compartilhamento de dados

Como o open finance, o cadastro positivo e a educação digital enriquecem o compartilhamento de dados no Brasil

| Por Ana Carolina Lahr |

“As empresas que tomam decisões baseadas em dados têm maior chance de sucesso”, é o que sugeriu a Harvard Business Review (HBR) em 2020. Em sinergia com essa afirmação, o Banco Central do Brasil tem se movimentado com êxito rumo ao objetivo de aumentar a transparência e a eficiência do mercado financeiro tornando-o mais acessível e competitivo para os consumidores por meio da implementação de sistemas de compartilhamento de dados entre as instituições do ecossistema. 

Em 2019, veio o cadastro positivo, um banco de dados que reúne informações de consumidores que possuem um histórico positivo de pagamento de suas dívidas. 

No ano seguinte, teve início a implementação do open finance, modelo de compartilhamento de dados de forma segura e padronizada em uma escala muito mais abrangente que o primeiro. Ainda em fase de implantação, o sistema completou recentemente dois anos de atuação e comemorou a marca de 23,4 milhões de consentimentos únicos conquistados através das instituições autorizadas. 

O número é considerado expressivo pelo tempo de implementação, mas a participação de mais clientes no open finance ainda se coloca como um dos principais desafios para a consolidação do ecossistema de dados. 

Com o potencial de trazer diversos benefícios aos consumidores – como maior transparência, competitividade e acesso a serviços financeiros mais personalizados – o que muitos usuários ainda não perceberam é que mais do que beneficiar as empresas, o open finance dá a ele o poder da tomada de decisão sobre quais empresas terão esse acesso e quando e como o farão.

Nesse contexto, alguns motivos ainda alimentam a resistência na adesão por parte do público. Continue lendo esse artigo para descobrir quais são os três principais “resistores” e como é possível mudar esse mindset, contribuindo para o crescimento ainda maior dessa importante fonte de dados zero – ou seja, dados que um cliente compartilha intencional e proativamente com uma empresa.

1. Falta de conhecimento

O open finance é um conceito relativamente novo e muitas pessoas ainda não estão familiarizadas com ele, o que pode gerar desconfiança e resistência em compartilhar informações financeiras com outras instituições. Para mudar essa consciência, é importante investir na educação, digital e financeira. “As pessoas têm que saber lidar com as novidades e por isso elas precisam ser educadas”, observa Edson Santos, observa Edson dos Santos, consultor da Colink e autor do livro “Payments 4.0”.

Para contextualizar, ele explica que embora o Pix, o open finance e o iniciador de pagamentos tenham nascido em momentos diferentes, eles fazem parte de um movimento de digitalização que busca trazer para dentro do setor os brasileiros que até então eram considerados desbancarizados. “Esse é o primeiro momento de aprendizado: pode ser que muitos brasileiros que já utilizaram o pix – seja para pagar ou para receber – ainda não tenham uma educação financeira adequada, mas foi a sua inclusão digital que permitiu a geração de dados até então desconhecidos, por essa movimentação estar restrita ao dinheiro em espécie. A partir desse momento, porém, os dados começam a ser usados em favor do comerciante no formato de uma oferta de crédito, um cartão de crédito ou uma outra solução útil”, observa.

Rumo à questão da importância da educação financeira e digital, ele afirma que, mais cedo ou mais tarde, o consumidor vai perceber que seus dados têm um valor. “Com a educação digital, primeiro eu descubro que meu dado tem valor e alguém pagaria por ele. Segundo, eu entendo que uma vez que o acesso a esse dado é concedido, alguém pode ofertar um produto melhor para mim. Com essa consciência, eu posso decidir se amanhã não darei mais esse dado e decidir, ao invés disso, eu quero vendê-lo, por exemplo. E mesmo que eu concorde em trocar esse dado por um serviço ou um aplicativo, estarei consciente de que estou trocando o meu dado por alguma coisa de valor para mim”, reforça.

Para ele, no entanto, o grande desafio das instituições financeiras está justamente em como estimular esse ensinamento. “Pode ser muito difícil ensinar alguma coisa digital para gerações como a minha, baby boomer. Mas, uma vez que a gente aprende a fazer, é muito mais rápido a adoção. Os reguladores querem que as instituições expliquem exaustivamente para os clientes até que compreendam o valor desse sistema, mas no momento em que eu experimentar pela primeira vez é quando provavelmente eu vou entender do que estão falando. Por isso, acredito que educar utilizando a ferramenta seja muito melhor do que trazer informação sem a aplicabilidade”.

2. Segurança dos dados

O compartilhamento de dados financeiros pode ser visto como invasão de privacidade por algumas pessoas, que temem o uso inadequado de suas informações. Além disso, embora as instituições financeiras sejam responsáveis por garantir a segurança dos dados dos consumidores, ainda existe uma preocupação sobre a possibilidade de invasão de sistemas e roubos de informações.

Para o consultor e autor do livro “Payments 4.0”, Edson Santos, uma vez que a educação digital estiver instituída, essa crença “cairá por água abaixo”. “O banco já tem uma boa parte das minhas informações e todas as outras informações são praticamente públicas – meu telefone, meu e-mail, meu CPF e meu endereço eu já dei faz tempo essas informações e não tinha nem noção disso. Então, quantas informações nós brasileiros já demos sem se preocupar com o risco ou qualquer tipo de risco?”, argumenta.

