DANILO COSTA

“No Brasil, enquanto o mantenedor estiver fraco, não tiver apoio e ferramentas institucionais, dificilmente sua escola vai conseguir oferecer qualidade, que é o que a gente está buscando no ensino, seja ele público ou privado”,

Danilo Costa, fundador EducBank.

Dados da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) mostram que a pandemia do Covid-19 elevou a inadimplência nas escolas de um volume de 10% para a marca de 15% em 2021. O cenário abriu espaço para o crescimento das edfintechs – startups focadas na educação que oferecem também serviços financeiros. Em meio a esse mar de oportunidades, nasceu, ainda em 2021, a EducBank. Fundada por Danilo Costa, a iniciativa brasileira é considerada a primeira edfintech voltada para a educação básica da América Latina. 

Assumindo o compromisso de ampliar o acesso à educação básica de qualidade no país em consonância com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4) da Agenda 2030 da ONU, o grande diferencial da EducBank frente às ofertas de crédito educativo tradicionais, é que ela oferece soluções com foco no mantenedor, e não nas famílias. “No Brasil, enquanto o mantenedor estiver fraco, não tiver apoio e ferramentas institucionais, dificilmente sua escola vai conseguir oferecer qualidade, que é o que a gente está buscando no ensino, seja ele público ou privado”, argumenta Danilo. 

Em apenas dois anos de atuação, já são 300 escolas apoiadas, em 19 estados do país. A meta para 2023 é chegar a 800 escolas – um crescimento de 166%. Nos próximos cinco anos o objetivo é abranger o mercado nacional em sua totalidade – hoje, são 42 mil escolas particulares no Brasil e um setor que movimenta aproximadamente 100 bilhões de reais por ano no país. Somente depois de cumprir a sua missão no Brasil, é que os planos de internacionalização ganharão força, garante o empreendedor. 

Acompanhe abaixo todos os detalhes sobre a EducBank em entrevista com Danilo Costa conduzida pela nossa diretora de conteúdo, Ana Carolina Lahr, para a revista digital e-CANTA BANCOS E EDUCAÇÃO

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O Educbank foi a primeira edFintech de básica da América Latina e uma das poucas no mundo, também. Quando a gente inaugurou esse conceito, de disponibilizar capital para a educação básica no Brasil, existia algo razoavelmente parecido, que é um RP com meio de pagamento na Austrália e somente isso. A gente se orgulha muito de ter começado e ter provocado, não só para o país, mas para o mundo, que educação básica, sim, vale a pena ser acreditada, ser alavancada e se disponibilizar capital e fomento para esse setor. 

No Brasil, do ponto de vista público, nunca houve nenhum tipo de fomento, incentivo e mesmo linha de crédito para as escolas particulares. A gente tem isso pra diversos setores no Brasil. Inúmeros setores no Brasil possuem linhas de crédito dedicadas aos seus setores, mas Educação Básica nunca foi prioridade no Brasil. Acho que isso é um reflexo de nossa sociedade. A gente resolveu quebrar esse tabu e temos muito orgulho de ter outros países se inspirando na Educbank, fazendo projetos. A gente dá mentoria para empreendedores de outros países, a gente compartilha conhecimento, a gente ajuda. Volta e meia sou convidado para participar de outras companhias análogas à nossa em outros países. A gente está vendo companhias no Educbank surgindo no México, Colômbia, Argentina. Não por coincidência também vários organismos de universidades importantes no mundo: a London School of Economics, na Inglaterra; o MIT, nos EUA; o professor de economia da Universidade de Berkley, na Califórnia; a Ernest Young, aqui no Brasil. Várias entidades estão vendo os impactos e extremamente positivos para sociedade que você, ao acreditar em Educação Básica e possibilitar acesso ao capital de uma maneira estruturada para ampliar esse serviço para uma parcela maior da população, com qualidade e preço justo, o quanto isso é muito bacana.

