Por que a revolução das fintechs é para valer? Três tendências para ficar de olho


Por Mark Goldberg*

Por mais de um século, os bancos detiveram o monopólio do nosso dinheiro. Quando criança, lembro-me de dirigir com minha família para o banco da comunidade local, onde o mundo do dinheiro começou e terminou para os meus pais. Os bancos forneciam um serviço único para todos, baseado em uma experiência clássica de “tijolo e argamassa”. A única escolha do consumidor era qual cor do pirulito pegar na boca do caixa. Avançando rapidamente três décadas, e isso parece cena de uma pintura de Norman Rockwell.

Chegamos a um ponto de inflexão em “fintech”, onde os empreendedores disruptivos se movem de entrantes para líderes de mercado por seus próprios méritos, à medida em que expandem seus serviços, desenvolvem suas marcas e aumentam sua participação no mercado. Prevejo várias tendências que se desdobram ao longo dos próximos doze meses:

Fintechs começam a se parecer mais com bancos

Nos últimos anos, as empresas de tecnologia financeira causaram desagregação significativa no setor financeiro tradicional. Inicialmente, essas startups apelaram para os consumidores, facilitando e tornando mais agradável a realização de transações bancárias individuais, como transferir ou pedir dinheiro emprestado, poupar, investir ou negociar ações. Eles apostaram em uma experiência de produto superior para engajar os primeiros usuários e criar bases sólidas de clientes. É como a inovação geralmente começa, com startups digitalizando as melhores e mais vulneráveis partes de um negócio tradicional.

Este ano, veremos mais e mais desses primeiros “disruptores” expandindo seus serviços e agregando mais funcionalidades em torno de seus principais produtos, continuando a tendência que ganhou força no ano passado. Faz sentido que os aplicativos de planejamento financeiro incluam controle ou que os serviços de empréstimo procurem o mercado de cartões de crédito. Vimos esse lado inexplorado começando a refletir em algumas avaliações multibilionárias dessas empresas. A Robinhood, uma de nossas empresas de portfólio, subiu acima de US$ 5 bilhões no ano passado por conta de suas impressionantes métricas financeiras, mas também por sua oportunidade futura. A empresa tem milhões de clientes que amam a experiência e estão ativamente engajados, representando um enorme mercado direcionado ao lançamento de serviços expandidos.

Essas empresas farão progressos significativos neste ano para se tornarem a nova geração dos bancos. Com certeza, os players existentes não desaparecerão – na verdade, algumas das instituições financeiras mais avançadas trabalham muito para se manterem relevantes. Mas com centenas de bilhões de dólares em capitalização de mercado entre os bancos tradicionais preparados para disrupção, investidores de risco continuarão a apostar que mesmo empresas em estágio final têm muito espaço para crescimento futuro.

Seu aplicativo financeiro vai refletir seu estilo pessoal

À medida em que esse reagrupamento ocorre, veremos algumas dessas novas marcas começarem a atrair diferentes tipos de consumidores. O futuro do setor bancário será muito mais sobre identidade de marca do que sobre funcionalidade. Seu aplicativo bancário dirá tanto sobre você quanto suas roupas, sua escolha musical e o carro em sua garagem.

Esta é uma grande mudança em relação ao status quo. A maioria das pessoas se sente indiferente ao seu banco hoje, ou não gosta nada dele. Esses sentimentos são o resultado de pelo menos alguns fatores: a sensação de que os grandes bancos são todos iguais; falta de confiança decorrente da crise financeira de 2008; taxas surpresa que parecem injustas e predatórias ou frustração com o ritmo lento do mercado à medida em que se torna online. A lista poderia continuar.

À medida em que o setor bancário se torna mais pessoal, as empresas vão encontrar vozes únicas e autênticas respaldadas por ofertas sob medida para atender às necessidades e desejos de seus clientes. A SoFi, mais conhecida por sua solução de empréstimo estudantil, direciona seu vasto orçamento de marketing para os chamados HENRYs (high-earners-not-rich-yet N.T.), oferecendo “experiências para os participantes” como happy hours e coaching de carreira – com colocações de anúncios nos eventos X Games e nos shows do IHeartRadio. A Ellevest quer redefinir o investimento para as mulheres e comercializa um conjunto de ferramentas projetadas especificamente para elas. Acorns, aplicativo de investimento amplamente utilizado, patrocina um motorista na Nascar. Novas marcas fintech estão vindo para trabalhadores da economia gig, veteranos, Baby Boomers e muitos outros.

Bancos vão se esforçar para atualizar sua tecnologia

A infraestrutura legada não foi construída para um mundo em que serviços individuais são desagregados dos bancos. Não foi construída para um mundo que assiste a uma desagregação rápida e um reagrupamento de serviços. Agora, as ferramentas subjacentes precisam acompanhar os novos softwares e serviços que são criados. Vimos esses tipos de ciclos em muitos cenários novos, como GPUs (N.T. Graphics Processing Unit, ou unidade de processamento gráfico) e chips que se deparam com o aprendizado de máquina, por exemplo. É um constante empurra-empurra no mundo da tecnologia, e atingimos o ponto de inflexão que demanda uma nova infraestrutura de tecnologia financeira de suporte.

Enquanto clientes se concentram em aplicativos novinhos em folha que povoam a App Store, empreendedores que buscam caminhos alternativos encontrarão grandes oportunidades. Como a Amazon Web Services nos mostrou, as empresas que oferecem escalabilidade e flexibilidade podem se tornar poderosas. Essa foi a tese por trás da mais recente empresa em que investimos, a Plaid, que ajuda milhões de clientes a conectar suas contas bancárias a serviços como Venmo e Coinbase. Ao torná-lo mais barato e mais fácil para os desenvolvedores construírem, a Plaid acelera o crescimento das fintechs. Continuamos buscando empreendedores que inovam em outras áreas das diversas que existem em tecnologia, como pagamentos e infraestrutura de compliance.

O que vem a seguir?

Como pai de um bebê que vai nascer, é divertido imaginar como meus filhos vão interagir com o dinheiro. As experiências bancárias serão mais digitais, mais pessoais e mais perfeitas do que qualquer coisa que experimentamos no passado. Olhando para trás, eles podem ver 2019 como um ano crucial nessa evolução.

*Mark Goldberg é sócio da Index Ventures, que investe em tecnologia financeira e software corporativo. A Index Ventures é um investidor da Plaid, Revolut e Robinhood.

N.T. – De acordo com a Quirks Media, HENRYs são assim chamados por terem renda superior a quase 80% de todos os lares americanos, que na economia de hoje começa um pouco acima de US$ 100.000. Mas eles ainda não atingiram o nível dos ultra-ricos, os 2 a 3% das famílias com renda a partir de US$ 250.000. Os HENRYs são os novos afluentes de classe média.

Fonte: Fortune

Tradução e adaptação: Edilma Rodrigues


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