Há o que comemorar no Dia Internacional das Mulheres?


Por Edilma Rodrigues

Apesar das mudanças incontestáveis do papel das mulheres na sociedade, a jornada rumo à obtenção efetiva da equidade de gênero, em todas as esferas da vida, ainda tem muitas adversidades a serem transpostas. Situações que vão desde a imposição de normas de beleza, ao chamado teto de vidro em diversas carreiras e que reduz o número de executivas na liderança, até à lamentável violência contra as mulheres ainda pairam sobre todos.

Há profissões tradicionalmente exercidas por homens e que infelizmente ainda apresentam barreiras à entrada e ascensão das profissionais. Algumas são explícitas por se considerar a compleição física das mulheres inadequada (o que não se justifica mais devido ao uso de tecnologias, guindastes etc.). É o caso de motoristas de caminhão, estivadoras, pedreiras etc. Outras atividades são menos aparentes, mas nem por isso, menos prejudiciais ao crescimento da economia e melhoria das condições na sociedade, como em ciências, no mercado financeiro e, especialmente, em tecnologia da informação.

Segundo relatório da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – divulgado no mês passado, apenas 17% do total de programadores são mulheres: “ou seja, ficam fora de uma das carreiras mais promissoras, que oferece boas perspectivas de remuneração, ascensão profissional e visão de novos negócios,” relata matéria da Época Negócios. Os dados fazem parte do estudo “Por um Planeta 50-50: Mulheres e meninas na ciência e tecnologia”, realizado pela ONU Mulheres, Unesco Brasil e Serasa Experian.

“As mulheres representam 33,1% dos graduados em ciências, tecnologia e matemática nas universidades brasileiras e 29,5% dos formados em engenharia. Mas os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD/IBGE) mostram que apenas 20% dos profissionais que atuam no mercado de TI são mulheres,” assinala o economista e empreendedor brasileiro, Arie Halpern.

A diferença salarial entre homens e mulheres não dá trégua

A 57ª Pesquisa Salarial da Catho, realizada em agosto do ano passado com cerca de 17 mil respondentes, aponta que as mulheres continuam recendo salários menores do que os homens, exercendo a mesma função. Isso ocorre em todas as categorias de níveis hierárquicos pesquisadas. As funções que se destacam com as maiores diferenças de valor são de presidente / diretor / gerente, em que as mulheres recebem 31% menos; e na função de profissional graduado, com 36% de diferença salarial.

“Algumas funções ainda aumentaram a diferença salarial se compararmos a 2017. É o caso de profissional graduado, que passou de 34% a 36%; analista, que foi de 17% a 28% e assistente /auxiliar, que sofreu leve aumento de 8% a 9%. Outros níveis hierárquicos tiveram a diferença salarial entre homens e mulheres reduzida do ano passado para esse. É o caso de supervisor / coordenador / líder / encarregado, que passou de 22% para 16%, profissional técnico de 32% para 14% e operacional, cuja queda foi de 15 pontos percentuais,” informa nota da empresa à imprensa.

Elas usam criatividade e determinação para transpor obstáculos

Letícia Barbosa é consultora independente e trabalha no Qatar com prospecção de cooperação técnica e de investimentos para a Copa de 2022. Literalmente, saiu do sertão – Mauriti, no Ceará – para o mundo. Ela é o tipo de mulher que chama a atenção. Foi Miss Mundo Ceará, em 1991, e afirma que beleza dificultou sua trajetória profissional. “As mulheres pagam um preço muito alto porque nunca se atribui capacidade, integridade, ética e inteligência a uma mulher bonita,” comenta.

No entanto, ela acredita que a determinação e o sonho foram os principais impulsionadores em sua carreira de quase 30 anos. Formada em Ciências Políticas, Secretariado Executivo e Direito, atuou com serviço social no Ceará, foi chefe de gabinete na câmara dos deputados em Brasília e do gabinete militar do Amazonas, quando fez prospecção tecnológica e encabeçou as negociações que permitiram que Manaus tivesse acesso à internet por satélite.

Letícia, que nunca tira férias, angariou respeito e apoio dos homens com quem trabalhou e avalia: “Por incrível que pareça, ser mulher, como um fator surpresa, me ajudou muito nas negociações porque fui subestimada. Sempre transformei o limão em limonada e, em algumas situações, o limão virou uma mousse.”

Vanessa Silva, sócia e head of Custumer Success da fintech Allgoo, braço digital de instituições financeiras e expert em inteligência artificial e bancária, faz parte da minoria das profissionais formadas em engenharia da computação. Ela começou no mercado de tecnologia com 17 anos, quando conseguiu seu primeiro emprego na área de desenvolvimento de sistemas, e ficou por lá durante seis anos.