Se você faz isso de uma maneira escalada e com qualidade, é o tipo de projeto para um mundo cada vez mais ESG e com consciência de nosso impacto cada vez maior. É o tipo do projeto que tem as duas coisas: consegue conversar com os dois polos – ele tem um impacto social relevantíssimo e ao mesmo tempo ele tem a capacidade de se sustentar financeiramente. Essas duas coisas juntas, é muito legal.

É interessante porque temos uma sessão que se chama Ponto de Vista e um dos especialistas que falou com a gente na revista digital eCANTA Bancos e Educação questionou justamente isso. Segundo ele, no governo Dilma foi instituído o termo Pátria Educadora. Se investiu muito, mudaram algumas regras do FIES e se investiu muito nessa parte da universidade. E aí ele traz um questionamento: “será que esse investimento tem que começar ali na universidade e não na educação de base?”. É interessante porque vocês estão respondendo a isso. O governo não trouxe, mas a iniciativa privada, junto com tecnologia que está ajudando a alavancar tanta coisa, trouxe essa iniciativa. Eu queria saber o que na sua história, motivou e trouxe essa percepção de que era necessário investir na educação de base.

Nenhuma democracia na história conseguiu se consolidar sem a educação básica. Não vai ser diferente com o Brasil. O fato do Brasil enfrentar desafios institucionais que ele enfrenta, começa na Educação Básica. Por mais clichê que isso possa parecer, está na hora da gente “cair na real”. A educação básica é o que forma o país. São nossas crianças. 

Quando a gente decide focar em Ensino Superior – não estou dizendo que ele não é importante, não é isso que estou dizendo – mas que a educação básica é a base de tudo isso. Então, se a gente esquece dela, essa conta vai chegar. Por mais que você crie uma máquina de ensino superior absolutamente acima da média, esse aluno, chegando lá despreparado, nenhuma máquina vai conseguir fazer esse milagre. Temos diversos exemplos de países que conseguiram se consolidar socialmente, institucionalmente e economicamente sem uma tradição de ensino superior: Suíça, Alemanha, diversos países. Mas, o inverso não existe. Não há nenhum país que conseguiu se consolidar, enquanto democracia, sem Educação Básica. É evidente que ele, por sua vez, não vai conseguir sem acesso ao capital. 

Antes de fundar o Educbank, eu tive um sonho – com 27 anos de idade – de levar a educação de qualidade para famílias de baixa e média renda no Brasil. Criei a primeira rede de escola brasileira, em período integral, com mensalidades de baixo custo, para famílias de baixa e média renda. Fiz isso porque fiquei extremamente inconformado na época com o fato de famílias de baixa e média renda não terem acesso a escolas em período integral. E eu resolvi isso criando uma rede low cost. Era um conceito novo no Brasil, com escolas que possibilitavam crianças de barriga cheia, café da manhã, com almoço, com aulas de inglês todos os dias, muito esporte, campos horizontais dentro de centros urbanos. Esse conceito era exatamente o que a família de classe média brasileira estava buscando naquele momento. Acertei em cheio, vendi a rede no início de 2020 – 60 dias antes da pandemia e dei muita sorte nesse sentido. 

A grande coisa que me deixou inconformado com a experiência como mantenedor foi que eu percebi que sem acesso a capital esse setor nunca ia conseguir dar o próximo passo. Porque o gestor educacional no Brasil, com toda a intensidade de capital de giro que a escola consome – as famílias ao longo do ano letivo por lei  podem atrasar as mensalidades e podem pagar no final do ano para o aluno se matricular. Ao longo do ano letivo o estoque de inadimplência aumenta exponencialmente, fazendo com que a escola tenha uma demanda por capital de giro no seu colégio super alta e, ao mesmo tempo, não tem linha de crédito e nem capital institucional para esse mantenedor conseguir apoiar financeiramente a sua escola. 