Nessa lógica, ele afirma que o open finance tem muito mais a agregar na prevenção às fraudes do que se imagina. “Você pode trabalhar com muito mais informações para se certificar de que uma conta é realmente da pessoa que está abrindo e não uma conta falsa”.

3. Preocupação com a privacidade

Segundo a pesquisa “Impressões Digitais e sua relação com as pessoas e as empresas” divulgada esta semana, é a falta de conhecimento sobre o valor de seus dados que mais põe em risco a privacidade do usuário, já que muitas pessoas acabam não se questionando e se aprofundando em informações como “para e como” esses dados serão usados antes de autorizaram de maneira automática o acesso. 

De acordo com a pesquisa realizada pela Kaspersky na América Latina, o brasileiro é quem menos entende que seus dados podem ser coletados ao utilizar um aplicativo – 40% dos entrevistados desconhece o fato de que o simples ato de instalar um aplicativo pode permitir que terceiros tenham acesso aos seus dados no celular, por exemplo. A pesquisa mostra que essas pessoas não compreendem o valor que seus dados pessoais – e isso acaba refletindo no baixo nível de proteção que eles recebem”, observa Roberto Rebouças, gerente-executivo da Kaspersky no Brasil.  

Ainda no que diz respeito à privacidade, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) tem um impacto significativo no open finance ao determinar as responsabilidades das empresas em cima dos dados pessoais coletados e conter os abusos. Apesar disso, ela não tem contribuído com o deveria na conscientização da população sobre o valor dos seus dados do ponto de vista educativo: “Infelizmente, vimos apenas uma corrida para conseguir as autorizações dos consumidores, que o fizeram de maneira automática”, avalia. 

Felizmente, a recém-instituída Política Nacional de Educação Digital (PNED) promete mudar esse cenário em breve ao propor não apenas facilitar o acesso à tecnologia, mas instituir uma cultura de uso, conscientizando a população sobre seus deveres e direitos no ambiente online, onde a questão dos dados ganha um especial destaque desde o ensino de base até os cursos profissionalizantes.

“No Brasil, não temos a cultura de ler os termos de uso, as políticas de privacidade, que são acordos que têm força jurídica”, observa a advogada Sandra Tomazi, sócia da Peck Advogados, que ministrou uma palestra sobre o tema no webinar Bancos e Educação, promovido pela Cantarino Brasileiro em fevereiro deste ano.

Dessa forma, acredita que, ao prover educação digital às crianças e adolescentes, a PNED garantirá a formação de uma geração muito mais questionadora. “Quando for usar um aplicativo na internet, por exemplo, ela vai entender quais são as regras do uso e vai ter consciência de que os termos e as políticas que estão aí são regras e que elas têm um peso jurídico que corresponde a um contrato. Vão poder questionar aonde que o mandado está sendo armazenado, para qual finalidade, quem está fazendo esse uso vai poder pleitear mais informações, avalia.

Além da falta de cuidado na hora de ceder os seus dados, ela observa que para muitos essa ainda é uma terra sem lei, embora essa não seja a realidade: “Tudo o que é feito nesse ambiente pode acarretar em um dano, seja na esfera penal ou na esfera civil. Isso pode reverter numa indenização e até numa eventual prisão e em uma investigação criminal”, reforça.

Essa realidade é comprovada, por exemplo, na recente publicação de uma norma de dosimetria pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), órgão responsável por assegurar a mais ampla e correta observância da LGPD no Brasil. A norma visa garantir que as empresas que descumprirem a LGPD finalmente sejam multadas e sofram as penalidades administrativas previstas, já que desde que entrou em vigor, em 2020, até fevereiro de 2023, ainda não se tinha aplicado nenhuma multa por descumprimento da legislação.

Essa nova norma pode fazer com que a LGPD realmente ganhe força. Temos uma excelente lei de proteção de dados, o que está faltando é que ela entre efetivamente em vigor. Agindo dentro das suas obrigações legais, que é o combate ao vazamento de dados. Isso com certeza traria como resultado a redução dos golpes e fraudes, que são alimentados com vazamento de dados, observa o advogado Afonso Morais, especialista em recuperação de crédito, direito digital e fraudes.


Hiper personalização de dados

 

A busca pela customer centricity (centralidade no cliente) e a forma de se relacionar com o consumidor colocou o sistema financeiro na era da hiper personalização de dados, na qual as empresas devem utilizar os dados em tempo real para entender e conhecer o perfil de cada cliente e permitir que ele resolva as suas necessidades de forma mais rápida, eficiente e pelo seu canal de preferência.

Nesse contexto, os dados que um cliente compartilha intencional e proativamente com uma empresa são alguns dos mais ricos disponíveis e, como apresentamos nesta matéria, têm sido cultivados  no Brasil através do open finance, do cadastro positivo e da educação digital, por exemplo. O grande desafio ainda está em descobrir como trabalhar os dados de forma inteligente, responsável e que entregue valor ao cliente final e para isso bancos, seguradoras e varejistas precisam da tecnologia da inteligência artificial operando informações e auxiliando na tomada de decisão. 

Se você quer entender como a tendência da hiper personalização de dados pode ser o gatilho para a nova disrupção dos bancos digitais, siga a trilha Bancos Digitais – Disrupção: a estratégia para a sobrevivência, da Cantarino Brasileiro.

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