Mas, ela teve suas lutas. “Nessa empresa o preconceito era duplo: ser mulher e muito nova. Era comum escutar comentários desnecessários e ouvir algo como ‘desculpa, esqueci que tinha uma menina aqui na sala’. O que mais me marcou foi ouvir de um gestor que eu ‘estava querendo dar um passo maior que a perna’ pelo fato de eu querer discutir algumas ideias sobre nossa área. Passei a levar essa frase como incentivo para continuar focada em meus objetivos de crescimento profissional,” relata.

Desde quando escolhi o curso de engenharia para a graduação, tinha noção de que a predominância era masculina. Minha estratégia sempre foi me destacar mesmo diante dessa ‘cultura’ onde o homem tem mais espaço na área de tecnologia. Sempre fui focada em minhas metas e onde eu queria chegar profissionalmente, e posso dizer que esse foco fez com que eu acabasse não me sentindo diferente deles e isso com certeza me ajudou a crescer,”

A Allgoo conta atualmente com três mulheres em seu quadro de colaboradores, composto por 14 colaboradores. Duas delas estão na liderança. Além da Vanessa, uma executiva lidera a área de UX (User Experience). “Na Allgoo a cultura é diferente, o espaço e chance de crescimento é igual para homens e mulheres e o importante é que isso fica bem claro.”

Exemplos a serem replicados

Quando o assunto é a participação feminina no mercado de trabalho, em especial no mundo das startups, ainda há desafios para se atingir a equidade de gênero. Segundo a Associação Brasileira de Startups, cerca de quatro em cada dez startups no país não têm sequer uma mulher como força de trabalho. Quase 37% das startups mapeadas é composta em sua maioria por homens.

Na KOIN, fintech de meios de pagamento, 50% da equipe é composta por mulheres e 50% por homens. Em cargos de liderança, a composição é a mesma: metade dos líderes são mulheres. A gerente de RH da empresa, Carolina Mattos, explica que a diversidade tem dado resultados positivos e contribuído para o sucesso do negócio da KOIN. É o que também mostra o estudo da consultoria McKinsey, em que empresas com mulheres em cargos de liderança apresentam 21% mais chance de ter desempenho financeiro acima da média.

“As fintechs possuem produtos inovadores, serviços disruptivos e uma cultura de muita autonomia. Para isso se manter é necessário ter um time diverso, seja por gênero, por formação ou por histórico de vida. Os iguais produzem resultados iguais. Os diferentes produzem resultados diferentes. E é exatamente essa composição que contribui com a revolução que estamos propondo para o mercado de serviços financeiros”, comenta Carolina.

De fato, as startups têm se sobressaído ao propiciar mais espaço profissional para as mulheres, que se destacam em diversos segmentos. Algumas, aproveitaram gargalos em setores distintos da economia para fundarem startups que oferecem novas soluções tecnológicas, como a Mariana Dias, fundadora da Gupy, startup de recrutamento e seleção com base em inteligência artificial. A plataforma da empresa atua em oito países, usando inteligência artificial e machine learning, para montar um ranking de candidatos com melhor perfil para suas vagas.

A Deborah Alves fundou a Cuidas, startup que conecta empresas a médicos de família no local de trabalho e a Isis Abbud é a fundadora da startup de gestão de documentos fiscais, Arquivei, cuja solução tecnológica é usada por 60 mil empresas. Já a Nicole Stad fundou a Inti, plataforma de gestão e Business Intelligence (BI) de vendas e compras de ingressos, season tickets, doações e inscrições para eventos e a Claudine Blanco trouxe para o mercado a Viajar com Crianças, primeira agência de turismo especializada em viagens entre pais e filhos.

Em virtude da baixa ocupação de cargos por mulheres no setor de TI, algumas empresas, como a Lambda3 – especializada em soluções customizadas desde o desenvolvimento de software até a tomada de decisão inteligente – adotam modelo de gestão de pessoas que estimula a contratação de mulheres. Além de valorizar e ajudar as funcionárias a encontrarem e reconhecerem seus valores, incentivando-as a lutar por um ambiente justo com salários e direitos igualitários não apenas no mercado de trabalho, mas na sociedade como um todo.

Apesar da persistência das diferenças e dificuldades, diante de todas essas histórias, parece que, sim, há o que comemorar no Dia Internacional das Mulheres.


Fique atualizado em relação as principais notícias do setor. Inscreva-se na Newsletter e nos acompanhe nas Redes Sociais (Facebook, Linkedin, Twitter e Instagram).