A disputa pelo trabalho entre máquinas e humanos


Por Edilma Rodrigues

O desenvolvimento e a aplicação, cada vez maior, da inteligência artificial, do aprendizado de máquina, da robótica, da internet das coisas, de drones, chatbots e veículos autônomos, entre outras tecnologias, podem representar risco a várias profissões. Estudo do Laboratório de Aprendizado de Máquinas em Finanças e Organização da Universidade de Brasília, UnB, aponta que mais da metade dos empregos formais no Brasil estão ameaçados por robôs. Segundo a pesquisa, 54% das pessoas ocupadas se encontram em funções classificadas com probabilidade “alta” – de 60% a 80% – ou “muito alta” – acima de 80% – de serem exercidas por máquinas.

A substituição se dará, segundo esses acadêmicos, especialmente em funções “tipicamente rotineiras e não-cognitivas”, como ascensorista de elevador (com 99,9% de que o trabalho seja exercido por máquinas no futuro), taquígrafo (99,5%) ou coletor de lixo (89,3%). Também estão na lista tarefas cognitivas num nível já alcançado por formas de inteligência artificial (IA), como recepcionista de hotel (99,1%), cobrador de ônibus (99,3%) e gerente de almoxarifado (93,4%).

Muitas perguntas surgem sobre a questão. Os robôs vão substituir mesmo trabalhos considerados estratégicos? O que fazer para manter a empregabilidade? Essa substituição permitirá trabalhar poucas horas por semana enquanto máquinas executam a maior parte dos serviços?

Atualmente, a discussão sobre o trabalho homem x máquina tem como base principal a teoria do economista Carl Benedikt Frey, e do especialista em IA Michael Osborne, pesquisadores na Universidade de Oxford. Em um artigo científico de 2013, Frey e Osborne previram que 47% dos empregos nos Estados Unidos estavam sob ameaça dos robôs. “Desde então, publicam-se regularmente outros estudos, com diferentes métodos, que chegam a distintos,” informa a revista Época Negócios.

Trabalhadores brasileiros superestimam suas qualidades

Pesquisa da Época NEGÓCIOS, Tera e Scoop&Co mostra que os brasileiros subestimam o impacto da transformação digital e superestimam suas próprias qualidades. Dos 980 profissionais de empresas localizadas em grandes centros urbanos do país, 25% já sentiram que a tecnologia e suas transformações afetaram negativamente o trabalho que realizam, e 10% acham que vão sentir efeitos em breve. “A despeito disso, 87% se sentem capazes de se adaptar à nova realidade,” informa a revista que acrescenta: “Uma análise mais detida dos dados mostra que o brasileiro superestima suas capacidades. Dos 75% que afirmam estar preparados para a transformação digital, 42% não conhecem ou não têm nenhuma das 14 competências digitais mais desejadas por empregadores de acordo com o LinkedIn. ‘Vejo um descasamento de tempo. Por mais que as pessoas estejam otimistas e busquem novas competências, as demandas mudam mais rápido. Isso impacta quem já está no mercado e quem está entrando’, diz Leandro Herrera, fundador da Tera.”

Como se manter competitivo frente às máquinas?

Para o COO da casa de análise financeira Suno Research, João Vitor Chaves, é preciso estimular o pensamento crítico. Segundo ele, um bom sistema educacional deveria estimular a fazer o novo ao invés de ensinar a seguir regras e padrões impostos. Também é necessário ter criatividade porque “todo trabalho que não envolva criatividade desaparecerá”, salienta. Além das habilidades interpessoais: “O que estou dizendo é que o foco não deveria ser aprender a fazer contas ou decorar fatos, mas, sim, ensinar a usar isso para criar algo novo, algo que nenhum robô possa fazer. Precisamos parar de treinar as pessoas para serem robôs ruins e passar a capacitá-las para serem humanos excepcionais.”

De fato, a criatividade cresce em relevância. Ela era a décima habilidade mais demandada em 2015, segundo o Fórum Econômico Mundial – WEF. Em 2018, foi a quinta. Há três anos, no mesmo relatório, não se falava de “inteligência emocional”, “atenção aos detalhes” e “influência social”. No ano passado, as três aparecem entre as dez aptidões mais exigidas.

A lista das competências que os CEOs querem em suas equipes só aumenta e se torna mais sofisticada. A CEO da Solvay (dona da Rhodia) na América Latina, Daniela Manique, contou à revista que não existe inteligência artificial que vá substituir algumas qualidades. Para ela, além do forte componente técnico, o comportamento do profissional é fundamental “quero saber como vai lidar com a equipe, se é bom em entender e motivar pessoas. Precisa se preocupar com a qualidade de vida delas. E é fundamental ter ética para lidar com esse mundo de excesso de dados e de fake News.”

Outros executivos ouvidos pela revista Época Negócios ressaltam outras competências. A arquiteta de soluções da Amazon Web Service Brasil, Claudia Charro, disse que não basta ser especialista. “É preciso saber resolver problemas. É preciso hoje gostar de não saber tudo e aprender algo novo todos os dias.” E a presidente da P&G no Brasil, Juliana Azevedo, avalia que os gestores precisam estar muito mais informados que antes, e é essencial o profissional saber fazer o melhor uso possível dos dados.”

Há também os mais otimistas. O gerente de novos negócios da Embraco, Deividi Silva, acredita que a tecnologia pode ajudar a liberar as pessoas para fazer as tarefas que importam para elas.

De todo modo, “as perspectivas são de avanço dos robôs. De acordo com o relatório do WEF, hoje as máquinas realizam 29% das tarefas nos locais de trabalho. Pelas projeções, em quatro anos a automação vai cobrir perto de 30%, mesmo dos trabalhos considerados hoje demasiado humanos, como comunicação, administração e tomada de decisões. Nesse período, o índice geral de tarefas realizadas por máquinas chegará a 42%. Por esse cálculo, o jogo vira de vez em 2025, quando a previsão é que os robôs façam mais da metade de todas as tarefas. É uma mudança dramática. O estudo incluiu dados de 20 países, incluindo Brasil,” informa a Época Negócios.

Para evitar um cenário de “perda-perda”, o WEF defende que empresas, governos e pessoas se curvem ao “imperativo da requalificação” (reskilling, em inglês). O problema, assinala a revista, é saber em quais competências investir, entre as técnicas (hard skills) e as comportamentais (soft skills).

Fonte: matéria publicada na edição de novembro de 2018 da Época Negócios, assessoria de imprensa da Suno Research e da UnB


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