além do arco-íris

Bancos digitais buscam amadurecimento na estratégia e focam lucratividade

| Por Ana Carolina Lahr |

Em março de 2023, o mundo assistiu à queda de dois grandes bancos, o Crédit Suisse e oSilicon Valley Bank (SVB). Os acontecimentos geraram insegurança no setor financeiro, que passou a questionar se estaria exposto a uma crise com efeito dominó. Fortaleceu-se também a dúvida sobre o futuro das fintechs que antes mesmo desses acontecimentos viviam uma escassez de investimentos e a necessidade de um novo posicionamento no mercado para gerar lucratividade.

Nesse cenário, o Fintech Report 2023, da Distrito, destaca que, para garantir sustentabilidade a longo prazo, é preciso que as instituições financeiras estejam atentas aos riscos envolvidos em suas operações e foquem em uma boa gestão. O documento aponta o mercado B2C como uma alternativa promissora para empresas que buscam um modelo mais previsível e eficiente em suas operações financeiras. 

Sob tal perspectiva se encaixa a forte tendência do embedded finance, em que as instituições bancárias que estiverem dispostas a entrar na disputa podem oferecer estrutura para empresas de outros segmentos criarem seus próprios bancos digitais. Porém, no caso específico dos bancos nativos digitais – ou neobanks –, a principal atuação ainda se dá no cenário B2C e, nesse caminho, outras alternativas são trilhadas na busca pela saúde financeira. 

Abertura do leque

Bruno Diniz, consultor da Spiralem Consulting Innovation e autor do livro A nova lógica financeira, destaca que a ampliação de portfólio é o caminho que garantirá aos bancos digitais o desejado lucro. 

De fato, a estratégia tem contribuído com o crescimento do Nubank, que encerrou a operação brasileira no mês de março com crescimento de 31,5% em 12 meses, chegando a mais de 75,2 milhões de clientes no país, incluindo o segmento de Pequenas e Médias Empresas. Somente em 2022, o banco digital adicionou mais de 25 produtos e recursos às ofertas já disponíveis. Como consequência, o cross selling ganhou força. 

Este crescimento é naturalmente revertido em aumento de receita por cliente, estruturado em três pilares para o desenvolvimento de nossos produtos: gestão financeira, objetivos transacionais e investimentos”, considera David Vélez, CEO e fundador do banco digital. 

“Atingimos a marca de 80 milhões de usuários na América Latina e isso revela a eficiência operacional e a capacidade do Nubank em equilibrar a expansão global e diversificação de portfólio para termos cada vez mais clientes engajados.

Embora identifique um esforço das instituições em ampliar o leque de produtos, Diniz avalia esse movimento como recente e aponta que a próxima fronteira a ser superada esteja no entendimento mais amplo do cenário vivido pelos clientes, o que proporcionará que suas dores sejam sanadas com a oferta de produtos e serviços que vão além dos financeiros, atuação baseada em um conceito conhecido como beyond banking

O modelo não é exatamente novidade e já vem sendo adotado há alguns anos pelos bancos digitais mais vanguardistas. A novidade é que ele será fortalecido pelos dados hiperpersonalizados que, segundo o consultor, promoverão o amadurecimento da tendência.

A expectativa é que o uso inteligente de dados também amadureça o que ele chama de contextual banking, ou seja, a inserção dos serviços financeiros de forma orgânica e natural no dia a dia do cliente. O open finance ajudará nesse processo, mas ele é só uma parte. Existem outras camadas que serão utilizadas”, considera.

Crédito 

Segundo especialistas da McKinsey, o crédito também é uma das fatias do mercado que tem potencial para ser explorada com mais afinco pelos bancos digitais na busca pela lucratividade, já que representa 65% da receita dos grandes bancos, enquanto nos digitais a parcela é de 45%. 

A julgar pelos números, a tendência também já é realidade entre os principais bancos digitais do país. No Inter, a carteira de crédito registrou em 2022 um crescimento de 40% – avanço muito acima da média do mercado, considerando o cenário macroeconômico adverso vivido – e atualmente 50% das receitas da companhia vêm dos juros cobrados sobre esses produtos.

O crédito também ganha força no Nubank, com o lançamento do crédito consignado e colateralizado. A instituição é hoje considerada a terceira maior do país em número de clientes com empréstimos acima de 200 reais e a primeira entre as fintechs, com adesão de 53% da base. 

