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Com apoio do governo, bancarização na Índia salta de 35 para 80% em seis anos

O sistema bancário na Índia traz lições de uma trajetória de inclusão. Com várias iniciativas do governo indiano, o índice de bancarização cresceu de 35%, em 2011, para 80%, em 2017. Os dados são da última edição, de 2017, do relatório Global Findex (GFX) do Banco Mundial, que captura os dados globais de inclusão financeira de diferentes países, a cada três anos.

Muitas empresas têm crescido e ampliado seus mercados nesta onda, além de contribuir com inovações que se expandem por todo o globo. Uma delas é a Comviva, subsidiária da Tech Mahindra cujo foco é melhorar a experiência do cliente por meio de suas aplicações e serviços de mobilidade e de hiperpersonalização. 

A Cantarino Brasileiro entrevistou Kamaljeet Rastogi, líder global de desenvolvimento de negócios para soluções no mercado financeiro da Comviva. O executivo detalhou as principais iniciativas do governo indiano que permitiram este desenvolvimento. 

Como você compararia os cenários indiano, chinês e americano no que diz a respeito à evolução da indústria bancária e a inclusão no sistema?

A última edição, de 2017, do relatório Global Findex (GFX) do Banco Mundial, que captura os dados globais de inclusão financeira de diferentes países, a cada três anos, mostrou que na Índia e na China, 80% dos adultos têm conta em uma instituição financeira. Nos Estados Unidos são 93%.

A porcentagem de população adulta da Índia, incluída financeiramente, cresceu de 35% em 2011, para 53% em 2014 e chegou a 80% em 2017. Isso reflete uma melhoria significativa e crescimento da inclusão financeira no País. Vários fatores como políticas governamentais, fortalecimento da infraestrutura financeira, crescimento de fintechs, entre outros, contribuíram para esse resultado. A taxa de crescimento é muito menor na China e nos EUA (a inclusão financeira adulta na China era 64% e nos EUA era 88%, segundo o mesmo relatório).

As fintechs na China operam em uma escala muito à frente de todas as fintechs no mundo combinadas. As principais fintechs da China, Alipay, de propriedade do braço financeiro do gigante do comércio eletrônico Alibaba Group Ant Financial e WeChat Pay, processam mais transações em um mês que empresas como o Paypal em um ano inteiro (em 2017, a China gerenciou US$ 29 trilhões de transações digitais e o Paypal, US$ 451 bilhões). Os pagamentos digitais na China são dominados principalmente pelos pagamentos móveis baseados em QR Code. Durante muito tempo, a China lutou contra o dinheiro falso, um problema que os pagamentos móveis resolveram eficazmente.

A bancarização na Índia nos últimos dez anos foi muito elevada. Quais são os principais fatores para esta inclusão em massa?

Um dos principais  fatores que contribuiu para a inclusão financeira em massa na Índia nos últimos dez anos tem sido a tríade JAM (J para Jan Dhan – acesso universal à facilidade bancária com uma conta bancária básica para cada família; A para Aadhaar – número de identidade único de 12 dígitos para todos os indianos, conectado aos seus dados biométricos e demográficos e M para telefones celulares  – acesso mobile para todos). 

O acesso Jan Dhan, lançado em 2014, provou ser uma das maiores iniciativas de inclusão financeira do mundo, criando mais de 370 milhões de contas bancárias. Outro ponto interessante é que 53% dos titulares de contas Jan Dhan são mulheres e 58% vivem em áreas rurais ou semiurbanas.

O Jan Dhan permitiu ao governo reduzir a corrupção e as perdas resultantes das transferências de subsídios e benefícios às pessoas. A Transferência de Benefícios Diretos (DBT) e a Aadhaar se tornaram ferramentas eficazes para obtenção destes resultados. O DBT permitiu que o governo transferisse diretamente os subsídios e os benefícios de vários sistemas de bem-estar social diretamente para contas bancárias de beneficiários, eliminando intermediários e evitando vazamentos. 

Aadhaar ID, o maior sistema de identificação biométrica do mundo, com mais de 1,2 bilhão de titulares, estava ligado às contas bancárias dos beneficiários que ajudaram a identificar individual e exclusivamente, cada pessoa. Com isso foram removidas as duplicações de beneficiários e foi garantido que o dinheiro chegasse à pessoa certa. 

Atualmente, o DBT suporta 437 sistemas de 56 ministérios e já processou mais de US$ 119,68 bilhões (8,53 trilhões INR – Indian Rupies) desde o seu início. O DBT e outras reformas governamentais trouxeram economia estimada em cerca de US$ 19,78 bilhões (INR 1,41 trilhão) e reduziram consideravelmente a corrupção.