O que acontece é que o gestor educacional hoje no Brasil passa muito tempo correndo atrás de capital de giro, de factoring e de linhas de crédito físicas para colocar na escola, cobrando os pais inadimplentes e renegociando. Essa agenda maligna da inadimplência consome mais tempo do gestor educacional no Brasil do que a própria educação. Eu percebi que isso não ia levar a gente a lugar nenhum. Fora isso, pelo fato do setor não ter acesso ao capital, o mantenedor não tinha disponibilidade para investir – criar uma biblioteca nova, criar um ginásio novo, expandir a escola atual, ofertar vagas para uma parcela maior aos alunos da comunidade, comprar um concorrente que está indo mal, etc.

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Nos conte mais sobre o que vocês têm feito efetivamente com a Educbank. Vocês oferecem uma linha de crédito específica para os mantenedores de instituições educacionais de base e também para os pais que precisam de um financiamento?

O Educbank apoia somente as escolas, não as famílias. A gente acredita que se a escola não estiver forte, a sala de aula nunca vai estar. A gente fala muito em apoiar diversos stakeholders em educação básica, mas a gente fala muito pouco em apoiar o mantenedor da escola. No Brasil, enquanto o mantenedor estiver fraco, não tiver apoio, não tiver ferramentas institucionais, dificilmente a sua escola vai conseguir subir na mesma proporção. 

Vocês se consideram um hub de soluções. Além dessa parte que é mais relacionada aos serviços financeiros, o que mais vocês oferecem? 

A gente oferece meios de pagamento – pix, boleto, link, QRCode, maquininha –, softwares de gestão e apoio financeiro para as escolas. A gente garante a elas inadimplência zero e dá capital de giro para elas.

Com os meios de pagamentos, significa que os pais não precisam se vincular a uma instituição financeira para fazer o pagamento, por exemplo. Ele faz tudo através do Educbank.

Positivo. E a gente não cobra taxa ou qualquer tipo de tarifa para a escola, o que por si só já é uma boa economia. 

A escola consegue fazer todos os seus pagamentos, dos seus funcionários e de todos os seus gastos por vocês também?

Ainda não. São planos para o futuro. Por enquanto, o que a gente quer garantir é que mantenedores excepcionais não deixem mais de crescer e investir por falta de orçamento. 

Quais foram as maiores demandas que existiram nesse curto período que vocês estão atuando?

Primeiro, foi a demanda de garantia de inadimplência zero. A segunda, que está vindo com tudo, é capital de fomento, de longo prazo – é algo que a gente pretende lançar no segundo semestre deste ano e já estamos desenhando para conseguir oferecer para as escolas. 

Vocês surgiram impulsionados pela pandemia, que aumentou a taxa de inadimplência. Como vocês fazem para continuar identificando as tendências e necessidades do mantenedor?

A gente faz pesquisas constantes com as escolas. Uma boa parte do meu tempo é dedicado a conversar com nossos clientes, que são os mantenedores escolares. A gente tem uma agenda intensa de inovação e roadmap de novas soluções que a gente leva muito a sério. 

A missão de vocês é ajudar o setor e obviamente vocês estão trazendo investidores que acreditam nessa missão. Mas como vocês retornam para o investidor. Qual é esse modelo de negócio para ter retorno?

Perfeito. A gente cobra uma taxa sobre o faturamento das escolas. Uma taxa que pra ela é muito vantajosa porque é inferior ao grau de inadimplência dela. O Educbank tem uma escala muito maior do qualquer uma de nossas escolas individualmente, tem um custo muito mais baixo do que qualquer uma de nossas escolas. Então, isso possibilita a gente ter uma alavancagem muito maior. Outra coisa é que embora a inadimplência ao longo do ano seja alta, após as rematrículas – e se a escola é realmente boa e é isso que a gente busca na decisão de apoiar ou não uma escola é – essa inadimplência tende a cair após a matrícula. O Educbank consegue ser superavitário nessa carteira. Mas ao longo do ano letivo a escola não tem condição, seja capital próprio ou uma linha de fomento pra conseguir patrocinar a ela essa queima do capital de giro, enquanto a rematrícula não chega durante o ano letivo. O Educbank apoia a escola financeiramente, coloca duas turbinas de avião nas asas dessa escola para destravar todo o potencial dela. E o foco e a energia do mantenedor, que antes ficava no capital de giro, cobrança e ir atrás de pai inadimplente, agora ele vai formar professor, dar feedback pro aluno, vai fazer o que ele ama fazer, que é educar. A maior parte dos mantenedores escolares no Brasil são padres, freiras, ex-professores. Gente que ama a educação e tem um propósito. Quando a gente faz uma hora daquilo que a gente ama versus uma hora daquilo que a gente odeia, o desempenho é diferente.

