BC mantém a taxa Selic em 13,75%; autoridades condenam decisão

|Por Ana Carolina Lahr|

Essa semana, o Banco Central anunciou que manterá a taxa Selic em 13,75%, apesar da queda da inflação e das pressões de parte do governo. A decisão foi tomada por unanimidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom). A decisão era esperada pelos analistas financeiros, que apostam em queda apenas a partir de agosto, mas gerou descontentamento de algumas entidades, que aguardavam um posicionamento diferente e a série de benefícios que a redução representa para a dinâmica inflacionária, como: a redução da pressão nas medidas subjacentes, a deflação nos preços de atacado, a forte queda na inflação implícita nas negociações dos títulos públicos, a redução dos preços das commodities internacionais em reais, a desaceleração na concessão doméstica de crédito e a subestimação do indicador da taxa de desemprego por causa da redução da taxa de participação indicando uma pressão maior no mercado de trabalho. 

Em nota, o Banco Central mostrou que os modelos apontam queda relevante da inflação projetada para 2023, caindo para 5.0% de 5.8%. Para 2024, deve passar de 3.6% para 3.4%. No entanto, em comunicado oficial manteve o tom de cautela e indicou que ainda existem riscos sobre a inflação, como eventuais pressões globais sobre os preços e incertezas “residuais” sobre a votação do arcabouço fiscal.  “O comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária e relembra que os passos futuros da política monetária dependerão da evolução da dinâmica inflacionária, em especial dos componentes mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica, das expectativas de inflação, em particular as de maior prazo, de suas projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos”, ressaltou a nota.

A taxa continua no maior nível desde janeiro de 2017, quando também estava em 13,75% ao ano. Essa foi a sétima vez seguida em que o BC não mexe na taxa, que permanece nesse nível desde agosto do ano passado. Anteriormente, o Copom tinha elevado a Selic por 12 vezes consecutivas, num ciclo que começou em meio à alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis.

Opiniões

Na quinta-feira (22), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, criticou a decisão do Copom e considerou “muito ruim” o tom do comunicado emitido, considerando que ele poderia informar ou ao menos indicar quando começará a reduzir os juros. Para o ministro, existe um descompasso entre a avaliação do Banco Central e os dados econômicos que apontam forte desaceleração da inflação, o que preocupa o Ministério da Fazenda.

Everton Gonçalves, superintendente da Assessoria Econômica da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), acredita que o Copom deve sinalizar o início do ciclo de cortes a partir da reunião de agosto, mas reforça que é importante que o comitê traga a sua interpretação acerca da evolução das expectativas e o seu papel no ritmo da desinflação e um maior detalhamento possível das premissas adotadas no cálculo das projeções dos cenários adotados poderia reduzir as assimetrias entre as expectativas de mercado e os números apurados pelo Copom. “Quanto maior transparência nas variáveis adotadas e aspectos considerados, maior será a previsibilidade na evolução da política monetária, mitigando a volatilidade na estrutura a termo da taxa de juros, o que, pelo nosso entendimento, seria positivo na suavização das flutuações do nível de atividade econômica.”

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, também se manifestou contra a decisão, durante a posse do novo presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), Celso Pansera, em Brasília. E afirmou não ver motivo para a manutenção da taxa de juros, já que ela tem impacto no fomento e na indução ao desenvolvimento do país. Ela destacou que o Brasil tem registrado “crescimento, superávit comercial, queda da inflação, que passou de 12,5% para 4,5%, e indicadores macroeconômicos que não justificam a taxa de juros”. 

A Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) lamentou a decisão do BC e salientou a importância da redução na taxa Selic para impulsionar o desenvolvimento econômico do país. “É preocupante constatar que o Brasil detém as maiores taxas de juros reais do mundo (quando descontada a inflação), com uma taxa de 9,4% ao ano, muito acima do segundo colocado, o México, que possui 6,6%”, destacou, em nota oficial. 

Para a associação, os números representam um obstáculo significativo para investimentos e têm um impacto prejudicial na geração de empregos, especialmente para a população de baixa renda. “A taxa de 13,75% inviabiliza a aquisição de imóveis para milhares de famílias, uma vez que os altos juros resultam em um aumento exorbitante de 23% nas parcelas do financiamento”, reforçou, lembrando que a taxa contribui para o aumento da inadimplência das empresas, sendo alarmante o fato de que aproximadamente 6,5 milhões delas estão negativadas, conforme dados do Serasa. 

O presidente do Sebrae, Décio Lima, também se manifestou contra a decisão. \”Falta sensibilidade com os pequenos empresários e empreendedores do país. Tem dinheiro para emprestar no mercado, mas os pequenos se forem pegar emprestado com essa taxa que está aí, já era, vão falir, será uma questão de tempo. Assim acho que o BC está jogando contra a retomada do crescimento do país, só pode ser”, falou durante Reunião Ordinária do Conselho Deliberativo Nacional do Sebrae essa semana. Pesquisas realizadas pelo Sebrae mostram que a alta taxa de juros praticada no Brasil tem feito com que os donos de pequenos negócios pensem mais na hora de buscar crédito. Nos meses de abril e maio deste ano, 73% dos empreendedores não buscaram empréstimos.

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