Com o dinheiro em suas contas bancárias, as pessoas também precisavam de pontos para sacá-lo. A Índia ainda é uma economia baseada principalmente em dinheiro em espécie. A resposta veio na forma de Micro ATMs criados pela National Payments Corporation of India (NPCI) em 2015, expandindo o alcance da última milha do sistema, especialmente em áreas rurais. Micro ATMs são Ponto de Venda (POS) que permitem aos clientes realizar transações financeiras, como depósito em dinheiro e retirada de dinheiro de sua conta bancária vinculada a Aadhaar, usando sua impressão digital. Desde seu lançamento, mais de 577 milhões de transações financeiras, avaliadas em US$ 21,29 bilhões (INR 1,51 trilhão), foram processadas por micro ATMs. Além disso, com a penetração móvel atingindo 80%, os telefones celulares também cresceram como um canal importante para acessar contas bancárias, fazer transações e compartilhar informações.  

Jan Dhan, Aadhaar, Telefones Celulares e DBT tornaram a implementação de sistemas governamentais mais fáceis.

A infraestrutura na Índia digital (telecomunicações, internet e acesso móvel, educação financeira) é um fator de inclusão?

A infraestrutura na Índia evolui de maneira consistente e justa, e tem desempenhado um papel importante ne evolução da inclusão digital no País. Graças aos gigantes das telecomunicações e aos desenvolvimentos que fizeram, os internautas na Índia passaram de meio bilhão de habitantes. Além disso, a penetração do smartphone cresce rapidamente.

As iniciativas lideradas pela National Payments Corporation of India (NPCI), no formato de Serviço de Pagamento Imediato (IMPS) e interface de pagamentos unificados (UPI) também contribuíram significativamente para impulsionar a inclusão digital no País. O IMPS oferece transferência eletrônica interbancária 24×7 em tempo real. O Unified Payments Interface (UPI) é um sistema que alimenta várias contas bancárias em um único aplicativo móvel (de qualquer banco participante), mesclando vários recursos bancários, roteamento de fundos sem interrupções e pagamentos de contas em um só lugar. A UPI permite que os usuários criem um endereço virtual exclusivo (como abc@xyzbank) e o usem para transferir dinheiro e fazer pagamentos instantaneamente de dispositivos eletrônicos como o telefone celular. IMPS e UPI têm 498 e 141 bancos participantes, respectivamente. No último ano (setembro de 2018 a agosto de 2019) a IMPS e a UPI processaram coletivamente 10,26 bilhões de transações, com valores de cerca de US$ 465,66 bilhões (INR 33,31 trilhões). O sistema UPI atingiu de 1 bilhão de transações em outubro 2019. 

UPI, juntamente com outros componentes da India Stack, incluindo Aadhaar, eKYC (digital Know Your Client), Digilocker (recuperar, armazenar e compartilhar documentos digitais verificados) e o eSign (documento de assinatura eletrônica que usa Aadhaar) estão acelerando, em conjunto, a iniciativa \’Digital India\’.   

Quais semelhanças você destacaria entre os mercados financeiros indiano e brasileiro e seus consumidores?

O último relatório GFX (Global Findex) do Banco Mundial informa que 70% dos adultos no Brasil têm contas bancárias e na Índia este número é de 80%. O percentual dos “financeiramente incluídos” é próximo nos dois países. Além disso, os pagamentos digitais e sua adoção pelas pessoas comuns estão crescendo a um ritmo acelerado em ambos os países. Tanto na Índia quanto no Brasil, a penetração de smartphones e internet está aumentando rapidamente, acelerando o crescimento dos pagamentos digitais.

Outra semelhança é que ambos os governos desempenham um papel ativo na condução de pagamentos digitais e inclusão financeira. A trindade JAM, O Serviço de Pagamento Imediato (IMPS), a Interface de Pagamentos Unificados (UPI) e a India Stack são algumas das iniciativas do governo indiano que contribuíram significativamente para impulsionar os pagamentos digitais no País. Da mesma forma no Brasil, o governo aprovou a Resolução 4480 em 2016, o que facilita a abertura de contas bancárias online ou em aplicativos móveis sem visitar a agência e tantas outras resoluções que se sucedem com este objetivo como o Open Banking.

O mercado consumidor da Comviva é o mesmo nos dois países. Temos soluções de carteira móvel e de pagamento para consumidores digitais, além de várias aplicações que impulsionam os bancos e suas características digitais.

Quais são a evolução e os próximos passos do mercado indiano em meios de pagamento, em relação a tecnologias, acesso, mercado e consumidores?

