Open banking enfrenta resistência de PMEs britânicas. No Brasil, a abertura de dados deve começar no início de 2020


Por Edilma Rodrigues

Quase metade (47%) das pequenas e médias empresas (PMEs) do Reino Unido não se sentem confortáveis para se engajarem com o open banking e 25% informam que não compartilharão dados com outros provedores financeiros sob nenhuma circunstância. A constatação é da pesquisa “Is open banking open for business?”, da KPMG e 3GEM, com 1 mil PMEs, registradas ou baseadas no Reino Unido e volume de negócios de até £ 7 milhões, em vários setores. O levantamento foi consolidado em novembro de 2018 e divulgado esta semana no Brasil.

De acordo com a pesquisa, as pequenas empresas com foco doméstico e de propriedade ou gerenciadas por pessoas com mais de 45 anos são as mais céticas no modelo, que permite, por meio de tecnologia, integrar interfaces de programação de aplicativos ou APIs. E estabelece a abertura dos dados dos clientes de instituições financeiras, novas e tradicionais, a terceiros. Na prática, desde que a haja anuência do cliente, este pode acessar e movimentar contas bancárias em qualquer plataforma, como já acontece com o WhatsApp.

O Reino Unido tem norma consolidada a respeito, o que o coloca como parâmetro no assunto, também para as iniciativas brasileiras. Lá, a Competition & Markets Authority (CMA) criou regulamento com diretrizes para o open banking. Na norma britânica, o compartilhamento se restringe a informações bancárias mais básicas e dados sobre pagamentos. Segundo o Valor Econômico, o Reino Unido optou por um modelo de regulação detalhado e controlado para o open banking, em tese mais favorável aos bancos tradicionais. “O sistema estipulou padrão para as APIs, princípios de governança, regulação formal dos prestadores de serviços e compartilhamento obrigatório dos dados. A regra da União Europeia não determinou a padronização das APIs.

A quantas andam as normas para o open banking no Brasil?

O Banco Central do Brasil mantém discussões sobre o open banking com bancos e fintechs e vai divulgar proposta, que deve seguir para consulta pública no terceiro trimestre de 2019. Além disso, até junho, o regulador promove um workshop sobre o tema. Já a abertura dos dados dos clientes pelos bancos está prevista para o início de 2020. “A implantação será feita em etapas, e a ideia é que comece pela abertura de informações de produtos e serviços oferecidos pelas instituições financeiras – sem entrar nos dados dos clientes propriamente,” informa o Valor

O presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, durante a Conferência Anual sobre Macroeconomia e Estratégia, Goldman Sachs Brasil, que aconteceu em 1º de abril, falou sobre as novas prioridades e reformas estruturais para o sistema financeiro, a já famosa Agenda BC+. Segundo Campos Neto, a Agenda BC+ está sendo reavaliada e será ampliada, com a incorporação de novas dimensões: inclusão; precificação; transparência e educação financeira. Dentro dessas novas dimensões, estão sendo criados 14 grupos de trabalhos para avaliar mais detidamente cada ponto.

O open banking está na dimensão de precificação, cujo objetivo é “promover a adequada precificação por meio de instrumentos de acesso competitivo aos mercados.” Sobre ele, o BC está fazendo estudos para o desenvolvimento de um modelo de open banking para o Brasil. “O objetivo é reduzir as barreiras à entrada e aumentar a competição.”

Open banking: o futuro das transações bancárias

O sócio-líder de serviços financeiros da KPMG no Brasil, Ricardo Anhesini, defende que o open banking representa o futuro das transações bancárias, uma vez que amplia significativamente as possibilidades de negócios. “Esse conceito está revolucionando o setor, criando novas oportunidades e transformando o modelo de negócios das entidades dedicadas ao setor financeiro. Considerando que o Banco Central do Brasil caminha no sentido da regulamentação dessa prática, veremos uma nova onda de transformação, comparável com a introdução do Sistema Brasileiro de Pagamentos ou da criação da Indústria de Fundos de Investimentos. Essa nova onda colocará ainda mais poder nas mãos dos consumidores,” assinala.

Ainda segundo o executivo, a promessa do open banking é que o compartilhamento de dados amplie o entendimento das necessidades dos clientes, incentive a concorrência, e contribua para a oferta de melhores produtos para o setor bancário, de modo a elevar a experiência do usuário. “Contudo, apesar das vantagens, as empresas de pequeno e médio porte ainda precisam ser convencidas sobre os principais benefícios para entenderem como podem implementar modelos de negócios mais inovadores e flexíveis”, completa Anhesini.

Mais sobre a pesquisa “Is open banking open for business?”

A pesquisa também concluiu que, embora o open banking não seja para todos, nem tudo está perdido, pois 30% das pequenas e médias empresas, geralmente aquelas de alto crescimento focadas em tecnologia ou serviços financeiros, são altamente receptivas aos objetivos do open banking, o que deve gerar oportunidades para os provedores otimizarem seus serviços. “Outro dado importante é a constatação que algumas organizações financeiras são mais talentosas em servir clientes e outras mais capazes para desenvolver ofertas e precificar produtos com qualidade. Outros dados relevantes da pesquisa são que: 44% não pagariam por qualquer serviço de open banking; 24% pagariam para fazer e receber pagamentos com mais facilidade e rapidez; 22% pagariam por um dashboard ou algum tipo de painel de controles contendo todas as operações financeiras, empréstimos, poupanças e ativos, entre outros”, informa o comunicado da KPMG

A pesquisa destaca ainda que sistemas de pagamento em tempo real serão proliferados e novas maneiras de compartilhamento de informações bancárias serão desenvolvidas por meio de ecossistemas digitais. No caso dos bancos, haverá mais criatividade nos serviços, o que ajudará a criar um ambiente bancário mais competitivo, com novas formas de acesso aos clientes, expansão da base de clientes e alvos e, consequentemente, mais fontes de receita.

Em agosto de 2018, a KPMG e a 3GEM, buscaram saber a opinião de mil PMEs sobre open banking, por meio de questionário aprofundado. Todos os entrevistados eram proprietários (59,5%), diretores de finanças ou decisores financeiros (14,2%) e diretores gerais (9,2%) de PMEs, com volume de negócios de até £ 7 milhões, registradas ou baseadas no Reino Unido, em vários setores, excluindo instituições de caridade, empreiteiras, clubes e sociedades. Os respondentes são de empresas de bens de consumo e varejo (23,6%); tecnologia, mídia e telecomunicações (13,8%), manufaturas (8,7%), serviços financeiros (7,8%) e outros (46,1%). A pesquisa, na íntegra, está disponível no link: http://assets.kpmg.com/content/dam/kpmg/uk/pdf/2018/11/is-open-banking-open-for-business.pdf.

Com informações de openbanking.org.uk, assessoria de imprensa da KPMG, Bacen e Valor Econômico


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