Ecossistema Fintech: Amadurecer é preciso

Após o boom dos últimos dois anos, especialistas afirmam que 2017 trará sinais de amadurecimento do setor.

 

A atual situação do fenômeno fintech no Brasil pode ser comparada à de um agricultor que plantou muitas sementes em um campo fértil e começou a ver brotar muitas plantas frutíferas. De qualquer ângulo que se olhe, só é possível avistar crescimento. Seja pelo número de iniciativas, seja pelo investimento financeiro, seja pelo volume de pessoas envolvidas, a conclusão a que se chega é que a plantação prosperou. Mas, como todo bom produtor rural sabe, antes de se passar à colheita, é necessário que os frutos cheguem ao ponto exato. É isso que se espera que aconteça nesse segmento a partir de 2017. Por esse motivo, a palavra mais usada pelos principais consultores, analistas e executivos que acompanham e traçam as perspectivas para esse mercado tem sido “amadurecimento”.

Segundo dados da plataforma de informações Conexão Fintech, o Brasil saltou de 130 iniciativas em 2015 para 220 em 2016. O Radar FintechLab, que periodicamente apresenta cenários sobre a movimentação do setor, revela números ainda mais impressionantes. O indicador, que, em sua primeira edição, publicada em agosto de 2015, registrava 54 casos, teve sua mais nova versão divulgada no final de fevereiro deste ano e reportou a existência de 247 projetos. De acordo com a publicação, eles estão distribuídos nas categorias pagamentos (32%), gestão financeira (18%), empréstimos (13%), investimentos (8%), funding (7%), seguros (6%), negociação de dívidas (5%), cryptocurrencies e DLTS (5%), câmbio (4%) e multisserviços (2%).

Em termos de recursos financeiros, o estudo “The 2016 Fintech Investment Landscape”, da associação Innovate Finance, do Reino Unido, também mostra o Brasil em posição privilegiada no cenário internacional. O volume de investimentos – da ordem de 161 milhões de dólares – que o país recebeu no ano passado foi maior do que o de países que se destacam no segmento, como Cingapura e Japão. Além disso, o Brasil ficou muito próximo de Israel – 173 milhões de dólares –, outra nação das mais avançadas em inovação tecnológica para a indústria financeira. Ao todo, estima-se que só em 2016 as fintechs receberam cerca de 22 bilhões de dólares de investimentos no mundo, a maior parte nos Estados Unidos. De acordo com o diretor do FintechLab, Marcelo Bradaschia, em 2016, o Brasil deve ter alcançado a marca de 1 bilhão de reais investidos em fintechs, considerando o acumulado dos últimos anos.

Os especialistas acreditam que esse ritmo de crescimento não sofrerá grandes percalços neste ano. O sócio da Deloitte, Paschoal Baptista, por exemplo, chama a atenção para o prazo normalmente estabelecido como ciclo de vida dos projetos. Segundo ele, o período de consolidação ou não de uma startup com as características demonstradas pelas fintechs é em geral compreendido entre 18 e 24 meses. “Acreditamos que esse número de 2016 ainda se manterá em 2017 porque estamos falando de ideias que foram colocadas em prática dentro desse espaço de tempo. Outras vão entrar, então acho que o número ainda não se estabilizou”, diz

 

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Bradaschia acrescenta o fato de o movimento fintech ser um fenômeno muito novo no cenário da economia brasileira. “O surgimento de um grande número de fintechs tem pouco mais de um ano. Então, acho que ainda não deu tempo de essa maturação acontecer a ponto de vermos um alto volume de saídas”, afirma

Para Baptista, o fato de existir um volume marcante de recursos financeiros investidos significa que talvez as fintechs que operam atualmente consigam sobreviver por um pouco mais do que esse prazo estipulado no ciclo. “A experiência compartilhada por esse grupo de empreendedores atuais proporciona uma certa profissionaliza- ção para as que estão chegando. Isso fortalece as novas iniciativas, que têm chance maior de sobrevivência”, completa.