Para Diniz, o caminho merece uma atenção redobrada por parte dos bancos nativos digitais.


Os banqueiros brasileiros têm uma resiliência muito grande. Eles deram crédito durante vários anos, sobreviveram e rentabilizaram sua operação mesmo ante as crises. Esse ciclo pode levar a uma inadimplência alta nas fintechs, por mais que empreguem modelos mais modernos de modelagem. É um grande teste de fogo”, avalia Bruno Diniz


Confira no Youtube a entrevista com Bruno Diniz na íntegra.

Ciente dos riscos, a CFO do Inter, Helena Caldeira, destaca que a estratégia do banco digital para usufruir dos benefícios é investir em uma carteira bem diversificada e altamente colateralizada. “Ou seja, temos linhas de empréstimos que exigem garantia. Isso nos permite passar por momentos macroeconômicos com menos turbulência que as empresas que focam em um único produto, por exemplo”, explica. “Para 2023, uma coisa muito importante que já está em curso e que vai continuar é a reprecificação das nossas carteiras, especialmente as de longa duração”.

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Helena Caldeira, CFO do Inter

De olho nos investidores

Ampliar a carteira de produtos voltados para os investimentos tem sido outra estratégia adotada pelos bancos digitais. A decisão está ancorada na realidade de que cada vez mais brasileiros estão investindo em produtos financeiros: a 6ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa elaborada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha, mostra que o percentual de investidores no país passou de 31% em 2021, para 36% em 2022, totalizando aproximadamente 60 milhões de pessoas. 

No PagBank, essa é tida como uma oportunidade para a captação de novos clientes desde 2021, quando a instituição firmou parceria com o Itaú Assets Management e criou um fundo de investimento multimercado disponível exclusivamente para seus clientes ativos. Com a estratégia em processo evolutivo, em março deste ano o banco digital recebeu a autorização do Banco Central para atuar com sua corretora de valores, a PagInvest. 

O segmento também passou a ser mais explorado pelo PicPay, que no início do ano absorveu a Liga Invest, plataforma de investimentos construída pelo grupo J&F, que é também sua detentora. Antes disso, avançando na estratégia de se tornar um super app, com serviços financeiros e não financeiros, o banco digital já tinha se aventurado na oferta de moedas digitais para o público investidor. 

Já o Nubank, viu seu número de clientes investidores no Brasil aumentar 130% no comparativo entre o primeiro trimestre de 2023 e o primeiro trimestre de 2022, totalizando 9,2 milhões de usuários ativos em investimentos.

O aumento do número de investidores no país também tem estimulado a adoção de novas tecnologias, como blockchain, criptomoedas, web3 e DeFi e gerado oportunidades para os bancos digitais que desejam ampliar o portfólio de maneira disruptiva. Para atender às novas demandas dos clientes, o resultado foi a disponibilização de moedas digitais ou produtos de investimentos associados, por exemplo.

Pioneiro nesse movimento foi o Mercado Pago, que em dezembro de 2021 lançou o serviço de oferta de compra, venda e reserva de criptomoedas e hoje soma mais de 2 milhões de usuários. “Desde então, temos observado uma democratização real, com usuários passando a experimentar as criptomoedas pela primeira vez, e podendo fazer aportes a partir de 1 real. Para apoiar diferentes perfis de usuários, temos nos dedicado ao conteúdo educacional que fornecemos junto com o serviço com base em uma experiência simples e segura”, reforçou, por meio da assessoria de imprensa.

“Os neobanks vão caminhar nessa direção e os bancos tradicionais também. Em termos de qualificação, quando o real digital entrar em ação, a tecnologia estará disponível para ambos os lados, igualmente. Vai ter a vantagem competitiva quem antes adotá-la e oferecer a melhor experiência ao cliente”, avalia Diniz.

Fusões, aquisições e a cultura da inovação

O movimento de expansão do portfólio dos bancos nativos digitais a fim de manter o cliente no seu ecossistema por mais tempo deve acontecer por meio da aliança com parceiros estratégicos, alerta Diniz. 

A observação está ancorada na escassez de investimentos vivida pelas startups, que culmina, desde 2021, no aumento das fusões e aquisições (M&A) entre corporações e até mesmo em outras fintechs, tendo estas passado do volume de 22 milhões em 2020 para 49 milhões de reais em 2021, e 44 milhões de reais em 2022, conforme mostra o Fintech Report 2023. “Com os valuations descontados, diversas startups com capital em caixa vão a mercado para adquirir concorrentes e/ou expandir para novas frentes, e não apenas as corporações”, relaciona o documento.

