preparando, já ajuda na renda familiar. Então, para eles, é mais assertivo ter esse conhecimento em finanças. 

Outro ponto que tenho a trazer é que, normalmente, os jovens do período noturno estão neste momento de transição, se preparando para ir para o Ensino Superior e atuar no mercado de trabalho. Então, nosso foco de atuação sempre foi com jovens do terceiro ano do Ensino Médio, especificamente de escolas mais afastadas dos grandes centros – periferias e extremos.

class=wp-image-17493/
Multiplicadores passam por qualificação com metodologia desenvolvida pela instituição

A Multiplicando Sonhos nasceu justamente quando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi instituída e com ela, a diretriz da Educação Financeira nos currículos educacionais do Ensino Básico e Fundamental em Escolas Públicas e privadas do Brasil. Existe alguma relação entre esses movimentos?

Nascemos neste período de mudança, no final de 2017 para 2018. Em 2018, começou essa mudança e a educação financeira se tornou obrigatória e passou a ser parte da grade de forma transversal. Quando fizemos pesquisas sobre o tema, antes de fundar a instituição, a gente sabia que isso estava em discussão e que poderia acontecer. Mas, em 2018, ainda não estávamos atuando e sim estudando a educação financeira. Conversamos com as principais instituições financeiras para entender o que era necessário abordar e como. Conversamos com Anbima, Febraban. O propósito era identificar o que consideravam educação financeira e o que estava dando errado nos projetos deles para que não seguíssemos tal caminho.

A nossa ideia naquele momento não era “reinventar” a roda, mas aprimorar com um diferencial. E qual seria o diferencial? Trazer uma linguagem mais acessível ao jovem. A gente percebeu que muitos professores e pessoas que queriam atuar ajudando nesse ponto, não tinham um preparo para tanto. Isso possibilitou à Multiplicando Sonhos uma vantagem no sentido de que estávamos levando para a escola um tema que passava a ser obrigatório e por isso não tivemos resistência das instituições. Pelo contrário, fomos muito bem abraçados pelas escolas. 

Vocês têm um instrutor que vai até a escola? Preparam os professores que já atuam, lá? Como é esse formato?

Temos uma equipe de instrutores que chamamos carinhosamente de multiplicadores. Para você entender, preciso voltar um pouco na história. Quando fundei a multiplicando em 2017 percebi que não podia fazer nada sozinho. Aliás ninguém consegue fazer nada sozinho. Então contatei alguns amigos e juntei 87 deles e começamos a desenvolver o nosso material. Fui para quase 17 estados e 50 cidades para entender o que era educação financeira. Depois que criamos o nosso material, precisávamos capacitar nossos multiplicadores. A partir do momento que passaram pela capacitação, estavam aptos a entrar na sala de aula.

O programa consiste em oito aulas de uma hora e meia, com intervalo de uma semana entre uma e outra, para que o aluno possa absorver as informações passadas. As aulas são inseridas na grade curricular do aluno, onde o professor cede sua aula para esse conhecimento. E a gente nunca pega o mesmo dia da semana, para não onerar a agenda de um mesmo professor. A capacitação inclui não apenas um treinamento do conteúdo, metodologia de comunicação, para atrair a atenção do aluno. 

Ela acontece on-line?

Uma parte, sim. Depois, temos uma banca que vai assistir à apresentação do multiplicador e avaliar para que a abordagem seja mais assertiva. 

Ante esse cenário, como vocês pretendem escalar o atendimento e atingir a meta de até 2030 estar em todas as capitais do país com essa necessidade da avaliação presencial?

É interessante essa pergunta. Sempre falo que a educação financeira precisa ser adaptada em termos regionais. A maneira que falo dela em São Paulo vai ser diferente da maneira que vou falar no Acre. Preciso levar em consideração a regionalidade. Como estamos trabalhando para que esse objetivo ambicioso possa realmente acontecer, estamos fazendo articulação com representantes regionais. O segundo ponto é que para que possamos levar conteúdo presencial nas capitais, vamos contar com voluntariado dessas regiões. Para isso, a ideia é criar polos nas capitais, que vão ser o ponto de início para a atuação em determinado estado. 

