Modelo de proteção do fundo garantidor gera tensão entre instituições tradicionais e corretoras de investimentos
A recente onda de liquidações extrajudiciais no sistema financeiro, com destaque para o caso da Will Financeira, reacendeu uma disputa histórica entre os grandes bancos e as plataformas de investimentos sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). No centro do embate está o uso da garantia de R$ 250 mil como ferramenta de marketing: enquanto corretoras atraem clientes oferecendo rentabilidades elevadas em títulos de instituições menores sob o argumento de “risco zero”, os grandes bancos, que arcam com a maior parte das contribuições ao fundo, questionam se estão subsidiando a captação de seus concorrentes mais agressivos.
O dilema do risco moral
O conflito ganhou novos contornos após o Banco Central intervir em instituições ligadas ao grupo Master, elevando o custo de observância para todo o setor. Para os bancos tradicionais, o atual modelo do FGC gera um “risco moral”, onde bancos menores podem oferecer taxas insustentáveis para atrair capital, sabendo que, em caso de quebra, o fundo honrará os compromissos.
As plataformas de investimento, por outro lado, defendem que a existência do FGC é fundamental para a democratização do acesso ao mercado de capitais e para a desconcentração bancária. Segundo executivos do setor de corretagem, o fundo protege o investidor de varejo e permite que instituições de nicho consigam competir por liquidez em um mercado ainda dominado por poucos players.
Pressão por mudanças regulatórias
A pressão por uma revisão nas regras do FGC já chegou aos ouvidos do regulador. Entre as propostas discutidas nos bastidores estão a alteração nas taxas de contribuição — que passariam a ser proporcionais ao risco de cada instituição — e a revisão dos limites de cobertura para investidores que possuem grandes volumes alocados em múltiplos CPFs através de diferentes corretoras.
Atualmente, o fundo cobre depósitos à vista, poupança, CDBs, LCIs e LCAs, mas o mercado teme que o uso indiscriminado dessa proteção para lastrear produtos de alto risco acabe por exaurir as reservas do fundo em um cenário de crise sistêmica. O debate deve avançar ao longo de 2026, com o Banco Central monitorando de perto a solvência das fintechs e o equilíbrio das contribuições para garantir que a rede de proteção continue sólida sem desequilibrar a concorrência.