Entrevista luis mansur

Ensino de base, educação financeira e a Agenda BC#

Luis Mansur, do Banco Central, fala sobre o papel do órgão frente ao tema educação financeira e a importância da sua aplicação na infância

por Ana Carolina Lahr

Responsável por mapear as iniciativas de educação financeira no país, em dezembro de 2023, o Banco Central deu novo impulso ao tema a fim de prevenir problemas como o superendividamento, com a publicação da Resolução Conjunta nº 8, que visa regular as medidas de educação financeira a serem adotadas por instituições financeiras, instituições de pagamento e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BC.

Desde 2019, porém, o regulador instituiu as diretrizes que regem a promoção da educação financeira por parte das instituições financeiras no Brasil, através do Comunicado 34.201. Entre os princípios, está o valor para o cliente, amplo alcance, adequação e personalização, avaliação e aprimoramento.

Por meio de instrumentos contínuos de análise que englobam diagnóstico, divulgação de recomendações e acompanhamento da implementação das recomendações no âmbito das instituições financeiras, o BC identifica desafios como a relevância do tema no planejamento estratégico, nas políticas e nos demais elementos da governança das empresas, assim como a implementação de instrumentos de avaliação de impacto das ações.

Além desse viés, o regulador possui uma agenda estratégica com apoio a três projetos que abordam o tema em diferentes esferas. Entre eles, está o Aprender Valor, que apoia Secretarias de Educação, escolas e professores da rede pública na implementação do tema como transversal ao ensino. O projeto é financiado com recursos do Fundo de Defesa de Direitos Difusos do Ministério da Justiça e Segurança Pública e segue as orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Nesta entrevista, Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central (Depef), traz resultados do programa, fala sobre a importância de se introduzir a educação financeira na infância e sobre o processo de fiscalização das ações voltadas ao tema.

Luis Mansur
Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central (Depef). Crédito: Beto Nociti/BCB

CB – Qual você diria que é a vantagem de a criança/jovem adquirir a educação financeira na escola, em comparação ao que acontecia com gerações anteriores, que não eram orientadas nesse sentido?

Todas as melhores práticas internacionais apontam para a necessidade de introdução da educação financeira na escola, desde os anos iniciais. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento), idealizadora do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e mais relevante instância de difusão de boas práticas relacionadas à educação financeira no cenário internacional, preconiza que esta “deve começar o mais cedo possível e deve ser ensinada nas escolas”.

Ao olharmos para as gerações passadas, um dos principais desafios para a gestão das finanças pessoais é a falta de planejamento. São muitos os fatores que interferem na capacidade de administrar o dia a dia das finanças pessoais e familiares, e de lidar, ao mesmo tempo, com objetivos de longo prazo. Planejar o orçamento doméstico, embora seja algo reconhecido como importante, não é um hábito frequente para indivíduos e famílias.

Outro aspecto a ser considerado é que, historicamente, o hábito de poupança do brasileiro é baixo, e isso não é verdade apenas para as pessoas que têm baixa renda. Mesmo famílias das classes econômicas mais favorecidas enfrentam desequilíbrios financeiros e encontram dificuldades para poupar. Em momentos como o que vivemos desde o início da pandemia, que afetou não só o Brasil, mas todo o mundo, a ausência de uma reserva de emergência em um momento em que há redução no emprego e nos ganhos pode ser um sério fator de desequilíbrio para as finanças pessoais e familiares.

Outro fator que deve ser levado em consideração é a dificuldade com a matemática: dois terços dos cidadãos brasileiros não compreendem cálculos porcentuais. Assim, nem sempre conseguem compreender as taxas de juro embutidas nas operações de crédito. O consumidor tende a dar mais atenção ao valor da prestação e boa parte de sua renda acaba sendo utilizada no pagamento de juros.

Na maior parte dos casos, não se trata de conhecer e rejeitar, mas de ignorar os preceitos da educação financeira. Até o início da década passada, não se falava em educação financeira formal, fosse na escola, para crianças e jovens, fosse para adultos. Assim, o mais frequente era o indivíduo reproduzir padrões que aprendera na família e em outros grupos sociais mais próximos. Nesse cenário, a perpetuação da cultura era inevitável.

O projeto Aprender Valor incentiva crianças e jovens a lidar com dinheiro no Ensino Fundamental, proporcionando a formação dos professores e fornecendo o programa a ser aplicado. Esse apoio é sempre no âmbito da formação ou também envolve ajudas financeiras?

O Aprender Valor foi pensado para transformar a relação que crianças e adolescentes brasileiros têm e terão com o dinheiro, buscando estimular os estudantes a desenvolver suas competências financeiras, para que estabeleçam relação consciente, responsável e autônoma com seus recursos financeiros desde a infância e, consequentemente, obtenham melhor qualidade de vida para si próprios e para sua família.