Temos conversado com agentes de educação das regiões e feito captação de voluntários, além de conversar com empresas para que possam financiar a estrutura para levarmos a esses estados.

A educação financeira por si só não vai solucionar o problema. Precisamos trabalhar com uma porção de políticas públicas, por isso é importante ter o setor público e privado, e o terceiro setor, juntos. 

A gente tem um sonho muito grande, mas a gente começa pequeno. É um trabalho de formiguinha, todo mundo trabalhando junto em prol de um mesmo objetivo. 

A gente observa uma iniciativa muito forte das próprias instituições financeiras em educação financeira para que consumam seus produtos com consciência, somadas à lei do superendividamento. Mas a gente vê que esse movimento está começando a ir para os jovens. As instituições financeiras estão criando produtos financeiros para menores de idade e inserindo a educação financeira nesse conteúdo. Com isso, os alunos do terceiro ano estão chegando com uma base maior de educação financeira do que quando a ideia do projeto nasceu, concorda?

Sim, eles chegam com uma noção maior, mas quero fazer duas observações. A primeira é que de 2019 para 2022 muita coisa mudou. O mundo mudou, porque a gente passou pela pandemia. O lado bom disso foi que presenciamos a digitalização do setor financeiro. 

Isso facilitou o acesso. O lado bom disso é porque as pessoas conseguem acessar e ter informações em todo lugar.

Mas, também tem um lado ruim porque com essa facilidade de acesso e ainda com a falta de conhecimento do nosso povo brasileiro, muita gente acaba se utilizando dessa falta de  informação para cometer golpes. A gente vê pessoas caindo em golpes. Vou te contar um recente, que aconteceu a semana passada com um colega meu. Ele fez uma solicitação de empréstimo e pagou dois mil e quinhentos reais antes de receber o empréstimo porque a pessoa disse que ele teria que pagar os juros do empréstimo. Ai eu falei pra ele que a regra básica de quem está pedindo um empréstimo é porque a pessoa está sem dinheiro. E você foi pagar? Expliquei a ele que ele tinha caído num golpe e teria que fazer B.O. Aí ele me disse que na família dele tinha outra pessoa que tinha feito um investimento – as famosas pirâmides – onde o contato promete que o retorno será de 100% do valor investido, com risco praticamente nulo.

Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso: é que a democratização do acesso ao mercado financeiro é muito positiva, mas também tem muita informação errada. E aí entra na segunda observação que eu queria fazer: os jovens de fato chegam para a gente com um pouco mais de informação financeira, mas eles chegam com aquelas informações de fórmula mágica: “a nossa eu vou ficar rico se eu guardar tanto, se eu fizer tal investimento”, como se fosse uma receita de bolo: “põe os ovos, fermento, vou pôr na batedeira, vou colocar para assar, vai ficar lá X minutos de tempo, a 180º, vou tirar do forno e o bolo estará pronto”. Não, não é isso. A gente vê hoje muita receita pronta: “você vai ficar milionário, você vai fazer seu primeiro milhão”. Então, tem esse lado ruim onde cabe à Multiplicando Sonhos combater essa desinformação. Pôr o pé no chão, trazer à realidade, porque o público que a gente atende é o público de periferia, que muitas vezes é uma pessoa que está vendendo o almoço para conseguir o jantar. Então, a gente coloca esses jovens com os pés no chão e a gente fala pra eles “olha não é desse jeito que estão entregando pra vocês”. A educação financeira não é fórmula mágica. A educação financeira é muito mais comportamento, então a gente tem que trabalhar a questão comportamental, de como a gente está utilizando nosso recurso, do que você ter uma fórmula mágica. Bom fundamentar isso.

Quando os jovens perguntam pra gente, em sala de aula: “professor qual é a dica, qual é a recomendação, qual é o melhor investimento para que a gente possa fazer?” A gente fala que a única recomendação que vamos dar a eles é tenha conhecimento.