Bruno Diniz, cofundador da Innercore Solutions e representante da Next Money no Brasil, concorda com a manutenção do ritmo de crescimento, mas também chama a atenção para a importância do dinheiro como adubo para esse ecossistema. “O único fator que pode ser um gargalo é o apetite do investidor, pois, a partir do momento em que essas startups não tiverem tempo para se provar, elas não conseguirão novos investidores. Hoje, os investidores estão mais seletivos em relação à tese em que vão investir. Então, poderemos ter um universo de ideias que talvez acabem não se provando”, diz.

Ele ressalta, no entanto, que várias instituições financeiras, como empresas de meios de pagamento já consolidadas e seguradoras, por exemplo, estão oferecendo suas próprias interfaces para desenvolver e fomentar o ecossistema fintech. Segundo ele, em alguns casos, a participação se dá em torno de um grau de aceleração um pouco mais definido. Em outros, o modelo é mais próximo de um suporte mesmo. “Tudo isso é um incentivo para que novas fintechs sejam criadas nos próximos anos, mas, se essa situação não for acompanhada de investimentos, muitas ficarão pelo caminho”, afirma.

Tempo de podar e tempo de colher

Bradaschia acredita que em 2017 o mercado começará a sentir um movimento mais acentuado de rotatividade de projetos. Para ele, essa é a tendência, como aliás ocorre em qualquer mercado de startup. “Você tem uma taxa de mortalidade que tende a ser elevada e faz parte do negócio. Os próprios investidores, quando entram, sabem que o negócio é um investimento de risco”, diz.

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Paschoal Batista, sócio da Deloitte

Apesar disso, ele acredita que, por causa de todo o amadurecimento do ecossistema, o setor verá surgir iniciativas bem mais estruturadas, com muito mais capital intelectual, social, tecnológico e financeiro envolvido. “Porque quando o mercado atenta para esse tipo de movimento tudo começa a trabalhar num círculo virtuoso”, diz.

Ao falar desse ciclo, ele destaca fatores como o surgimento das entidades de representação das fintechs, como a Associação Brasileira de Fintechs, a Associa- ção Brasileira de Equity Crowdfunding, a Associação Brasileira de Crédito Digital e o comitê de fintechs da Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Outros itens mencionados foram o desenvolvimento de diversos programas corporativos, o fato de todos os grandes bancos e inclusive os médios e pequenos já terem iniciativas em andamento para se aproximar do mercado de fintechs, o posicionamento mais claro do governo a favor da inovação e o surgimento de diversas aceleradoras no país.

“Com todo esse ecossistema funcionando, as fintechs deixam de ser só iniciativas isoladas e passam a formar um movimento de revolução que tem impulsionado um mercado inteiro. Então, é claro que a partir daí vamos começar a ver cada vez mais iniciativas mais maduras, disruptivas ou com modelos de negócios mais estruturados”, diz.

A opinião é compartilhada por Bruno Diniz, que também coordena o comitê de fintech da Abstartups. Ele comenta que certamente vamos ter em 2017 o início de uma valorização maior da qualidade em relação à quantidade. Em sua avaliação, o setor viveu um boom muito forte nos últimos dois anos e agora começa a ter uma acomodação a partir do momento em que os modelos já foram mais testados, vão se popularizando e ganhando mais terreno em relação aos demais. “Temos alguns modelos que fazem bastante sentido do ponto de vista de opção para o consumidor e que com o passar do tempo vão se popularizar. Vamos acabar vendo quais são os players que vão se sobressair perante os demais”, diz.

O sócio-diretor da KPMG, Oliver Cunningham, também afirma que o mercado brasileiro de fintechs está numa fase na qual a qualidade das ideias está melhorando. Ele chega a revelar que até pouco tempo atrás estava desapontado com o ambiente fintech do Brasil. “Acho que não tínhamos ofertas tão robustas assim. Algumas poucas, mas faltava inovação mais intensa”, diz. “Agora, comecei a observar algumas ofertas que já têm essa característica e então tenho ficado mais otimista com o que vem por aí. Acho que isso é produto do amadurecimento. Temos a entrada de times de empreendedores um pouco mais familiarizados com o ambiente financeiro, que conhecem os desafios que ele oferece para alguém que quer mudar e inovar. Acredito que vamos começar a observar isso de uma forma mais evidente, e talvez 2017 seja um marco”, avalia.

Por Ademir Morata

 

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