Com base no conceito de Cidadania Financeira do Banco Central, o programa elegeu como prioritárias as seguintes competências: o Planejamento do Uso dos Recursos financeiros (PLA); a Poupança Ativa (POU); e o Gerenciamento do Uso de Crédito (CRÉ).

Ele é destinado às crianças e jovens do 1º ao 9º ano, com idade de 6 a 15 anos. Entretanto, ciente de que os professores nem sempre têm o conhecimento ou a confiança necessários para promover a educação financeira de seus estudantes, o BC também considera os professores, os gestores das escolas e os técnicos das secretarias de educação como público direto do Aprender Valor.

Para alcançar esses públicos, desenvolvemos o programa em três grandes frentes: formação para gestores e professores, disponibilização de projetos escolares para uso em sala de aula (presencialmente ou de forma remota), por meio da plataforma do programa, e de forma gratuita para os professores e avaliação de aprendizagem; e avaliação de impacto.

A formação de gestores é uma iniciativa de desenvolvimento profissional que reúne reflexões e informações capazes de auxiliar na implementação, na execução e no monitoramento do programa. A formação de professores tem como foco o percurso formativo de educação financeira pessoal, a apresentação da estrutura do Aprender Valor e as orientações para implementação do programa na sala de aula, por meio dos projetos escolares de língua portuguesa, matemática e geografia.

Os projetos escolares são sequências didáticas. Não há previsão de repasse de recursos financeiros às escolas participantes.

Crédito: Freepik.

Quais são os resultados do Aprender Valor?

O Aprender Valor teve iniciada sua aplicação em caráter piloto para 429 escolas de seis unidades da federação (UFs) em 2020 – Ceará, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e Paraná – e foi expandido nacionalmente no segundo semestre de 2021, com a adesão de 12 mil escolas em todas as UFs. Em 2022, o Programa atingiu mais de 17mil escolas distribuídas em 43% dos municípios brasileiros.

Esse foi o alcance das quatro principais entregas do Aprender Valor até 2022: 3,5 mil gestores certificados pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); 6,3 mil professores certificados pela UFJF; disponibilização de 29 projetos escolares do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental, que foram baixados mais de 15 mil vezes, atingindo mais de 230 mil estudantes – em 2023, ficarão disponíveis mais 31 projetos escolares inéditos para os professores.

Por fim, na frente de avaliação e monitoramento, em 2022 ocorreram 353 mil testes de Letramento Financeiro e 381 mil de Língua Portuguesa & Matemática para 3º, 5º, 7º e 9º anos.

O projeto possui uma metodologia de avaliação de impacto. Qual é ela?

As avaliações de aprendizagem e de impacto constituem uma etapa importante do Aprender Valor. Elas são realizadas regularmente com base em matrizes de referência e itens de avaliação específicos para os estudantes do Ensino Fundamental brasileiro.

Um importante marco para o Aprender Valor em 2022 foi a realização da Avaliação de Impacto do programa, conduzida pelo CAEd/UFJF, que teve como objetivo mensurar o quanto as formações e os projetos escolares impactam no letramento financeiro dos estudantes. Foram selecionadas 783 escolas para participarem da amostra. Está previsto o Seminário de Divulgação de Resultados no primeiro semestre deste ano, com reconhecimento das escolas e redes de destaque.

O Banco Central é hoje a instituição responsável por mapear as iniciativas de educação financeira no país. Existe essa preocupação em mensurar os resultados em todas as iniciativas?

Avaliações e mensurações de resultado são essenciais para verificar a efetividade de políticas públicas. Em projetos inovadores, é importante inserir etapas de avaliação, para permitir que o programa passe por ajustes e seja expandido com menos incertezas, o que eleva seu potencial de alcançar sucesso. Nesse sentido, a avaliação faz parte de um processo de melhoria contínua de um projeto ou programa.

A metodologia de avaliação de impacto, porém, não é aplicável a todas as iniciativas de educação financeira. Em muitos casos, as ações realizadas têm natureza informativa, como campanhas de conscientização, avisos sobre golpes ou a utilização dos canais digitais. 

Nesses casos, entendemos que a avaliação de impacto não é aplicável, mas apenas a mensuração de pessoas atingidas e, eventualmente, a avaliação de reação.

*Essa entrevista foi publicada originalmente na revista digital e-CANTA Bancos & Educação de 2023 e atualizada em 13/02/2023.

Trilha Bancos & Educação
As normas da recém publicada Resolução Conjunta nº 8, que visa regular as medidas de educação financeira a serem adotadas por instituições financeiras, instituições de pagamento e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BC, serão exploradas durante o webinar “Bancos & Educação: unidos pelo ensino de qualidade”, que acontece no dia 5 de março. RESERVE SEU LUGAR NO EVENTO GRATUITO!

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