A partir do momento que vocês têm conhecimento sobre quais são os melhores investimentos que cabem dentro do seu perfil, ou a partir do momento que você consegue enxergar quais são os seus custos fixos e variáveis, a partir daí você vai começar a trabalhar o que de fato faz sentido pra você. Essa é a única recomendação que a gente dá. 

Quais são os maiores desafios e quais foram as maiores conquistas que vocês tiveram em 2022?

Vou começar com as conquistas. Os desafios a gente deixa por último. Isso sempre é bom para a gente falar. A principal conquista da Multiplicando Sonhos foi o retorno para a sala de aula, em 2022. Depois de dois anos de pandemia, que a gente ficou fazendo nossa atuação on-line, voltar para a sala de aula, que é o nosso principal foco, nossa principal missão, nossa principal conquista. Em 2022, a gente também se tornou signatário da Rede Brasil do Pacto Global da ONU; fomos aprovados como instituição pro bono, pela KPMG; e passamos a ser clientes do Escritório Mattos Filho, como instituição. Essas foram algumas de nossas conquistas. Temos a nossa parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie e, eu deixei para o final uma conquista muito importante, porque é muito emocionante: a gente conseguiu colocar três dos nossos jovens numa instituição financeira, que é o Safra, que é parceiro nosso para a contratação desses jovens. Para algumas pessoas, três pode parecer pouco, mas é um muito importante. A gente precisa celebrar cada pequena conquista, que nos prepara para uma grande conquista. Essas foram algumas de nossas conquistas com as quais nos alegramos e em 2023 tem mais.

class=wp-image-17494/
Educação financeira é uma questão de comportamento

Para a gente encerrar, faltou a parte dos desafios. Quais foram os maiores desafios que vocês têm enfrentado nessa jornada?

Primeiro: a gente precisa de recursos financeiros para as atividades da MS acontecerem e a gente levar cada vez mais longe a iniciativa de entrar nas escolas públicas estaduais. Nosso primeiro desafio é atrair esses recursos financeiros, pensando a longo prazo, porque a gente sabe que não é uma construção de hoje para amanhã. É uma construção que requer um pouco mais de tempo. 

O segundo desafio é a gente captar mais voluntários, para que eles possam junto conosco trabalhar em prol desse objetivo comum que é levar a educação financeira. O recurso financeiro nos possibilita ir mais longe, adentrar em escolas e os voluntários nos permitem cada vez mais ter uma abrangência nacional, estadual. 

Um terceiro desafio, que acho importante a gente dimensionar, é essa questão da política político-partidária. Infelizmente, algumas escolas ainda têm viés partidário, seja de A, de B, de C. É um desafio a ser superado nos próximos anos. Infelizmente, isso ainda acaba acontecendo um pouco quando a gente fala das articulações com algumas instituições.

revista

Para entender ainda mais como a Multiplicando Sonhos tem contribuído com a evolução da educação no país, acompanhe a matéria na revista digital e-CANTA BANCOS E EDUCAÇÃO e reveja a palestra de Evandro no canal @Cantarino Brasileiro, no YouTube.

 

Compartilhe

Notícias relacionadas

Entrevistas
Ensino de base, educação financeira e a Agenda BC#
Luis Mansur, do Banco Central, fala sobre o papel do órgão frente ao tema educação...
Entrevistas
Transformação e eficiência tecnológica na jornada de Luis Bittencourt
Promovido a vice-presidente de tecnologia e operações da F1rst – braço do Santander –, ele...
Entrevistas
Liderança feminina no setor financeiro: as inspirações de Walkiria Marchetti
Executiva recém aposentada foi a primeira mulher a ocupar o cargo no Bradesco e recebeu...
Entrevistas
Tarciana Medeiros
Presidenta do Banco do Brasil destaca o comprometimento de sua gestão com a equidade de...

Assine o CANTAnews

Não perca a oportunidade de saber todas as atualizações do mercado, diretamente no seu e-mail

plugins premium WordPress
Scroll to Top