Plano da bolsa brasileira prevê integrar papéis digitais em blockchain ao livro tradicional e usar a moeda digital B3RL
A B3 confirmou que pretende disponibilizar ações e outros valores mobiliários tokenizados a partir de 2027. A iniciativa foi detalhada por executivos da bolsa durante a Febraban Tech 2026 e prevê a criação de representações digitais registradas em blockchain para papéis negociados no mercado brasileiro. A proposta abrange a integração direta da nova tecnologia com as estruturas já existentes de negociação, custódia e liquidação.
O objetivo da instituição não é isolar os ativos digitais em um ambiente independente, mas sim conectar os tokens aos papéis originais mantidos na depositária central. Essa arquitetura permitirá que uma ordem envolvendo um token acesse o mesmo livro de ofertas e a mesma liquidez da ação correspondente negociada no mercado tradicional, assegurando a conversibilidade direta entre as duas representações e reduzindo o risco de discrepâncias nos preços.
Liquidação atômica e uso da stablecoin B3RL
A viabilização das operações digitais apoia-se no desenvolvimento da B3RL, uma stablecoin pareada ao real e lastreada por títulos do Tesouro Nacional. Projetada estritamente como um instrumento de liquidação financeira e não para fins de especulação, a moeda digital permitirá que a transferência do ativo e o respectivo pagamento ocorram de forma simultânea.
A chamada liquidação atômica viabiliza a execução automatizada via contratos inteligentes e elimina etapas operacionais, além de abrir caminho para transações contínuas. A B3 estuda a possibilidade de permitir movimentações de recursos em regimes estendidos ou 24 horas por dia, sete dias por semana — mecanismo voltado para facilitar o acesso de investidores internacionais em diferentes fusos horários.
Cronograma de testes e ambiente regulatório da CVM
O cronograma do projeto estabelece que o desenvolvimento e os testes da infraestrutura tecnológica da B3RL e da rede blockchain tenham início e andamento ao longo de 2026, abrindo caminho para o lançamento comercial de títulos e ações tokenizadas em 2027. As definições sobre tarifas, interoperabilidade de carteiras e a listagem inicial de empresas participantes serão detalhadas nas fases seguintes.
Como a tokenização não altera a natureza jurídica dos valores mobiliários, os ativos permanecerão sob a supervisão direta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O órgão regulador instituiu o Grupo de Trabalho de Tokenização para elaborar propostas de regime regulatório experimental, enquanto avança na revisão das Resoluções CVM 135 e 31 (por meio do Projeto 135 Light). A atualização normativa pretende autorizar que depositários centrais operem redes de registro distribuído (DLT) permissionadas, garantindo respaldo jurídico e segurança para a nova infraestrutura do mercado de capitais.