Em caráter complementar, a Innovation Survey 2023, publicada pela ACE Cortex, revelou que em 2022 mais da metade das empresas ouvidas (57,89%) realizaram ao menos uma aquisição; 31,58% realizaram de duas a cinco operações de M&A, e 2,63% fizeram mais de dez aquisições. “Esse indicativo mostra como o corporate venture capital e o M&A têm se consolidado no mercado nacional e se tornarão, em breve, o carro-chefe da inovação nas grandes empresas”, diz Luís Gustavo Lima, sócio e CEO da empresa. 

No topo dos motivos para tais aquisições esteve o objetivo de “trazer novas linhas de receitas” (44,7%), seguido por “aumento no portfólio” (42,1%).

Jack Cavalcante, cofundador da Nós Innovators, empresa focada na criação de hubs de inovação, considera que o momento é de oportunidades para as instituições que dispõem de verba para fazer aquisições e completar seu portfólio. No entanto, ele afirma que é preciso sabedoria: “Incorporar muita coisa ao mesmo tempo é um desafio cultural, tecnológico e mercadológico, para não confundir o cliente”.

Open innovation

A adoção da inovação aberta não apenas contribui com o racionamento de investimentos, como confere agilidade à detentora, fator que pode ser diferencial competitivo entre os novos entrantes e os incumbentes na hora de adotar novas tecnologias. “A gente sabe que as grandes instituições têm um legado que dá peso inclusive na tomada de decisão”, analisa Diniz. Além disso, ele destaca que a estrutura verticalizada dos grandes bancos também pode ser fator decisivo na hora de optar por se unir ou não a uma fintech. “São várias estratégias. Com o tempo, a gente vai descobrir quais delas funcionam mais”, pondera. 

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Jack Cavalcante , cofundador Nós Innovators

Já para Cavalcante, “no cenário competitivo dos mercados maduros da atualidade, a inovação aberta aparece como uma ferramenta para conquistar a preferência do cliente”.

Ele explica que o open innovation – terminologia em inglês para a inovação aberta – é uma ferramenta tanto para quem lidera quanto para quem deseja ocupar o lugar de liderança. “Quem não está na liderança pode copiar aqueles em destaque e, para isso, vai procurar uma startup para acelerar o time to market. Por outro lado, quem já está na liderança precisa tatear para descobrir novos atributos necessários ao cliente e criar caminhos disruptivos, algo muito difícil dentro de uma organização que tem de tocar o dia a dia, enfrentar os desafios e as crises. Por isso, investir nas startups pode ser a melhor opção. Na prática, torna-se disruptivo quem chega primeiro”, avalia.Durante evento promovido pela Cantarino Brasileiro no mês de março, Raul Moreira, consultor do Original/ Picpay, refletiu sobre o assunto e reforçou que, para ser eficiente, o conceito da inovação precisa ser transversal e permear todos os departamentos da empresa, assumindo um aspecto cultural. “A estratégia é colocar o cliente no centro e conectar a inovação e a tecnologia na organização como um todo. Foram as experiências que adotamos nas empresas do grupo, tanto no Original quanto na PicPay, e isso nos permitiu romper algumas barreiras e fazer algo diferente, proporcionar uma melhor experiência para o consumidor final. Essas variáveis é que compõem, na minha opinião, o modelo adequado em termos de inovação”, considerou.

No mesmo encontro, Rodrigo Soeiro, CEO da exchange de criptomoedas Monnos, afirmou que aquisição de fintechs por parte das instituições tradicionais tem mais do que agilidade a acrescentar ao mercado. “Quando você tem uma pessoa que já possui uma carga de experiência gigantesca no mercado tradicional absorvendo toda essa novidade, essa pessoa se torna um grande vetor de inovação porque é capaz de identificar aplicações que quem está inovando não viu. Afinal, ela tem um olhar muito claro dos problemas do dia a dia, o que garante uma probabilidade de acerto muito maior que aquela vinda de pessoas com o papel das fintechs de gerar disrupção por si só”, avaliou.

Essa matéria é um recorte do material original Além do arco-íris, publicado na revista digital e-CANTA Bancos Digitais. BAIXE AQUI o conteúdo na íntegra!

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