Qual a sua trajetória profissional e como ela permitiu que se tornasse referência em meios de pagamento no país?
Entrei no setor de pagamentos em 2000, a convite do Luiz Fernando Fleury, a quem sempre fui muito grato, para atuar como CFO da Redecard. Na época, o setor estava em pleno crescimento devido à estabilização da economia brasileira pós-Plano Real. Muitas iniciativas ocorreram, como a implementação do SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiros) pelo Banco Central do Brasil, discussões sobre emissão de cupom fiscal pelos estados, automação da captura de transações de pagamento e, principalmente, a expansão da aceitação dos cartões de pagamento para além das grandes capitais.
Participei de todos esses temas como representante da minha empresa e da Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços), o que me exigiu entender profundamente os sistemas e processos. Assim fui aprofundando meu conhecimento no mercado de pagamentos, tanto no Brasil quanto em outros países.
Em 2007, participei integralmente da abertura de capital da Redecard, viajando ao redor do mundo para apresentar nosso negócio e atrair investidores institucionais. Em 2010, fui convidado para construir a credenciadora da Global Payments no Brasil, uma experiência incrível onde, começando do zero, desenvolvemos processos, produtos e distribuição. Essa experiência consolidou meu conhecimento e prática no setor.
Em 2020, na obra Payments 4.0, você falou sobre a transformação do mundo e a necessidade dos meios de pagamento se adequarem a essa realidade. Na época, o projeto do Pix acabava de ser lançado. Quatro anos mais tarde, muita coisa aconteceu, entre elas a consolidação do Pix como um grande case de sucesso. Como você avalia esse cenário? Diria que já estamos nos aproximando da “Era 4.1”?
No livro, abordamos vários aspectos que estão transformando o mercado brasileiro, incluindo a possibilidade de uma disrupção na indústria de pagamentos com cartões, que surgiu na década de 1950 e, embora tenha passado por inúmeras inovações, ainda se baseia em modelos antigos.
O “trilho” de pagamento do Pix é totalmente digital, necessitando apenas de uma conta bancária ou digital e de uma central de liquidação com conexões seguras. Isso contrasta com os “trilhos” dos cartões, que envolvem a interação de diversas empresas, desde fabricantes de cartões e chips até software de POS, somando aproximadamente 26 entidades diferentes. Ou seja, trata-se de uma indústria com muitos intermediários e também muito cara.
Temos diversos exemplos na história que mostram que a digitalização de processos, produtos e serviços tem atuado como fator disruptivo em vários negócios e posso dizer que podemos estar vivendo o início de mais uma mudança importante.
Como curador da trilha Payment Anyway, da Cantarino Brasileiro, você tem a oportunidade de lançar, mais uma vez, um olhar sobre o futuro dos pagamentos e propõe explorar o cenário na visão do varejo e do consumidor. O que motivou esse recorte?
Já participei de muitos eventos sobre o setor de pagamentos onde geralmente são apresentadas novidades futuras. Pessoalmente, gosto de eventos que não só trazem novidades, mas que também dão insights que possam inspirar novas soluções e produtos. Falar apenas do futuro, às vezes, pode parecer distante demais. Por isso, a ideia foi realizar um movimento diferente. Considerando que o fórum presencial programado para o dia 10 de setembro, em São Paulo, é o ponto alto dessa trilha, nos concentramos nessa curadoria para propor uma abordagem diferente, mais focada nos problemas e desafios atuais.
Como essa perspectiva vai agregar valor ao público que participar dos eventos dessa trilha, especialmente o fórum presencial?
Além do varejo e do consumidor, o cenário B2B também será explorado no fórum presencial. Quais você diria que são os maiores desafios desse segmento no Brasil hoje?
Essa é uma pergunta muito relevante. Debatemos bastante sobre incluir ou não esse tema no fórum. A indústria de pagamentos evoluiu significativamente nos últimos 70 anos, melhorando a experiência para consumidores e varejistas. No entanto, os pagamentos entre empresas (B2B) ainda ocorrem de maneira similar há décadas.
Você é bastante objetivo ao salientar a necessidade de olhar para o futuro dos pagamentos sob a perspectiva do que já é vivido – varejo e consumidor – e não o que ainda é especulação, como a IA e o Drex. Ainda assim, esses são temas que geram dúvidas e curiosidade no público…
Certamente. E é por isso que esses temas surgirão em vários painéis, durante as discussões. No entanto, não elaboramos um painel específico sobre eles porque preferimos focar no que estamos vivendo hoje.
Sob essa perspectiva, temos que concordar que a IA já está sendo vivida na atualidade por todos os setores. De que forma ela será explorada no evento?
IA generativa é um tema importante e emergente, com potencial para impactar diversas áreas, incluindo o setor de pagamentos. O tema tem sido muito discutido atualmente mas, no setor de payments, as aplicações práticas têm sido mais voltadas para eficiência operacional, atendimento ao cliente e sistemas antifraude. Até agora, o processo de pagamento em si não mudou substancialmente por causa da IA.
Tanto acredito nessa versão que decidimos que essa seria a temática do evento virtual que precede o fórum presencial. A proposta do webinar é provocar os amantes da IA e dos meios de pagamento a desenharem um futuro próximo no qual a tecnologia mire a real transformação do processo de transação de pagamentos.
Ainda olhando para o futuro incerto, qual sua expectativa para os meios de pagamento uma vez que o Drex entre em ação?
O Drex tem o potencial de trazer mudanças significativas para o setor financeiro. Entre outras coisas, ele chega para acelerar transações financeiras que são burocráticas e para dar mais segurança aos processos, especialmente quando eles são feitos entre empresas.
Recentemente, diretores do Banco Central do Brasil fizeram declarações importantes sobre o Drex, destacando que ele será utilizado principalmente no backend do sistema financeiro, impactando de forma mais significativa as operações interbancárias e de atacado. Isso significa que, em sua fase inicial, servirá principalmente para operações interbancárias e será menos visível para o público em geral.
Essas declarações indicam que inicialmente o Drex terá um papel fundamental no aprimoramento dos processos financeiros entre grandes instituições, com a expectativa de que seus impactos sejam mais perceptíveis ao público em fases futuras, quando novos casos de uso e tecnologias, como contratos inteligentes, forem implementados. Por isso, decidimos deixar para explorar o tema quando tivermos casos reais a serem compartilhados.