IPO’s, unicórnios e recorde em capital de risco: as corporações estão preparadas para o próximo estágio de maturidade do ecossistema?


Por Alex Comninos*

Cinco das dez empresas mais valiosas do mundo atualmente usam um modelo de negócios de plataforma para defender e aumentar sua participação no mercado. Esse grupo inclui o Alibaba, cujo IPO, realizado em 2014, bateu o recorde de US$ 21,8 bilhões e foi baseado nos princípios centrais do smart business: fomentar o desenvolvimento de um ecossistema digital aberto, coordenado e próspero. As corporações globais não hesitaram em demonstrar seu interesse nesta abordagem, reconhecendo que o crescimento poderia ser alcançado de forma mais eficiente por meio da colaboração com especialistas digitais externos.

Um estudo recente da Telefonica Wayra destacou um aumento expressivo em programas de inovação corporativa na América Latina, passando de 16 para 183 nos últimos 2 anos. O Brasil está na liderança absoluta com 63 programas, superando seus pares Chile e México, que têm 28 e 24 programas do tipo, respectivamente. Após uma primeira onda de experimentação, fica a dúvida: a inovação aberta poderia ser ainda mais ousada, já que casos de colaboração bem-sucedidos vêm sendo recompensados com investimentos decisivos e/ou aquisições? As questões fundamentais são: se não pela via das corporações locais, então por qual? E o que essa apropriação significa para o mercado brasileiro?

2018 deu ao ecossistema do Brasil seu primeiro case de exit de bilhões de dólares, quando a 99 foi adquirida pelo gigante da mobilidade Didi Chuxing. Para além da euforia em torno do unicórnio, mostrou que os modelos de negócios emergentes no Brasil poderiam chegar a ter escala e, mais importante, poderiam obter os retornos certos para os investidores. Os fundadores imediatamente decidiram reinvestir pelo menos uma parte do que receberam na nova estrela da mobilidade, Yellow, demostrando a crença de que o ecossistema do Brasil era forte o suficiente para que a façanha se repetisse. Isso foi rapidamente validado pelos disruptores Pagseguro e Stone, ambas fintechs, que decidiram que entrar na Bolsa de Nova Iorque (NYSE) era a melhor estratégia para aumentar a escala e o impacto.

Crescimento forte do capital de risco vem transformando indústria de baixo para cima

Em 2018, até o momento, as startups brasileiras captaram mais de US$ 1 bilhão (um volume de negócios 19% maior do que em 2017) em investimentos de capital de risco, o que representa capital necessário para modelos de negócios emergentes ganharem escala e garantirem participação de mercado. Dificilmente os setores nos quais estão alocados esses investimentos surpreenderão o público: as áreas de fintechs, varejo e mobilidade captaram mais de 50% do volume de negócios e impressionantes 93% do valor dos negócios fechados em 2018 até o momento. Depois disso, algumas empresas líderes do Brasil, como a BTGPactual e a Senior Solution, tomaram decisões estratégicas com o intuito de lançar modalidades de investimento. O benefício é que o capital é empregado exclusivamente em um fluxo de negócios que tem relevância estratégica, trocando escala por aprendizados perspicazes sobre as dinâmicas de uma indústria que se move rapidamente.

Fintech inc. lending, payments, SMB
Retail inc. eCommerce, restaurant tech, marketing
Enterprise inc. cloud, HR, legal
Publishing inc. gaming, dating, news
Green tech inc. Ag tech, clean tech, solar
Mobility inc. car sharing, logistics, drones
Health inc. wellness, patient management, doctor on demand
Real estate inc. construction, smart home, rental marketplace
Ed tech inc. student tools, teacher tools, adaptive learning

Fintechs indo além do “hype”

Um movimento de consolidação sugere que as fintechs emergentes estão penetrando lentamente nas cinco grandes fortalezas que dominam o setor bancário. Esta impressão é reforçada pelos desenvolvimentos observados com o C6 Bank e sua equipe de open banking, que vem crescendo rapidamente (mirando a meta de alcançar 400 funcionários em seu primeiro ano ) e o amadurecimento da tração conseguida pelo Nubank.

Este último teria faturado R$ 500 milhões em 2017, com sua base estimada de 4 milhões de usuários. Embora isso continue sendo comparativamente baixo, eles desbravaram um caminho em meio a uma regulamentação complexa e estão fortalecendo o ecossistema com relações colaborativas, como com o GuiaBolso.

Considerando a concepção de “smart business” do Alibaba, as empresas financeiras brasileiras fizeram movimentos claros para se conectar melhor com o valor digital emergente. O Banco Votorantim fez uma parceria estratégica com o emergente Banco Neon, demonstrando que a colaboração poderia ser mais eficaz do que o desenvolvimento interno. Além disso, o Santander demorou, mas participou da rodada de captação Série C da Creditas, líder em empréstimos. O primeiro investimento do banco em uma startup brasileira permitirá que a instituição acelere o crescimento no mercado local de empréstimos enquanto monitora de perto os modelos emergentes, facilitando a provisão deste serviço.