Embora os pagamentos digitais na Índia estejam evoluindo a um ritmo rápido, ainda há um longo caminho a percorrer. Os pagamentos digitais hoje são apenas 12% do volume total de transações e o restante são ainda pagamentos em dinheiro. A penetração da internet, de 38%, também pode ser melhorada pelo governo e empresas de telecomunicações.

Em termos de instrumentos de pagamento digital, os cartões são mais prevalentes, no entanto UPI e transações de carteira digital estão aumentando. O aumento do uso do UPI é uma grande evidência do crescimento dos pagamentos digitais. Recentemente, o governo introduziu a regra Zero MDR (zerar a MDR – (Merchant Discount Rate), que é a taxa cobrada pelas adquirentes sobre cada transação de cartão de crédito ou débito) para UPI e RuPay (esquema de cartões, concebido e lançado pela Corporação Nacional de Pagamentos da Índia em 26 de março de 2012. Criado para atender à visão do Reserve Bank of India de ter um sistema de pagamentos doméstico, aberto e multilateral) para os comerciantes, assim, levando-os a adotar os métodos digitais de pagamento. Também existem várias fintechs que trabalham para preencher as lacunas e atender às necessidades dos comerciantes para facilitar ainda mais a aceitação do pagamento.

Como é o crescimento das fintechs e de empresas estrangeiras no mercado indiano?

A Índia está em segundo lugar, depois dos EUA, em número de fintechs. Durante 2015-18, o número de fintechs triplicou no País. Mais de 1,3 mil novas startups foram abertas neste período, somando-se às mais de 730 já existentes.

Há um grande potencial de crescimento para pagamentos digitais na Índia, uma vez que eles atingem apenas cerca de 12% do volume total de transações e 88% das transações restantes são feitas em dinheiro. Além de um enorme suporte governamental para uso de pagamentos digitais. 

Junto com isso, o financiamento para as fintechs está aumentando, o que é um sinal positivo para seu o crescimento. O financiamento destas empresas atingiu 21,47% das rodadas totais de financiamento de startups da Índia no início de 2018, tornando-se a indústria mais provável de receber qualquer tipo de financiamento no País. O mercado arrecadou mais de US$ 251 milhões de financiamento durante o primeiro trimestre de 2018.

Qual é o papel do governo indiano neste desenvolvimento?

O governo indiano facilita a mudança para serviços de financiamento digital introduzindo diretrizes e políticas para apoiar as fintechs. O RBI (Reserve Bank of India – Banco Central da Índia) flexibilizou a regra da KYC (Know Your Client – conheça o seu cliente) em 2014 para os clientes que realizam transações de Rs 20 mil mensais em plataformas digitais. Com esta lei, os clientes podem baixar carteiras eletrônicas e usar seus serviços para pagamentos de contas e outros, sem a necessidade de produzir documentos oficiais. Isso facilitou o desenvolvimento de muitas fintechs, carteiras digitais e incluiu muitos consumidores no mundo dos pagamentos digitais.

Além disso, a National Payments Corporation of India (NPCI) criou uma infraestrutura robusta para impulsionar pagamentos digitais no país, como o Serviço de Pagamento Imediato (IMPS) e a Interface de Pagamentos Unificados (UPI). Isso facilitou a ascensão de muitas fintechs no espaço UPI tais como Google Pay, PhonePe, Amazon P e outras. Agora, o Whatsapp planeja lançar o Whatsapp Pay para pagamentos P2P instantâneos para impulsionar a grande base de clientes que adquiriu ao longo do tempo.

Qual é a estratégia da Comviva para o crescer no mercado brasileiro?

O objetivo da Comviva é atender às necessidades de financiamento bancário digital e de pagamentos em evolução dos consumidores no Brasil. A solução Comviva DBXP está focada em capacitar os bancos a oferecer experiência digital omnicanal perfeita e consistente que vai desde carteiras móveis até assistentes de voz, além de fornecer uma experiência segura e personalizada aos seus clientes, rapidamente e a baixo custo.

Com o payPLUS, a Comviva simplifica a vida dos comerciantes, fornecendo interface unificada para aceitar vários instrumentos de pagamentos digitais, como cartões, carteiras digitais, pagamentos com QR Code, pagamentos biométricos etc. Os benefícios do comerciante, por meio de uma única senha, é a visão do painel de vendas, liquidação e reconciliação em todos os canais digitais. Além disso, o módulo Smart Payment Gateway aprimora a experiência de checkout e otimiza os custos relacionados ao processamento de varejistas online, faturadores e outros provedores de serviços. A Comviva planeja levar os pagamentos digitais no Brasil para o próximo nível.

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