Divergência é sobre como as parcelas serão cobradas: na fatura do cartão ou separadamente, como quer o regulador
Um impasse entre o Banco Central (BC) e instituições financeiras sobre a forma de cobrança do Pix Parcelado está travando a evolução da modalidade. A divergência, focada em incluir as parcelas na fatura do cartão de crédito (como querem os bancos) ou em uma cobrança separada (como defende o BC), pode atrasar a publicação da regulamentação, que era prevista para esta semana. O BC teme o superendividamento dos clientes, enquanto o mercado defende um modelo já testado.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem do site Broadcast, é provável que o conflito atrase a norma, enquanto as partes buscam um acordo. A regulação da modalidade, originalmente prevista para setembro, já havia sido adiada uma vez, após o BC constatar que o desenho era mais desafiador que o esperado. A discussão, por enquanto, ocorre apenas na área técnica, sem ter chegado à diretoria colegiada do BC.
No desenho defendido pelo BC, o Pix Parcelado teria um limite próprio e um instrumento de pagamento único, como um boleto ou uma nova fatura exclusiva. A principal preocupação do regulador é reduzir as chances de superendividamento, já que a modalidade é, na prática, uma nova linha de crédito. O regulador também quer garantir “transparência e clareza” aos consumidores, avaliando que misturar as faturas poderia ser prejudicial.
Em contrapartida, as instituições financeiras propõem que os clientes escolham entre duas alternativas já usadas em soluções de mercado: a inclusão do Pix Parcelado na fatura do cartão de crédito, compartilhando o mesmo limite, ou o débito direto em conta.
O entendimento do mercado é que ambos os modelos já foram testados e aprovados. Fontes indicam que, nas soluções vigentes, a esmagadora maioria dos clientes prefere juntar as faturas no cartão, agregando as operações em um só lugar. “O conflito que existe é porque o BC está trazendo um produto que não sabemos qual é o nível de adesão por parte do cliente, nem se ele vai querer aderir”, diz uma fonte que pediu anonimato.
O risco do rotativo
O diálogo entre o BC e as associações de bancos continua. Um dos maiores temores da autarquia é que, se o Pix Parcelado dividir a fatura do cartão e o cliente não pagar o valor integral, ele caia automaticamente no crédito rotativo, cuja taxa média de juros atingiu 443,3% ao ano em setembro.
Para mitigar os problemas, as instituições propuseram soluções intermediárias. Uma delas é que, caso o pagamento não seja integral, sejam aplicadas as taxas de juros contratadas na operação do Pix Parcelado, que tendem a ser menores, em vez das taxas do rotativo do cartão.
Para garantir a transparência, o mercado sugeriu que as faturas do cartão e da modalidade venham em páginas apartadas, mas dentro do mesmo documento. O argumento é que manter a cobrança unificada facilita a vida do consumidor e reduz o risco de inadimplência para as instituições, por não haver cobranças separadas.