Você falou que vocês decidem apoiar escolas que têm potencial. Como vocês fazem essa seleção? 

A correlação não é linear com preço. A gente tem escola de R$250 de mensalidade e a gente tem escola de R$10 mil de mensalidade. O que muda em relação ao potencial é o quanto a gente acredita é o quanto essa escola tem capacidade, se a gente investir nela, de ampliar o acesso à educação de qualidade. O que é que a gente olha? O custo-benefício da escola. O quanto ela entrega de qualidade versus o preço que ela cobra. 

Como vocês mensuram isso? Existe um processo seletivo?

Existe um processo seletivo. O preço é mensurado de uma maneira objetiva pelo valor da mensalidade. Na qualidade, a gente olha dezenas de critérios operacionais, institucionais e acadêmicos de cada uma das escolas. A evasão de alunos, por exemplo, é muito importante. Rotatividade de professores, qualidade operacional, qualidade acadêmica, reputação da escola na sua comunidade, a percepção das famílias em relação à escola são igualmente importantes, dentre diversos outros critérios.

A escola tem que fazer uma aplicação e mostrar evidências que mostrem isso pra vocês? Na percepção de família, por exemplo, elas têm que captar depoimentos ou vocês vão atrás desse tipo de informação? 

Metade das informações a escola compartilha conosco e a outra metade a gente vai atrás por meio de dados públicos, censo, banco de dados parceiros e pesquisa própria.

Vocês já tiveram escolas “reprovadas”? 

Centenas.

Vocês fazem um trabalho para estimular os reprovados a melhorarem e tentarem novamente o crédito?

A gente dá um certo diagnóstico, sim. 

É um aspecto importante nessa missão. Dentro da nossa cultura é difícil no Brasil exigir que todas as escolas tenham qualidade, embora a gente sonhe com isso. Vejo que o trabalho de vocês exige que tenham um mínimo necessário para dar o investimento.

É uma coisa que a gente gostaria de um dia poder fazer muito bem, mas exige muito foco e, como diz o ditado “se conselho fosse bom a gente não dava”. Eu me sinto muito responsável nesse trabalho de aconselhamento e tenho muito medo de dizer para um dono de escola que está há 40 anos trabalhando na comunidade e falar o que ele tem que fazer, se eu nunca botei o pé naquela comunidade, não conheço aqueles alunos. 

É uma coisa que eu gostaria muito de fazer, mas eu acho que na prática, quando você vai realmente implementar isso, existe uma certa complexidade por trás. Se é pra gente dizer pra escola o que ela tem que fazer pra virar escola nossa, eu gostaria de fazer com um pouco mais de conhecimento de causa. Chegar lá e aplicar uma repescagem é um sonho pessoal, algo que eu gostaria muito de fazer, mas eu acho que é mais para o futuro, uma área de informação, uma área de pesquisa um pouco mais elaborada e também uma capacidade de pegar um pouco mais na mão desse mantenedor, que infelizmente não passa no nosso processo seletivo. Mas é um ótimo ponto que você levantou. 

Vejo isso como grande potencial. Espero que vocês, com todo o crescimento, em algum momento possam investir nisso porque é o impacto que vocês querem gerar na sociedade. Mas, só de selecionarem as escolas que têm potencial e alavancar, com certeza já estão contribuindo muito com o nosso cenário. Quero finalizar nossa conversa perguntando: quais são as perspectivas para 2023?

Ampliar o EducBank para um universo maior de escolas, quem sabe atingir uma abrangência nacional e lançar, pelo menos, mais um novo produto.

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