Transformação digital do varejo em momento decisivo

O setor varejista no Brasil parece estar seguindo o manual de disrupção digital liderado internacionalmente pela Alibaba e pela Amazon. A líder em logística Loggi agora com mais de 79 milhões de pessoas, ou 70% dos serviços de e-commerce do país. Investimentos recentes da Softbank e da Qualcomm impulsionarão o crescimento com o benefício secundário de permitir que marcas de varejo regionais tenham mais acesso aos compradores conectados. Do lado do consumidor, o império de mercado da Movile levantou uma assombrosa soma de USS124 mi, e agora conta com mais de 150 milhões de usuários ativos todo mês. O mundo está esperando para ver se o investidor Naspers pode repetir o mesmo sucesso que com o Tencent, que recebeu investimento inicial de US$32 mi e neste ano já foi avaliada em US$175 bi .

Os grandes varejistas do Brasil, como o Magazine Luiza, estão fazendo um esforço consciente para se manterem à frente das necessidades dos clientes, que se transformam rapidamente. Sua recente aquisição da startup de logística Logbee mostra um claro reconhecimento da penetração do comércio eletrônico e do valor em potencial obtido por meio da presença de ponta-a-ponta no contato com o cliente. A Via Varejo também deu passos ousados fora do modelo tradicional de negócios, usando uma parceria com a Airfox para oferecer soluções de serviços bancários móveis aos seus clientes, incluindo microempréstimos e pagamentos móveis.

O que podemos esperar para 2019?

Embora o que foi discutido acima seja promissor, as saídas (exits) deste ano vêm principalmente de fontes internacionais (como Didi Chuxing & 99, Pagseguro e Stone via NYSE), e investidores internacionais (Tencent, Sequoia, Softbank e Naspers, por exemplo) continuam a ter participações significativas em rodadas de captação. Paralelamente, o mercado está testemunhando a rápida entrada de empresas internacionais de tecnologia no cenário competitivo em busca de crescimento. O Waze, do Google, escolheu o Brasil para lançar sua plataforma de compartilhamento de caronas , enquanto a Amazon vem discretamente desenvolvendo seu ecossistema local, que agora inclui a CargoX e a Natura. As evidências sugerem que os líderes digitais globais estão se movendo rapidamente para assumir papéis estratégicos dentro dos mercados emergentes, utilizando as fundações estabelecidas pela nova infraestrutura digital e rápida adoção digital para construir suas soluções.

É muito improvável que essa nova atividade perturbe corporações estabelecidas da noite para o dia. No entanto, os líderes do setor devem ter conhecimento das inovações em modelos de valor, canais de distribuição e talentos. Os players locais poderiam, portanto, considerar o reforço da inovação em três frentes. Em primeiro lugar, chegando a um consenso no nível executivo sobre o motivo pelo qual a inovação é importante, antes de identificar quais temas emergentes específicos são prioritários para o futuro dos negócios. Finalmente, procurando criar novas funções que validem rapidamente hipóteses-chave por meio de modelos de governança revisados.

Uma vez que a visão, os objetivos e a estrutura estejam em vigor, as equipes internas devem receber permissão e recursos para executar sem medo de falhar. Por design, as equipes nucleares existem para realizar a manutenção do modelo de negócios principal, ou core business, e, portanto, há uma necessidade de novas formas de pensar que se concentram inteiramente na futura reinvenção. Novos talentos devem agir independentemente, em posições ágeis voltadas para a inovação que se estendam horizontalmente por toda a empresa, garantindo que as atividades sejam focadas em necessidades relevantes de negócio sem se tornarem uma distração para as equipes principais.

Os princípios de “smart business” do Alibaba provavelmente separarão os líderes digitais dos retardatários, e, assim, os players do Brasil devem considerar a atualização de suas iniciativas de inovação, desde experimentos de pequeno porte a investimentos e impacto significativos. A decisão da Unilever de adquirir a Dollar Shave Club por US$ 1 bilhão e o investimento multibilionário da Goldman Sachs na Marcus destacam o comprometimento necessário para acompanhar o ritmo da indústria da inovação. A incapacidade de tomar medidas decisivas frente aos ótimos resultados obtidos a partir de projetos de inovação aberta podem fazer com que as empresas fiquem menos preparadas para as demandas futuras da indústria e, ao mesmo tempo, permitir que concorrentes emerjam desse cenário competitivo para estabelecer raízes digitais profundas.

*Alex Comninos é LATAM CEO & Partner da Founders Intelligence, que auxilia líderes globais da indústria na implementação de estratégias digitais e na inovação de modelos de negócios.


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